Não tire conclusões sobre minhas crianças

Texto de Amelia, publicado originalmente no Huffington Post em 19/08/2013 e traduzido para o FemMaterna por Cecília Santos.

É época de volta às aulas, um tempo recebido com resmungos por nossos filhos, que querem apenas mais algumas semanas de verão, e com entusiasmo pelo meu marido (um pai em tempo integral), que em breve vai ser capaz de fazer suas coisas durante o dia. É uma época agitada, de muitas compras e andanças pra lá e pra cá, desejando que tivéssemos começado mais cedo toda a preparação para a volta às aulas.

Para nossos filhos, a melhor parte da volta às aulas é fazer compras, principalmente comprar sapatos. Nossos três filhos adoram sair para comprar sapato novo, ainda, porque os pés deles crescem tão rápido que toda hora temos que fazer esse tipo de compra. Meu filho mais velho assumiu a tarefa de escolher seriamente seu primeiro par de sapatos do terceiro ano. Ele ficou um tempo indeciso entre um par de sapato social de couro preto e brilhante e um par de All Star brancos de cano alto. Acabou desistindo dos dois porque não conseguiu encontrar um par do seu tamanho, mas no fim achou um par de tênis clássicos que, segundo ele, são os sapatos mais confortáveis do mundo e por isso ele precisava comprá-los.

Isso resolvido, faltavam os cortes de cabelo. Como havia um novo salão de rede perto da loja de calçados, fazia todo o sentido ir pra lá. Os dois mais novos foram primeiro, e assim que a cabelereira terminou, eles saíram correndo com o pai, deixando meu mais velho sozinho comigo na sua vez de cortar. Ultimamente ele tem usado um corte bem simples: máquina 1 na cabeça toda. Esse tem sido seu corte nos últimos seis meses mais ou menos. Eu não sou lá muito fã, mas o cabelo é dele, então eu não me meto.

Enquanto cortava o cabelo dele, a cabelereira começou a conversar comigo sobre como meus filhos são bem comportados (Se você for pai ou mãe e disser que não adora aqueles momentos em que suas crianças não estão se comportando como monstros e alguém nota, você só pode estar mentindo). Daí ela começou a falar como eles são bonitos. Eu concordo com isso, obviamente. Então ela começou a dizer ao meu filho que ele devia pegar muitas gatinhas, que provavelmente as meninas estavam todas no pé dele e tal. Eu sabia que ela estava tentando ser simpática (na esperança, talvez, de uma boa gorjeta), mas esse tipo de comentário simplesmente não funciona com o meu filho. Meu filho é gay e se identifica como tal há quase dois anos.

Mas não me interprete mal: meu filho gosta de meninas. A melhor amiga dele é menina. Mas em relação a sentimentos românticos, ele não compreende de jeito nenhum como é que alguém consegue se sentir dessa maneira em relação a qualquer menina que for. Não faz sentido para ele. Meu filho e eu trocamos um olhar pelo espelho. Ele revirou os olhos e me deu aquela olhada que dizia claramente: “Mamãe, faz ela parar”. Eu disse o mais casualmente que pude: “Bom, ele não é assim tão chegado em meninas”. A cabeleireira entendeu ao pé da letra e felizmente parou com os comentários.

Imagem de Amelia. Fonte: Huffington Post.

Depois que meu filho saiu da cadeira e enquanto esfregava a cabeça recém tosquiada, disse: “O Darren gostou do meu cabelo assim.” Ele estava se referindo (novamente) a quando conheceu Darren Criss, o ator e músico conhecido por representar o Blaine em Glee, durante o verão. O Darren tem sido o objeto da afeição do meu filho já faz algum tempo. Quando eles se encontraram, o Darren passou a mão pelo cabelo supercurto do meu filho (e de repente a preferência do meu menino por esse estilo de cabelo faz todo o sentido). “É mesmo, querido” – respondi sorrindo – “Ele gostou”.

Meu filho não ficou magoado com a experiência no salão de cabeleireiro, mas se sentiu desconfortável. A cabeleireira não estava sendo rude ou homofóbica; ela estava simplesmente tirando conclusões. Isso é algo que as pessoas fazem muito, mas acho que eu não tinha percebido o quanto até meu filho me contar que é gay. Como sociedade, assumimos que as pessoas são heterossexuais, exceto se elas disserem que não são. Isso se aplica ainda mais a crianças. Ainda que de 5 a 10 por cento das crianças sejam LGBT, insistimos em tratá-las como se todas elas fossem heterossexuais. Agora eu acho que as pessoas podem estar apenas apostando no mais óbvio. Afinal de contas, a maioria das crianças é heterossexual. Mas o problema de presumir que todas as crianças são heterossexuais é que elas podem começar a acreditar que elas devem ser heterossexuais. E essa não é uma mensagem que eu quero que meu filho receba.

As conclusões não param por aí. Quando as pessoas descobrem que meu filho se identifica como homossexual, muitas presumem que ele não se ajusta ao seu gênero. As pessoas assumem que ele é efeminado e gosta das coisas tradicionais “de menina”. Ao descobrirem que ele é gay, as pessoas que já o conhecem costumam ficar surpresas ou duvidar, por terem sempre visto que ele se ajusta ao seu gênero. Às vezes eu sinto que as pessoas só se sentem à vontade com o fato de uma criança ser gay se ela cumprir todo o estereótipo gay. Assim sua orientação seria irrefutável e as pessoas se sentiriam mais confortáveis. Bom, meu filho não atende ao estereótipo gay e eu não acho que deveria. Temos a sorte de ter um número suficiente de adultos gays na vida dos nossos filhos e assim, apesar das conclusões que a sociedade tira, eles estão crescendo sabendo da verdade: que pessoas heterossexuais têm diferentes formas, tamanhos, tipos, atitudes e gostos em termos de moda. Um mesmo tamanho não serve em todo mundo. E isso deveria se aplicar a crianças gays também.

Não consigo deixar de acreditar que todas essas crenças não são realmente úteis para ninguém. Não é hora de todos nós pararmos com isso? As pessoas são como são, não importa o que a gente acreditar que elas são. E nenhum de nós cabe completamente em um estereótipo. As pessoas são mais complexas do que isso. Mas até lá, enquanto puder, eu vou me colocar entre meu filho e as conclusões que todo mundo tira a respeito dele. Isso faz parte do meu papel de mãe, e espero que leve meu filho a perceber que o que quer que ele for está ótimo pra mim.

O único papel do meu filho é ser ele mesmo. E neste exato momento ele é um garoto com um cabelo bem curto que adora usar camisetas com estampas estranhas, jeans justos e chapéu panamá. Quanto a calçados, ele ainda não se decidiu entre o sapato social de couro preto e o All Star branco de cano longo. E tudo bem que seja assim.

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