O que aconteceu quando meu filho foi ao Walmart usando uma tiara cor-de-rosa

A homofobia está saindo do armário cada vez mais, principalmente em tempos em que religiosos fundamentalistas têm muito espaço nas TVs, na política e até, inacreditavelmente, na Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal. Mas a histeria para controlar a sexualidade alheia não atinge só adolescentes e adultos, não. Desde antes de nascer as crianças já são massacradas para se cercar somente de cores e objetos que marquem indubitavelmente o gênero que lhes é atribuído. Das roupas à decoração do quarto, dos brinquedos ao material escolar, tudo tem que ser rigorosamente “de menina” ou “de menino”, conforme o caso.

Esta semana tomamos conhecimento da experiência horrível pela qual passou a blogueira norte-americana Katie Vyktoriah com seu filho de 2 anos de idade num supermercado WalMart nos Estados Unidos ao serem agredidos por um sujeito homofóbico. O relato foi publicado no blog dela (do blog A Mother Thing) [temporariamente fora do ar], hospedado na versão on-line do jornal norte-americano The Huffington Post e viralizou rapidamente na internet; mesmo assim, não poderíamos deixar passar e apresentamos aqui nossa tradução do post da blogueira.

Além da seriedade do ataque homofóbico contra uma criança de apenas 2 anos de idade, precisamos considerar também a questão do contato físico com as crianças, especialmente as desconhecidas. Em que pese o fato de que a cultura norte-americana considera assédio o tipo de contatos físicos que para nós brasileiros é aceitável e corriqueiro, precisamos nos conscientizar de que toda criança tem o direito a autonomia sobre seu corpo. Por isso, tocar, abraçar e beijar crianças sem consentimento está errado, muito errado. Educar para a liberdade passa por respeitar a criança, por ensinar respeito… respeitando. Falaremos mais a respeito em um futuro post.

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O que aconteceu quando meu filho foi ao Walmart usando uma tiara cor-de-rosa
Texto de Katie Vyktoriah publicado no blog A Mother Thing – traduzido por Cecília Santos

Este é o Dexter. Ele tem dois anos. Adora fazer de conta que é o Batman, o Super-Homem e o Homem Aranha. É um menino como outro qualquer. Finge que está voando e captura os malvados que nos ameaçam. É o bagunceirinho mais fofo do mundo.

Dexter. Foto de Katie Vyktoriah, publicada no blog A Mother Thing
Deixa eu te contar mais umas coisas sobre o Dexter: Ele é um irmão mais velho fantástico. Ele demorou um pouco a falar. Costumava ser extremamente tímido, mas há pouco tempo começou a sair da concha. Ele adora conhecer gente e gosta de cumprimentá-las com um “OI!” bem animado. A cor favorita do Dexter é o rosa. Ele ama a Dora, a Aventureira. Às vezes ele veste minha saia como se fosse um vestido e adora ficar agarradinho com a mamãe.

Ontem à noite peguei meus dois meninos e fui com eles buscar umas coisas no Walmart. O Mark precisava botar o trabalho em dia, por isso me arrisquei sozinha, que é algo que eu não faço com muita frequência. Dá muito trabalho aprontar as crianças, botá-las no carro, encontrar um carrinho de compras, distraí-las enquanto faço compras e voltar pra casa com elas inteiras. Vocês que são pais e mães sabem do que eu estou falando.

Depois de pelejar para ele se vestir e calçar os sapatos, tive que arrancar dos braços do Dexter um urso de pelúcia gigante que ele pretendia levar conosco, o que acabou em lágrimas e ranger de dentes que de alguma forma eu consegui acalmar bem rapidinho. Mas quando tentei tirar da cabeça dele minha tiara enfeitada com uma flor de renda cor-de-rosa (que ele estava usando o dia inteiro), vi que ele estava pronto para fazer birra e acabei deixando a tiara com ele. Afinal, que mal haveria?

Chegamos ao supermercado e por incrível que pareça consegui fazer com que ele se sentasse no carrinho de compras sem maiores dificuldades. Ele estava se sentindo bem usando uma tiara fofinha de menina e encantando todas as velhinhas, acenando como um principezinho. Tirei esta foto depois que duas senhoras vieram me dizer que amor de criança ele é.

Ele estava arrasando com a tal tiara.

Rapidinho terminamos com as compras e estávamos indo para o caixa. Quando passamos pela seção de hortifruti, duas adolescentes começaram a dar risadinhas e uma delas perguntou: “É menino ou menina?” Eu sorri e respondi: “Menino”. Olhei pra ele com adoração enquanto elas continuavam com as risadinhas.

De repente, um vozeirão. “É MENINO?!” Era um sujeito imenso, de barba cerrada, vestindo camiseta de estampa de camuflagem sem as mangas, bermudas esfarrapadas e coturnos sem os cordões. Cheirava a cigarros e seu hálito fedia a cerveja.

“É sim”, respondi simplesmente, sem deixar de sorrir.

De repente, do nada, o homem se aproximou, arrancou a tiara da cabeça do Dexter e jogou-a no nosso carrinho. Daí deu um tapinha na cabeça do Dexter (sem força, mas isso não vem ao caso) e disse, rindo alto: “Um dia você vai me agradecer, rapazinho!”

Ao mesmo tempo em que eu pulava pra frente, o Dexter segurou a cabeça onde o homem havia batido, jogou a outra mão para a frente, bateu os pés e gritou “NÃO!” Fiquei entre meu filho e o sujeito e disse com toda a firmeza: “Se você tocar em meu filho de novo, eu vou decepar as suas mãos.”

O cara rosnou pra mim, olhou pro Dexter com nojo e disse: “Seu filho é um viadinho de merda”. E começou a se afastar, mas não antes de se virar e soltar: “Um dia ele vai tomar um tiro por causa disso.”

Fiquei parada lá, tremendo, os punhos cerrados, até o homem sumir porta afora, e aí desabei. Eu estava tremendo feito louca, engolindo as lágrimas e confortando o Dexter.

Ninguém, absolutamente ninguém disse ou fez alguma coisa. Várias pessoas testemunharam o encontro, mas ninguém veio oferecer apoio ou consolar a mim ou ao meu filho.

Deixa eu repetir: o Dexter tem DOIS ANOS DE IDADE.

Lá estava eu, com uma criança de 2 anos de idade e um bebê de 5 meses, e meu filho tinha sido agredido física e verbalmente por um homem. E ninguém fez absolutamente nada.

Fui para o caixa ainda em choque, paguei minhas compras e fui embora. Não comuniquei a gerência ou as autoridades, mas estou pensando em fazer as duas coisas. Mas, como eu moro em uma área turística, duvido que eu possa fazer qualquer coisa para encontrar o homem – ele poderia ser qualquer pessoa de qualquer lugar.

Faz quase 24 horas, eu desabafei no Facebook,  recebi muitos comentários de apoio e me acalmei.

Estou analisando a situação com o máximo de objetividade de que sou capaz.

Tem tanta coisa errada com o que aconteceu que eu nem sei por onde começar.

Esse homem arrancou uma peça de vestuário que meu filho estava usando. Não importa que fosse uma tiara. Isso nunca é aceitável.

Esse homem tocou meu filho violentamente sem permissão. Ele achou que estava sendo engraçado. NÃO estava.

Ele chamou meu filho de uma palavra extremamente aviltante E sugeriu que ele merece morrer.
Como assim isso poderia ser aceitável?!

Isso é intolerância.

Um adulto que deveria saber como se comportar resolveu que era ACEITÁVEL se meter e “ensinar” minha criança a ser homem. Ele achou que era ACEITÁVEL julgar meu filho por não compactuar com a forma como que ELE acredita que um menininho deve ser. Claramente o sujeito é homofóbico, o que já ruim o suficiente. Mas atribuir tendências gays a uma criança de 2 anos de idade é tão RIDÍCULO quanto atribuir tendências heterossexuais a uma criança de 2 anos de idade. Simplesmente não faz sentido!

Uma criança de 2 anos NÃO TEM sexualidade.

É inacreditável acreditar que alguém pode “ensinar” uma criança a ser de uma determinada maneira. Mesmo se ser gay fosse uma escolha de estilo de vida (no que eu não acredito de jeito nenhum), não é o tipo de escolha que uma criança pequena é capaz de fazer. E do mesmo jeito que meninas podem jogar basquete ou curtir caminhões, meninos podem brincar, como realmente brincam com as roupas, os acessórios e a maquiagem da mamãe. Tudo é novo e excitante para a criança e elas aprendem experimentando aquilo que é novo.

Eu e o Mark apoiamos irrestritamente toda forma de amor. Ser gay, hétero, bissexual, transexual ou polígamo é problema SEU. Eu não julgo e não tento te mudar.

E se um dos meus filhos ou os dois, ao crescer, descobrir que são qualquer uma dessas coisas, isso não vai mudar em nada o que eu sinto por eles.

Mas neste momento, o fato de que a homofobia está tão disseminada, que o casamento gay continua a ser visto como algo sujo porque homossexuais são ‘menos gente’ de alguma forma e não merecem ter os mesmos direitos que as pessoas hétero, que pessoas como esse homem no Walmart continuam a EXISTIR, tudo isso me amedronta, pelos meus filhos e pelo futuro deles.

Embora sejamos capazes de aceitar e apoiar o que quer que nossos filhos venham a ser quando crescer, não consigo sequer colocar em palavras o que significaria para eles se eles FOREM gays. Por que alguém deveria viver com medo por se apaixonar por alguém com quem você ou outra pessoa não concorda? Por que as mães e os pais de filhos gays precisam sentir o dobro de terror à noite por saber que o mundo todo está contra seus filhos?

Por que isso importa? Você acredita de verdade que seu Deus ou seu Jesus ou qualquer que seja a sua entidade divina favorita seria tão preconceituosa quanto você parece ser? Até o PAPA saiu do armário e disse que tudo bem ser gay.

Mas tudo isso à parte, de qualquer lado que você analisar a questão, é um absurdo completo sequer permitir que o seu medo ou a sua aversão em relação ao estilo de vida de um ADULTO contamine com preconceito a forma como você vê uma criança!

E NUNCA É CERTO tocar uma criança que não é sua sem permissão. TODAS as pessoas, mesmo as crianças, merecem respeito.

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Atualizado em 4 de agosto de 2013: Para saber mais sobre esta história, visite a página da autora no Facebook. Em seu último post ela conta que falou com a polícia local sobre o incidente e escreve: “O Delegado Substituto do Condado de Polk acabou de sair aqui de casa, e todas as informações sobre o incidente no WalMart e o assédio foram documentadas e vão ser processadas. Fui aconselhada a NÃO falar mais nada sobre essa situação, já que a investigação está em andamento. Por isso agradeço a todas as pessoas que me deram apoio, mas vou ficar um tempinho off-line até que tudo isto seja resolvido.”

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