Clipping – as notícias que a gente viu e separou para vocês

A quantidade de coisas que passa pela nossa frente durante a semana é difícil de mensurar – e a velocidade com que as notícias aparecem, se propagam e somem, então, é maior ainda.

Essa seção do FemMaterna vai trazer um apanhado de alguns assuntos que passaram por aí durante a semana mas que não conseguimos abordar com mais vagar. Todos eles, claro, ligados à maternagem feminista, ao feminismo e outros baratos afins.
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Medicalização da infância

Uma entrevista com a médica Cida Moysés, professora titular do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, levanta pontos importantes sobre a prática comum de diagnóstico de TDAH e a prescrição do medicamento Ritalina:

“As reações adversas estão em todo o organismo e, no sistema nervoso central então, são inúmeras. Isso é mencionado em qualquer livro de Farmacologia. A lista de sintomas é enorme. Se a criança já desenvolveu dependência química, ela pode enfrentar a crise de abstinência. Também pode apresentar surtos de insônia, sonolência, piora na atenção e na cognição, surtos psicóticos, alucinações e correm o risco de cometer até o suicídio. São dados registrados no Food and Drug Administration (FDA). São relatos espontâneos feitos por médicos. Não é algo desprezível. Além disso, aparecem outros sintomas como cefaleia, tontura e efeito zombie like, em que a pessoa fica quimicamente contida em si mesma.”

“Ocorre que isso não é efeito terapêutico. É reação adversa, sinal de toxicidade. Além disso, no sistema cardiovascular é possível ter hipertensão, taquicardia, arritmia e até parada cardíaca. No sistema gastrointestinal, quem já tomou remédio para emagrecer conhece bem essas reações: boca seca, falta de apetite, dor no estômago. A droga interfere em todo o sistema endócrino, que interfere na hipófise. Altera a secreção de hormônios sexuais e diminui a secreção do hormônio de crescimento. Logo, as crianças ficam mais baixas e também essa droga age no peso. Verificando tudo isso, a relação de custo-benefício não vale a pena. Não indico metilfenidato para as crianças. Se não indico para um neto, uma criança da família, não indico para uma outra criança.”

Além disso, Alexandra Moreira Melo, no blog Saúde do portal Viomundo, explica que alguns dos sintomas do TDAH podem ser entendidos como comportamentos normais, conforme o modo em que se analisa. E conclui que, grande parte da epidemia de diagnósticos e prescrições, podem ser atribuídas à mudança de costumes, a falta de tempo e de espaço para as brincadeiras e uma excessiva preocupação com desempenho acadêmico:

“Enquanto os adultos estão preocupados com o futuro acadêmico delas, elas estão adoecendo. Ou melhor, estão “sendo adoecidas”. Vítimas de uma sociedade focada no sucesso e no reconhecimento. Se ficarem deprimidas, infelizes, ansiosas, ou frustradas, não tem problema, a indústria farmacêutica “concerta”*.

*Concerta é um dos medicamentos prescritos para tratamento do TDAH, que tem a mesma substância da ritalina, o metilfenidato.”

Nesse sentido, recordamos também um importante artigo, publicado no ano passado, de Ligia Moreiras Sena, que comenta sobre a disseminação do uso da Ritalina em seu blog Cientista Que Virou Mãe e alerta:

“Estamos medicalizando o normal.
Estamos inserindo a patologização nas nossas vidas cotidianas – nada mais é considerado vida comum, tudo agora é transtorno.
Estamos dando aval a profissionais para que deem pseudodiagnósticos.
Estamos valorizando muito mais os rótulos do que respeitando as personalidades.
Estamos desconectados das crianças.
Estamos comparando diferentes personalidades e esperando um padrão.
Estamos absolutamente despreparados para acolher as diferenças
Estamos acomodados e com preguiça de criar ambientes inclusivos, acolhedores, estimulantes e respeitosos para a criança.

Estamos transferindo nossos papéis como pais, educadores, condutores, para caixinhas de remédios, porque, afinal, é muito mais fácil comprar…”

As celebridades e seus bebês

Nina Lemos disse, em seu blog no portal Yahoo, que recebeu um sugestão de pauta:

“Tenho uma sugestão para você: pegando o gancho do nascimento dos filhos de Kate Middleton e Juliana Paes, o que acha de fazermos uma matéria com dicas para mulheres que acabaram de dar à luz voltarem a ter o corpo ideal?” Essa mensagem bizarra chegou ao meu computador três dias depois do nascimento de George, o bebê real. No mesmo dia, pelo Twitter, o link de uma reportagem sobre a dieta “secreta” que Kim Kardashian estaria fazendo para recuperar a forma após a gravidez pulou na minha cara. Sim, estava escrito “secreta”, como se fosse um segredo de Estado ainda não descoberto por Snowden.”

Continue lendo aqui.

Nádia Lapa, no blog Feminismo pra quê, nos lembra que essas cobranças próprias do mundo das celebridades são replicados nas manchetes das revistas que abordam esse universo, nos lembrando sempre do quanto mulheres comuns são imperfeitas, de como a maternidade deformou seus corpos, de que nunca chegaremos perto da forma física das mulheres que saem nas capas de revista (mas claro, podemos tentar comprando essa revista aqui com dicas sensacionais para secar rapidinho o “peso extra”):

“Gisele Bündchen desfila de biquíni no Havaí dois meses após o nascimento de Vivian”
“Dieta de Juliana Paes: como atriz faz para entrar em forma depois da gravidez”
“Corpões pós-parto: Mamães internacionais exibem físico impecável após dar à luz”
“Dieta pós-parto de Beyoncé tem exercícios às 5h da manhã, omeletes e muita água gelada”

Todas as manchetes acimas são reais, e há incontáveis delas à distância de uma busca no Google. É uma corrida sem linha de chegada. As mulheres precisam ser bonitas para serem amadas. Sendo amadas, precisam ser mães. Sendo mães, precisam continuar bonitas para não serem abandonadas por aquele homem lá que lhe dá valor. Porque o valor está nele, claro, e não nela.”

Continue lendo aqui.

Um artigo do The Globe and Mail online diz “parabéns a Kate por mostrar sua barriga pós-parto”, ressaltando que a Duquesa de Cambridge escolheu usar um vestido que não escondeu suas formas após dar à luz um ou dois dias antes. Ela podia, claro, aparecer espremida numa cinta. Podia também aparecer num vestido imenso (como o que usou Lady Di na saída da maternidade quando seu primeiro filho nasceu, lembra Amy Verner, autora do artigo) que disfarçaria a barriga. Ela foi lá e apareceu deixando claro “esse é meu corpo agora”. Você pode argumentar que ela representou por tanto tempo um padrão de magreza questionável ou irreal, que foi várias vezes acusado de apologia à anorexia, mas é preciso admitir que é uma imagem mais realística e mais positiva para as mães “gente como a gente” que não vão aparecer com barriga chapada dois meses depois do parto (ou nem dez ou nem vinte anos, enfim).

E o pai?

Essa semana circulou nas redes sociais uma reportagem que destaca o fato de um pai solteiro cuidar sozinho de seu bebê pequeno:

“Pai solteiro”, universitário do Sul do RJ cuida sozinho de bebê de 2 meses
César Augusto, de 22 anos, diz que cada noite perdida vale a pena.
Primeiro Dia dos Pais é de grande expectativa para toda a família.

Isabela Kanupp comenta a matéria em seu blog, lembrando que o que é visto como um ato heroico em um homem é o cotidiano de milhões de mulheres no Brasil:

“Essa matéria me chamou a atenção, em primeiro lugar porque eu sou mãe solteira (ou separada, como vocês quiserem), eu trabalho, eu sou cuidadora do meu pai, cuido da Beatriz, da casa, tenho vida social e tudo o que uma pessoa normal faz. Eu conheço diversas mulheres e mães, que são sozinhas, que estudam, trabalham, cuidam da criança. Existem milhares de mulheres assim.
Nenhuma delas sai no G1. Nenhuma delas é destaque. Sabe por que?
Porque a nossa sociedade é machista. E uma mãe fazer tudo isso – que só de escrever me cansa – é considerado “nada mais do que obrigação”, sabe por que? Porque ela é mulher. E para a nossa sociedade a responsabilidade de cuidar de uma criança, é somente da mulher.”

Continue lendo: http://parabeatriz.com/feminismo-pra-que/

Programa de TV distribui bebês ao vivo no Paquistão

Essa notícia não circulou pelas redes sociais como as demais, mas é interessante para se pensar em modelos de maternidade/paternidade e adoção: neste programa de tevê, com potencial inegavelmente gigantesco para render problemas legais cabeludos, duas crianças foram doadas a casais sem filhos. O apresentador alega que os bebês podiam estar mortos e que o que o programa faz é uma boa ação para a criança e para os pais. Ele chegou a anunciar a disponibilidade da produção para buscar e distribuir crianças que as famílias não queiram mais.

Afora a questão da criança ser um item a ser distribuído em meio a uma guerra por audiência televisiva (nada incomum por aqui, inclusive), o que pensar? As crianças podiam de fato estar mortas, ou podiam estar perdidas num sistema oficial de adoções do qual talvez tivessem dificuldade de sair ou onde poderiam ser mantidas em condições precárias. Mas são crianças, não são gatinhos ou cachorrinhos, e são pais em potencial se expondo para conseguir uma criança, como lidar com essa demanda?

Também é interessante lembrar que a solução “dá embora!” e “coloca pra adoção!” é muito mencionada como alternativa ao aborto, como se fosse tudo muito simples (quem se lembra de “Juno”? A moça desiste de abortar e encontra uma família legal pra caramba que vai ficar com seu bebê e no fim todo mundo fica feliz, ela termina o filme tranquila tocando violão, como se dissessem todos pro mundo “Viu só? Não precisa abortar!”. Aliás, em 2008 a Denise Arcoverde escreveu uma análise bem interessante que aborda esse filme como propaganda pro-life).

Eventos que você não devia perder (ou pelo menos pode compartilhar, vai):

– A ONG Instituto Papai estará no Auditório da Livraria Cultura do Paço Alfândega em encontro promovido pelo Ishtar Espaço para Gestantes de Recife-PE no dia 10/08, das 10:00 às 12:30. Mais informações aqui.

– O INCA (Instituto Nacional de Câncer) exibirá o documentário “Muito além do peso” no dia 14/08/2013, no Rio de Janeiro, a partir das 13:00. Haverá debate após a exibição. Clique aqui para saber mais.

Fórum Permanente da série Desafios do Magistério terá como tema Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. O evento será realizado dia 28/08 a partir das 8:30, no auditório do Centro de Convenções da Unicamp.

– Na semana em que a Lei Maria da Penha completou 7 anos o Blogueiras Feministas publicou uma série de postagens sobre o tema. Confira!

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