Precisamos conversar com a mãe dessa criança

Texto de Fabiana Nascimento e Lays Moreira Ito

“O aluno não está indo bem. Convoca a mãe para uma reunião.”
“A mãe dela não apareceu de novo na reunião. Depois a filha vai mal e não sabe porquê”
“Se você continuar se comportando assim, vou ter uma conversinha com sua mãe”
“Como você não fez a lição de casa? Sua mãe não ajuda você?”

Estas falas não são raras de se ouvir, principalmente no ambiente escolar. A cena não é incomum, acontece em todas as escolas. O aluno tem baixo rendimento, muitas vezes aliado a comportamentos considerados inadequados e então chama-se um responsável para reunião. E por responsável, na maioria das vezes, entende-se a mãe.

Embora a educação de uma criança seja considerada tarefa conjunta dos pais e da sociedade (representada aqui pela escola e demais instituições), o que ocorre na prática é que a responsabilidade primordial da educação é atribuída à mãe, a quem tradicionalmente se atribui exclusiva ou preferencialmente o cuidado com as crianças dentro do núcleo familiar. E quando se diz responsabilidade, estamos falando da questão da resolução de problemas, tanto comportamentais quanto de aprendizagem. Nas palavras de uma amiga minha: “Quando a criança vai bem, a escola que é ótima. Quando vai mal, a culpa é da mãe”.

Foto de Quim Drummond/SECOM Sete Lagoas/MG,
no Flickr em CC, alguns direitos reservados

Essa é uma relação complicada e cheia de conflitos. Por um lado, a escola tem uma série de limitações no sentido de educar os seus alunos, dependendo também da ação da família no sentido de construção de um trabalho de parceria. Por outro lado, mantém posturas que reafirmam preconceitos de gênero e favorecem situações de culpabilização da mulher/mãe. A principal destas posturas é a citada responsabilização da mãe por todos os problemas apresentados pela criança, desde o uso do uniforme até problemas de aprendizagem. Não se levam em conta a possibilidade da atuação de outros cuidadores, nem a contextualização daquela mãe enquanto mulher e como ser humano.

Para o aparato escolar, assim como para a sociedade, a mulher existe apenas como mãe, responsável pela criança que não se enquadra nos padrões exigidos. Para a escola, a mãe se sobrepõe à mulher, que é completamente apagada em função do papel que se espera dela. Essa relação é ainda mais perversa se levarmos em conta que a criança-padrão (a que segue os regulamentos, tem bom desempenho acadêmico, segue o código de vestimenta da unidade escolar, faz a lição de casa, etc.) é frequentemente coletivizada dentro do ambiente escolar. Não é raro vermos professores se referindo aos bons alunos como “minha criança” (o sucesso dela certifica a competência do professor), e estas são muitas vezes exibidas em eventos como mostras de trabalhos ou olimpíadas acadêmicas como certificado da qualidade de ensino (vemos aí os cartazes com as fotos dos aprovados no vestibular que estudaram neste ou naquele colégio). O sucesso, o padrão exigido e reconhecido como desejável é coletivizado. O “fracasso” é atribuído única e exclusivamente à mãe.

No entanto, a escola está errada porque serve bem apenas um tipo de configuração familiar: aquele em que há uma pessoa disponível para acompanhar o desenvolvimento acadêmico das crianças, normalmente mulheres. Em nossa sociedade apenas uma pequena parte da população se enquadra nesse modelo. A maior parte das mulheres está inserida no mercado de trabalho – nem sempre de modo formalizado, com direitos constitucionais de jornada e salário garantidos. Segundo os dados oficiais do IBGE, as mulheres constituem 45,03% da população economicamente ativa e essa contagem muitas vezes não contabiliza o trabalho informal. A descrição dessa situação coloca em evidência o quanto o atual modelo de educação não atende a realidade da maior parte das crianças e adolescentes brasileiros: ele privilegia os privilegiados. A disparidade entre a escola que existe e a realidade de sua clientela se explica porque ela, nos moldes em que conhecemos atualmente, foi pensada para atender às demandas da classe burguesa. No século XIX houve uma espécie de saída das mulheres do espaço público e a formatação do modelo nuclear de família burguesa: elas passaram a se dedicar ao espaço privado, ou seja, a mulher burguesa, devidamente assessorada por empregados domésticos, poderia se incumbir integralmente da educação das crianças.

Ampliando a análise e tirando o foco da família, entendemos que as mães e as pessoas que cuidam das crianças no âmbito privado não são as culpadas pelos eventuais fracassos, mas é a sociedade representada pela instituição escolar que não acolhe os estudantes que não se enquadram no padrão do aluno perfeito ou aqueles que precisam de um amparo maior por parte das instituições. Quando o faz são “experiências” (como as escolas públicas em período integral) que podem ser efêmeras – a duração de um mandato – e que muitas vezes não representam um serviço de qualidade oferecido à população.

Dessa forma temos um impasse: para reverter esse quadro em que as mães são sempre classificadas como as culpadas pelo fracasso escolar é necessário que se mude o modelo de educação, que se criem formas de acolhimento de crianças e adolescentes filhos e filhas das classes trabalhadoras. E, além disso, é preciso que exista uma conscientização das pessoas que trabalham nos estabelecimentos escolares de que quando os alunos e alunas vão mal no contexto escolar não é simplesmente a família que não cuida, na verdade é o fracasso de toda sociedade. E situações de fracasso escolar muitas vezes são mais complexas e multifatoriais que não se resolverão com um telefonema convocando a mãe para uma conversa na Diretoria. O grupo formado por docentes, gestores e funcionários escolares precisa ser bem formado – no sentido acadêmico mesmo – e precisa ser continuamente preparado para lidar com essas complexidades.

Foto de Carol Garcia/AGECOM,
no Flickr em CC, alguns direitos reservados

Quando pensamos em modelos educacionais de sucesso, como por exemplo o finlandês (a Finlândia está sempre nas primeiras colocações do Programa Internacional de Avaliação de Alunos, o Pisa), verificamos que os programas de assistência social atendem as famílias desde o nascimento das crianças. Não por acaso a Finlândia é considerada o melhor país para ser mãe, segundo levantamento realizado pela ONG Save The Children. E essa preocupação com a igualdade no acesso à educação se prolonga durante todo percurso educacional de seus filhos e filhas. Ou seja, o sistema educacional não restringe à família a responsabilidade pela educação.

Considerando as diferenças sócio-históricas entre o Brasil e a Finlândia, podemos tirar desse sucesso educacional alguns exemplos e material para reflexão. Ao ser questionado sobre o que o Brasil poderia aprender com a Finlândia, o educador finlandês Pasi Shlberg afirma que:

“A pergunta deve ser o que é possível aprender com a experiência finlandesa, não reproduzir. Primeiro, a experiência da Finlândia mostrou que é possível construir um modelo alternativo àquele que predomina nos Estados Unidos, na Inglaterra e em outros países. Mostramos aqui que reformas guiadas pelo mercado, com foco em competição e privatizações não são a melhor maneira de melhorar a qualidade e a equidade na educação. Segundo, é importante focar no bem-estar das crianças e no aprendizado da primeira infância. Só saudáveis e felizes elas aprenderão bem. Terceiro, a Finlândia mostrou que igualdade de oportunidades também produz um aumento na qualidade do aprendizado. É preciso que o Brasil combata essa desigualdade de acesso. Só um plano de longo prazo para a educação e compromisso político possibilitarão que os resultados sejam alcançados.” (Matéria aqui.)

No Brasil temos o programa Bolsa Família, que tem demonstrado bons resultados no que se refere a permanência e continuidade nos estudos de regiões menos assistidas. No entanto essas iniciativas não atingem o âmago do problema da educação do cotidiano escolar, as dificuldades na aprendizagem. A rede de assistência social precisa ser ampliada para outras esferas, que extrapolem a mera cobrança da permanência desses estudantes na escola. Atualmente tramita na Câmara dos Deputados um projeto de lei que prevê a inserção de profissionais da Psicologia e do Serviço Social na rede pública de educação básica (PL 3688/2000), o que, entre outros benefícios, contribuiria para superação da noção de culpabilização de indivíduos no processo de aprendizagem.

Para além das condições de acesso e permanência, é preciso reconhecer que há a necessidade de introduzir as questões de gênero na formação de educadores brasileiros: os cursos de licenciatura raramente abordam a educação tendo por base essa perspectiva. Assim, se almejamos uma educação realmente inclusiva, devemos pensar em exigir políticas públicas que acolham os estudantes de fato, que proporcione um ambiente em que seja possível uma aprendizagem ampla e que seus cuidadores também possam ser amparados pelo Estado. Dessa forma, que esse trabalho de acompanhamento nos estudos possa ser compartilhado por todos os cidadãos e a culpa do fracasso escolar deixe de ser sempre imputada às mulheres.

5 comentários Adicione o seu

  1. Juliana disse:

    Ótima reflexão, é bem assim mesmo…

    Curtir

  2. Fem Materna disse:

    Oi Juliana, obrigada pela visita! 🙂

    Curtir

  3. O que mais me incomoda é que mesmo “sem querer” a escola perpetua o machismo, ao responsabilizar única e exclusivamente a mãe pelo comportamento da criança.

    Curtir

  4. O que mais me incomoda é que mesmo “sem querer” a escola perpetua o machismo, ao responsabilizar única e exclusivamente a mãe pelo comportamento da criança.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s