Carta de intenções de uma mãe feminista

 Esta bela carta é uma construção coletiva do grupo a partir de ideia original de Renata Corrêa.
Que artigos você adicionaria à sua – ou gostaria de encontrar em uma carta dedicada a você?

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Criança querida,

Desde o seu nascimento que toda e qualquer certeza que eu tinha a respeito da maternidade caiu por terra. Fiz tudo diferente do que imaginei para mim, ao contrário e do avesso, pois você é uma pessoinha atenta e exigente que mostra dia após dia que nenhum ser humano é igual ao outro, mesmo que esse ser humano pese o mesmo que um saco de arroz e meça alguns centímetros.

Pensando num futuro próximo, onde nossa relação irá se estabelecer em bases mais complexas (mas não menos amorosas) do que nosso contato físico constante, deixo você com essa carta de intenções de uma mãe feminista que deseja sua autonomia, sua felicidade, mas principalmente a sua liberdade.

Guarda com você.

E se eu esquecer, você sabe o que fazer.

Mãe e seu bebê em passeio durante o verão em Chicago, 1973. Imagem de USA National Archives no flickr.

Art. 1 – Nunca, jamais, em tempo algum dizer, afirmar, insinuar ou dar a entender que você não pode fazer, conquistar ou decidir algo pelo fato de ser mulher ou homem ou não se identificar com algum gênero. Ou mais de um.

Art. 2 – Prometo alimentar sua autoestima para que você cresça uma pessoa empoderada.

Art. 3 – Prometo te ensinar a celebrar o seu corpo, e respeitar os seus limites, jamais a obrigando a abraçar e beijar outras crianças e adultos que você não deseja tocar. Essa é a única maneira de te ensinar que seu corpo é soberano e que ninguém deve violar os seus limites.

Art. 4 – Prometo te assegurar de que você pode dispor do seu corpo como quiser – inclusive modificando-o. E que da mesma forma poderá modificar seu nome, aquele que constará no seu RG e nos demais documentos que você vai ter que mostrar por aí ao longo da vida. E prometo te ensinar que esse direito é inalienável.

Art. 5 – Como mãe, jamais assumir uma postura autopiedosa que mostre a maternidade como algo triste, sacrificante, cheio de culpa e dor. Mas prometo também não cair na tentação da onipresença e onipotência – nem as mães podem tudo, nem as mães estão em todo lugar.

Art. 6 – Prometo, também, então, te mostrar algumas das minhas imperfeições, aceitá-las e, ao mesmo tempo, trabalhar para deixá-las ir: esse movimento de construção diária nos torna humanos.

Art. 7 – Celebrar sempre que desejar o fato de ser mulher. Por que ser mulher é bom. E celebrar também o fato de que maternar é bom.

Art. 8 – Ensinar a questionar o mundo, a questionar a si mesmx e duvidar de certezas absolutas que via de regra são enganadoras.

Art. 9 – Mostrar a você sempre que no mundo há muito mais que dois, que qualquer pensamento binarista reduz as outras pessoas, reprime e causa sofrimento. Que o julgamento pode ser tão rápido e tentador quanto impreciso.

Art. 10 – Eu me comprometo a te mostrar que não é justo, nunca, que você se aproveite de seus privilégios – pelo contrário, que eles sejam seus guias e te permitam um olhar mais generoso sobre o mundo.

Art. 11 – Prometo te dar todas as ferramentas que eu puder para entender e transformar o mundo em que você está, mas tendo a honestidade de não ter todas as respostas, principalmente as mais importantes.

Art. 12 – Incentivar sua criatividade, porque a criatividade é libertadora, e transforma o mundo.

Art. 13 – Encorajar-te a viver o amor de forma livre, intensa, alegre e honesta sem dar bola para amarras moralistas e limites sociais machistas, patriarcais e retrógrados.

Art. 14 – Ajudar-te a identificar e separar de forma precisa o que genuinamente vem do seu coração e o que é desejo do outro, mesmo que esse outro seja eu.

Art. 15 – Prometo crescer com você.

Com amor,

Mamãe.

10 comentários Adicione o seu

  1. Vanessa disse:

    Genteeee, que coisa mais gostosa!
    Já passei pro meus dois adolescentes <3

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  2. Mariana disse:

    emocionante!

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  3. Fem Materna disse:

    <3 que bom que vc gostou, Van! :D (Deh aqui)

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  4. Fem Materna disse:

    é opinião unânime, viu. Gostamos muito do resultado final e ficamos felizes de ver que quem lê tá gostando também! 🙂

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  5. Anônimo disse:

    Ouvi até a respiração da minha mãe ao ler. Emocionante, vocês são demais!

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  6. Anônimo disse:

    Muito bom, realmente emocionante.

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  7. Lindo, Gente!! Amei! Espero conseguir passar pelo menos alguns desses valores, tão importantes, para minhas crianças;

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  8. Ana Paula disse:

    maravilhosa carta… e é isso, bem isso mesmo, que prometo passar pra minha filha.

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