Flashback FemMaterna: A maternidade e a luta pela redução de jornada para todos

Texto de Amanda Vieira, publicado originalmente em 22/03/2013 no Blogueiras Feministas.

Grande parte das mulheres sofre com a culpa de ter que trabalhar fora e ser mãe ao mesmo tempo. Mas isso não é o pior: muitas pessoas acreditam que essa suposta escolha “trabalhar fora ou cuidar da criança” fosse culpa do feminismo. Você já ouviu isso em algum lugar? Pois é. Já está na hora de desconstruir esse clichê e propor um caminho possível para amenizar o cansaço sentido pelas mulheres.

Para começar, trabalhar fora não é aquela opção entre sorvete de creme ou de chocolate. É entre comer o sorvete ou não comer! Trabalhar fora de casa, na nossa sociedade, é uma necessidade. Não é todo mundo que pode “escolher” trabalhar fora ou não. Mulheres das classes mais pobres, por exemplo, sempre trabalharam fora. Então, por mais que exista um discurso de duas escolhas possíveis (trabalhar fora ou não) e de mesmo peso para a mulher, a realidade é que são opções impostas por um modelo social que merece ser questionado.

O que está disponível para a sobrevivência da mulher — na maioria das vezes — é a sua força de trabalho, que ela colocará a disposição no mercado, por algum preço. É com isso que as mulheres contam, incluindo aquelas que decidem ser mães. E é no campo do trabalho remunerado que existem diversas distorções que precisam ser corrigidas, se a gente quiser avançar para uma sociedade mais igualitária.

Foto de dreamponderCreate no Flickr em CC,
alguns direitos reservados.

A primeira distorção que salta aos olhos é que algumas pessoas trabalham por muitas horas seguidas, e têm renda quase insuficiente para sobreviver e outras pessoas trabalham muito pouco e possuem renda suficiente para manter milhares de famílias, e tempo de sobra para se dedicar à política e outros afazeres. Afinal, que tipo de trabalho a nossa sociedade remunera tanto e que trabalhos a sociedade desvaloriza completamente? Que critérios “meritocráticos” são esses?

Aceita-se com tranquilidade que uma pessoa seja milionária (dos 46 bilionários no Brasil apenas um é mulher), mas as pessoas têm dificuldade de valorizar o trabalho que não exige muito estudo, ou realizado por pessoas pobres. A crença geral é a de que pedreiros, por exemplo, têm que trabalhar tanto quanto um Eike Batista, se quiserem “vencer” na vida. O que as pessoas esquecem, seletivamente, é que mesmo que pedreiros trabalhem por toda vida jamais vão obter os recursos que um Eike Batista ganham em poucos dias.

A segunda distorção — e que em parte é decorrência da primeira — é que o trabalho realizado por mulheres é desvalorizado. O trabalho doméstico que às vezes é feito até “de graça” é realizado majoritariamente por mulheres. Os trabalhos relacionados a educação e cuidados de crianças também é dos mais mal pagos. Estudos mostram que a inserção de mulheres no mercado de trabalho se dá na maioria das vezes nos empregos de menor remuneração. E em determinados trabalhos as mulheres recebem menos do que os homens, mesmo quando exercem a mesma função.

A terceira distorção é que enquanto algumas pessoas trabalham muitas horas, outras muitas nem trabalho remunerado possuem, mesmo estando aptas ao trabalho e precisando de dinheiro. E novamente, no quesito desemprego, a situação das mulheres não é nada animadora. A OIT identificou que a taxa de desemprego entre as mulheres era 0,7 ponto percentual maior que a dos homens, depois de 2009, ano da crise: 6,4% das mulheres no mundo estão desempregadas, contra 5,7% dos homens.

Permeando todas essas distorções, ainda existem aquelas com origem nos diversos preconceitos sociais: mulheres negras, fora do padrão de beleza, mulheres trans, com necessidades especiais, mulheres que trabalham no campo, etc. têm ainda mais dificuldade de se inserir no mercado de trabalho com bons salários. Estas distorções exigem soluções específicas e precisam ser combatidas com urgência.

Pai e filha na festa da escola. Foto de Carla Alves no
Flickr em CC, alguns direitos reservados

Mas há uma coisa que poderia melhorar e muito a vida da maioria de mulheres e mães como um todo: podemos lutar pela redução da jornada de trabalho. Que tal se todo mundo pudesse trabalhar no máximo cinco ou seis horas por dia, 30, 36 horas por semana? Algumas mulheres, aliás, já fazem isso — sobretudo nas profissões em que a regulamentação estabelece esse tipo de limite.

Mas a ideia é: por que não reduzir para todos os trabalhadores, de todos as categorias possíveis?

Quem foi que inventou essa história de que é preciso “trabalhar” (aqui me refiro ao trabalho remunerado) oito ou nove horas por dia para suprir sua sobrevivência? E aqui é uma pergunta no sentido filosófico, supondo-se que o salário mínimo é suficiente para manter uma família, de acordo com o que diz a constituição brasileira.

Por que não reduzir a jornada de todos?

Esse seria um passo importante para termos tempo disponível para nós, mulheres, nos dedicarmos às questões políticas que nos afetam. E de quebra, melhoraria muito a situação da mulher que quer ser mãe ou do homem que quer ser um pai mais participativo. Também colocaria no colo dos homens a obrigação de dividir as tarefas domésticas, ou seja, o trabalho não remunerado que hoje em dia é realizado por mulheres na maioria das vezes (até pela conjuntura: se o homem ainda ganha mais que a mulher exercendo a mesma função, quem ficará em casa fazendo o trabalho doméstico, em casos de contingência?).

Trabalhando menos, os homens não terão mais desculpas para não dividir as tarefas domésticas (ou, como eu gosto de frisar, o trabalho não remunerado pela sociedade). Pessoas trabalhando menos para o sistema também permitiria melhor qualidade de vida e maior número de pessoas empregadas. A divisão de turnos de trabalho melhoraria o trânsito. Pessoas trabalhando menos teriam mais tempo para conviver com as crianças dos outros.

Não resolve tudo, mas já é hora de fazer essa reflexão. Trabalhar menos no mercado para ter mais tempo para os “trabalhos” que não são assim considerados (ou percebidos) — a militância, a leitura, o cinema, as artes, a convivência com as crianças dos outros.

E que venham os economistas não para prever catástrofes — mas para oferecer soluções que possam proporcionar uma melhora da qualidade de vida geral das mulheres, das mães e das crianças. E dos homens, por tabela.

Sim, existem outras medidas importantes. Mas esse texto está aqui só para discutir uma proposta que sozinha já ajudaria muito a tirar das costas das mulheres essa culpa por esse falso-dilema. Até porque precisamos lutar por creches, apoio na primeira infância, mudança de comportamento dos homens em relação a serviços domésticos e medidas complementares. Esse texto quer mostrar que a maternidade não é a causa de todos os problemas — é apenas mais um “complicador” diante um cenário trabalhista que já é frágil em si.

Amanda Vieira é mãe da Sofia. Gosta de futebol, de cinema, de poesia, de política e de música, mas principalmente de deitar na rede e esquecer isso tudo.

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