Dia da Família: uma alternativa inclusiva


Texto de Ludmila Pizarro e Deh Capella

No último domingo foi comemorado o dia dos Pais. Segundo domingo de agosto, você não deve ter ficado por fora, já que o comércio não deixa a data passar em branco. Assim como a maior parte das escolas do país que certamente agendou algum evento alusivo à data. No segundo domingo de maio foi a mesma coisa, porque era dia das Mães. No ano que vem deve ser igual. Como foi ano passado.

Essas repetições, que parecem um tanto quanto herméticas e anacrônicas, têm um substituto interessante, o dia da Família. Adotado em algumas escolas, o dia da Família procura unir as duas comemorações e chamar para dentro do ambiente escolar não apenas os progenitores, mas os membros da família que efetivamente participam da vida da criança. Além disso, o evento tem o positivo efeito de incluir as famílias que fogem do padrão propaganda de margarina e que podem, nesse momento, celebrar suas diferenças sem constrangimentos.

Tudo de bom, né? Mas então por que muitas escolas ainda têm dificuldade em adotar o dia da Família? Por que ainda vemos diversas instituições de ensino presas a festividades tradicionais que, muitas vezes destoam da realidade familiar da maioria dos seus alunos? Como estabelecer um dia das Mães e um dia dos Pais para celebrar laços familiares se as famílias não são formadas apenas ou necessariamente por pai-mãe-filho?

Comemoração de dia da Família. Foto de Ludmila Pizarro. Arquivo pessoal, 2010.

Vamos esclarecer este ponto, então. Quando a escola adota dia dos Pais/dia das Mães como datas comemorativas em seu calendário ela referenda uma concepção tradicional de família, tal qual era quando as datas foram criadas (1918, com oficialização em 1932, para o dia das Mães, e 1953, para o  dos Pais). A configuração das famílias vem mudando substancialmente desde então e os papeis tradicionais exercidos por cada membro também não são mais os mesmos.

Como ficam, por exemplo, as crianças que por algum motivo têm avós e tios como cuidadores? Clarah Paz, professora e psicopedagoga em São Leopoldo-RS, ressalta que em muitos casos essas famílias “buscam substitutos para poderem se encaixar nos padrões”, no que é socialmente aceitável – o tio que comparece na festa de dia dos pais, a avó que aparece para suprir a falta da mãe, o pai que recebe o presente confeccionado pela criança que não tem mãe viva ou presente. Não se trata aqui de ressaltar a falta do ente querido com ares de sentimentalismo, mas de imaginar o impacto de uma comemoração fortemente normatizada, enraizada em um modelo familiar dito “normal” que pode até ser considerado hegemônico em muitos casos mas não é inclusivo. Alunos vivendo em famílias homoafetivas, por exemplo, se encaixam de que forma nessas comemorações?

Luana Tolentino, historiadora, professora da rede estadual de ensino de Minas Gerais, afirma que “a escola não está preparada para as novas configurações familiares”. Clarah Paz corrobora a visão de Luana ao relatar que na escola onde atua até existe, sim, um discurso oficial de inclusão de famílias não-heteronormativas, mas a prática se distancia do que seria ideal. Muitas vezes, falta motivação e um trabalho sistêmico para que a instituição consiga abordar a variedade de configurações familiares. Da mesma forma, nem todo profissional consegue lidar com a diversidade de forma respeitosa, vamos usar de honestidade aqui.

As famílias com duas mães ou dois pais ficam, então, excluídas de uma das comemorações – e nos perguntamos como isso acontece na prática, sabendo que muitas vezes há uma série de atividades pedagógicas que antecedem os eventos em questão. Clarah Paz passou por uma experiência nesse sentido. Em sua escola duas irmãs são filhas de duas mulheres, ou seja, têm duas mães. Nessas situações a realidade bate à porta da escola. “Meus alunos tem 6 anos. Agora, depois de trabalhar com eles, consegui que entendessem que a família delas era igual as deles”.

Painel no colégio Clara Suiter. Imagem no flickr, alguns direitos reservados.

A existência de datas comemorativas específicas e “fechadas” voltadas a pais ou mães também é, muitas vezes, palco de reafirmação de estereótipos de gênero e de papeis familiares: a mamãe meiga, delicada, devotada, o papai sério ou arrojado. Tem sido tão trabalhosa a desconstrução desses modelos e é sinceramente triste que ele ainda sobreviva e seja incensado por instituições de ensino, portadoras de um lugar-autoridade importante. Os pais que não são aqueles modelares, da propaganda de tevê, olham no reflexo da tela ou da página da revista e não enxergam a própria imagem ali – e sabemos como esse processo é desagradável, o de não-identificação. A escola deveria ter, sim, papel fundamental na desconstrução dessas imagens tradicionais e opressivas (sim!): “é preciso que a escola enquanto componente da sociedade e formadora de cidadãos, assuma o seu compromisso no combate a preconceitos de toda ordem e colabore ativamente para a valorização e respeito à diversidade”, conclui Luana Tolentino.

Pensando sob o ponto de vista da instituição de ensino, mais especificamente no caso das particulares, que trabalham tendo em vista a satisfação de uma clientela pagante, a abolição de datas tradicionais pode representar sim uma dor de cabeça. Muitas vezes os pais se ressentem por não ter uma comemoração focada em suas figuras. Cabe à escola, portanto, se posicionar politicamente e agir como formadora, buscando a parceria das famílias, realizando um trabalho pedagógico e social coerente e contínuo, que seja desvinculado de datas comerciais. Outro fator importantíssimo, diga-se de passagem, levando-se em conta que a atitude crítica é bastante valorizada em planos pedagógicos estabelecidos. Por que, então, não subverter o modelo? Por que não acompanhar as mudanças da sociedade, já que se ressalta tanto o papel revolucionário que a Educação pode ter? Secretarias de Educação têm esse poder, escolas, professores, têm esse poder, pais, mães e cuidadores em geral, também o têm.

Ludmila Pizarro é brasileira, jornalista, feminista, mãe e apaixonada por livros. Escreve no blog Com o pé na estrada

Deh Capella é bibliotecária, doida por letras e notas musicais e escreve no blog Por trás da tela…

5 comentários Adicione o seu

  1. Sooraya disse:

    Estou escrevendo um e-mail sobre isso para a escola da minha filha, o post ajudou demais.

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  2. Lis Lemos disse:

    meninas, gostei muito do texto. Me lembrei de duas coisas:
    1)Sempre odiei Dia dos Pais quando era criança (hj nem faço conta da sua existência). Explico: não fui criada pelo meu pai. Minha mãe é mãe solteira (apesar d não trabalhar nas Casas Bahia), e eu me sentia muito constrangida pq tava ali fazendo um presente que não tinha destinatário.
    2) Minha irmã é 18 anos mais nova q eu (hj ela tem 8 anos) e na escola dela adotaram o Dia da Família e foi muito bom poder ir eu, minha mãe e minha avó pra essa festa. Isso, somos uma família. ela é tão amada como qualquer outra criança q tem “uma família tradicional”.

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  3. Katy disse:

    Eu sou professora de educação infantil e no centro de educação infantil onde trabalho, sempre procuro colocar em pauta essa discussão, não só sobre dia das mães e dia dos pais, mas também sobre as demais datas. Trabalhar o dia do índio é fazer um cocar e pintura facial? É só isso a cultura indígena? E não seria igualmente importante estudar a cultura africana? E as culturas das quais cada aluno pertence?

    Aí tem também a questão das datas religiosas: páscoa e natal… e as crianças cujas religiões familiares não comemoram?

    Enfim, pessoalmente eu não comemoro nenhuma data, apenas aniversário (que também tenho achado meio sem sentido comemorar) e discuto isso com as pessoas que trabalham comigo. As datas que não são puramente criadas pra favorecer o comércio (dia dos pais, mães, crianças, professores) são religiosas (páscoa e natal). É isso que queremos ensinar para nossas crianças?

    Então pensamos em outras propostas: festa da família e também eventos mensais. Uma vez por mês as professoras de uma turma ficam responsáveis por organizar um “dia diferente” (para as crianças), onde pode acontecer: teatro (das professoras ou de pessoas de fora), apresentações de bandas/fanfarras convidadas, dia do circo, piquenique, festa a fantasia, dia do cabelo maluco e pintura facial… e o que mais a imaginação permitir.

    E claro, tem outras trocentas questões que eu quero discutir com professorxs e famílias. Mas já falei demais.
    Aqui tem um texto que eu escrevi e que talvez interesse a vocês: http://umpoucodetudokc.blogspot.com.br/2013/01/as-criancas-e-os-padroes-de.html

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  4. Marcia Pauluk disse:

    Vocês são demais! A produção deste grupo faz muita diferença na minha vida. Amei esse texto e vou repassar pra escola do meu filho. Quero um dia dá família! Quero muito celebrar com meu filho sem a estranheza por não cumprir com estes padrões tão defasados. _______0_________ abração pra todxs

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  5. Eu vejo que, em geral, as escolas, sobretudo as particulares, não querem mesmo acompanhar as mudanças da sociedade, preferem ficar reproduzindo “padrões ultrapassados” a questioná-los. É mais cômodo e não choca com o pensamento patriarcal “daqueles” que pagam a mensalidade. Lamentável !

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