Amamentação: o que o feminismo tem com isso?

Texto de Fabiana Nascimento.

Não raro, nos debates feministas de diversos matizes, a amamentação é assunto de controvérsia. Se por um lado há uma corrente que diz que a amamentação faz parte do script esperado para uma mulher e que isso a torna mais vulnerável aos papeis sociais preestabelecidos, impedindo assim que ela possa exercer uma liberdade plena, de outro há o grupo que encara a amamentação como parte significativa do direito de escolha no que se refere aos direitos reprodutivos, à apropriação do corpo e suas funções. Sob essa perspectiva, a amamentação é uma forma de exercer a liberdade e a emancipação. De um modo geral, dentro dos estudos feministas há a percepção de que a amamentação é um ato social, historicamente definido por padrões e normas, que se diferenciam conforme as classes sociais. Ligada à fisiologia do corpo, a amamentação é entendida e aceita de modos diferentes em diversas sociedades.

Concomitantes aos questionamentos individuais, temos as campanhas oficiais com ênfase na saúde pública, que centralizam seus apelos nos benefícios que esse ato traz à saúde das crianças, no curto e no longo prazos (a amamentação, além de nutrir da forma adequada, previne as crianças de males variados como infecções e alergias). Enfatizam-se sempre as estatísticas que associam o número elevado de mulheres que abandonam o aleitamento à mortalidade infantil. Normalmente, essas campanhas não consideram as diferenças sociais entre as diversas mães, naturalizando o ato da amamentação, como se todas as mulheres dispusessem dos mesmos recursos para tocar adiante esse trabalho, que nem sempre é fácil, podendo ser árduo e cansativo.

Além disso, há os grandes grupos fabricantes de fórmulas bombardeando as mães com um marketing muitas vezes desleal que se vale de um discurso médico, portanto revestido de autoridade, que visa a substituição do leite materno por leites artificiais.

Traçado esse quadro, a militância feminista se encontra em um momento crucial, em que não pode se omitir frente ao problema de saúde pública, que perpassa as diversas camadas da sociedade (as doenças que podem ser prevenidas pelo aleitamento materno não são apenas aquelas relacionadas à pobreza, como a desnutrição, mas também as alergias e doenças autoimunes, que geram gastos altíssimos com medicamentos e internações).

Foto do arquivo pessoal de Cecília Santos (Todos os direitos reservados)

Para desmistificar a amamentação e tentar diminuir o impacto da mortalidade infantil decorrentes da falta de aleitamento, devemos observar que os principais responsáveis pelas estatísticas de fracasso na amamentação não são as mulheres e suas escolhas individuais, mas a estrutura da sociedade que cobra um comprometimento, mas não apoia a escolha de quem amamenta.

Em seu texto publicado no blog Blogueiras Feministas (íntegra aqui), Renata Corrêa afirma: “Se amamentar é o ideal a se fazer, se o governo e organizações internacionais de saúde apoiam e esse ato é simples e natural, por que pesquisas recentes mostram que 44% das mulheres que desejam amamentar “falham” nessa vontade?

Primeiro é preciso problematizar a questão da “falha”. A mesma pesquisa aponta que a falta de apoio familiar e de profissionais de saúde capacitados para orientar as mães na primeira hora de vida do bebê são fatores que influenciam tanto o estabelecimento do aleitamento materno como a introdução precoce de leites artificiais. Se uma mulher que deseja amamentar não consegue aleitar seu filho não é a mulher como indivíduo que falha. Nem seu corpo, afinal não existe leite fraco, nem pouco leite. Falhamos coletivamente, como sociedade. É cruel por exemplo que o Ministério da Saúde recomende o aleitamento exclusivo até os seis meses, mas a lei trabalhista conceda à mulher apenas quatro meses de licença maternidade. Duas políticas públicas conflitantes quando pensamos na saúde da mãe e do lactente.” 

Também é preciso que se fale que não há a aceitação dos corpos das mulheres e de seus seios na sociedade. Há dois anos tornou-se célebre a condenação de um humorista do programa CQC de um protesto pelo direito de amamentar realizado em um espaço de exposições de arte na cidade de São Paulo. Na ocasião, Luka Franca escreveu sobre isso:

O que me preocupa neste dois casos é justamente o tabu que reverberam, o fato da sociedade não conseguir lidar com seus desejos e compreender a sexualidade do outro sem preconceitos, moralismos e afins. Até por que o Ministério da Saúde faz campanha atrás de campanha sobre a importância do aleitamento materno e a sociedade tá convencida da importância do aleitamento materno, a questão é que também está ganho o tabu da sexualidade, sendo assim amamentar ter hora e local, pois não conseguimos lidar com a nossa sexualidade e com o fato de sim poder-se sentir prazer ao amamentar e não ter que se preocupar com o moralismo externo, se colocando no lugar de mãe-mulher, e não mãe-santa ou mulher-puta.”

Não há o desenvolvimento de uma cultura que acolha essa escolha, e ao mesmo tempo mães que escolhem não amamentar ou que não conseguem são levadas a um processo de culpabilização individual. Mas é preciso dizer que a ideia de que a boa mãe é uma boa nutriz é recente na nossa sociedade. Gilberto Freyre relata que, nos tempos em que o Brasil era uma colônia, as amas negras nutriam os filhos das mães brancas. Para aceitarmos a amamentação como escolha autônoma, temos que desvincular a percepção do senso comum de que uma boa mãe é aquela que alimenta sem impedimentos de qualquer ordem. Porque essa é uma percepção historicamente construída. E para ter sucesso na amamentação, é preciso que existam condições adequadas. É necessário que se acolham as mães e suas escolhas, porque só quando esse direito for garantido a todas as mulheres, sem julgamentos moralistas, é que poderemos ter garantidos os direitos de igualdade social e política.

Nesse sentido tivemos um debate muito produtivo no nosso grupo de discussões e gostaríamos de compartilhar algumas falas com vocês:

“Não importa que a média de aleitamento materno seja de 54 dias, sendo que o recomendado são 6 meses, desde que o bebê esteja ganhando peso e crescendo com o leite artificial? Importa sim! E temos que garantir que as mulheres que desejam amamentar tenham todas as condições possíveis de fazê-lo.” 

“Pra mim, não importa o caso específico da Maria, da Joana, da Cristina. Ninguém é ’menos mãe‘, parque nada disso aí define que tipo de mãe uma pessoa é. Mas colocar pra todo mundo, publicamente, que ’tá tudo bem, se tudo saiu relativamente bem‘ eu acho contraproducente até, no Brasil que temos hoje. Talvez se a gente estivesse na Holanda, a gente pudesse falar em escolha autônoma da mulher. (até porque, né? quem quer cesárea ou não quer amamentar já tem essa escolha aqui. Não precisa lutar nada)” 

“Eu sou feminista e defendo o direito da mulher dispor do seu próprio corpo como quiser. DA ESCOLHA que ela quiser.”

Mas quando uma escolha é feita baseada no medo e na desinformação, não é uma escolha. Eu fico p* quando falam que fulaninha escolheu uma cesárea com medo da dor quando durante nove meses o médico ficou dizendo que ela não ia aguentar e que a dor ia partir ela ao meio. Se ela soubesse que um trabalho de parto começa suavemente, que a analgesia de parto pode ser aplicada, que a aplicação de soro com hormônios sintéticos é que fazem as contrações ficarem insuportáveis e que ela teria sempre alguém a apoiando em todo processo ela escolheria a cesárea? Talvez sim, mas percebem a diferença?”

“Não acredito em escolha baseada no terrorismo. ‘Teu filho chora porque tem fome‘ ’Teu filho pode morrer se você esperar o parto‘. O medo é a base de muitas decisões ruins. Começa no parto, passa pelo excesso de medicalização. E continua: se eu não te bater, você vai apanhar da vida, ou se meu filho levar maçã na lancheira vai ser o freak da escola (true story). A gente é o tempo inteiro pressionada a entrar no padrão ’pregnant on high heels‘ que enfia na goela abaixo da criança e do bebê um monte de inseguranças nossas e esquece que cuidado é relação e relação tem que ser boa pros dois envolvidos.”

2 comentários Adicione o seu

  1. Unknown disse:

    Olá, adorei o texto, e minha cabeça está fervilhando com perguntas sobre o assunto.

    Sou mãe de primeira viagem, espero uma menina,e espero ler muito mais por aqui.

    Beijão pra todxs ! :*

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  2. Fem Materna disse:

    Opa, que legal que você gostou do texto!

    A gente te convida então a vir conversar junto no FemMaterna, nossa lista de discussão!

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