Clipping Femmaterna – 17 a 23 de agosto

Crianças, esses seres incômodos e indesejáveis…

Nesta semana um usuário do twitter reclamou sobre o horror de ter crianças compartilhando com ele o mesmo voo. Não vamos publicar identificação do sujeito porque não vem ao caso e a reclamação não é isolada ou incomum: crianças em ambientes coletivos (não necessariamente públicos) são muitas vezes consideradas incômodas porque correm, gritam, fazem birra, falam alto, se remexem, batem braços, pernas. Enfim.

“Onde está a mãe dessa criança?” (sempre a mãe, sempre a mãe…) “Os pais não dão educação”, “Por que não deixam em casa?”, os reclamantes em geral têm diagnóstico e solução para o problema (e ela muitas vezes vem junto com a afirmação categórica de que “o meu não é assim não”, indicativo de sucesso daquela pessoa como educadora/disciplinadora), mas nesses casos não é usual encontrar um olhar mais generoso e menos pleno de julgamento.

Iara Paiva trouxe então uma ótima reflexão a respeito da criança colocada como “incômodo” e fruto de uma suposta negligência parental, e de um ponto de vista privilegiado: o de quem já apontou o dedo pro “pestinha pentelho”. Ela também ressalta (nos comentários, porém) a contradição de uma sociedade que cobra tanto da mulher que ela tenha filhos e ao mesmo tempo tem problemas com a aceitação da criança em espaços coletivos.

Ninguém é obrigado a curtir crianças, achar fofas e tals. Mas, como elas crescem, acho que algumas pessoas se sentem tranquilas em discriminá-las porque não as enxergam como fazendo parte de um grupo minoritário e sensível. Um grupo que tem necessidades muito especiais. E um grupo do qual todo mundo já fez parte. A consequência disso é a intolerância com crianças em lugar públicos.”

Leia mais: http://foifeitopraisso.wordpress.com/2013/08/19/das-criancas-alheias/

De menino, de menina – a série interminável

Uma marca de fraldas lançou um produto que traz especificamente um modelo voltado para meninos, com – diz a embalagem – sistema de absorção frontal, e outro para meninas, com absorção central. A justificativa é o fato de que meninos molham mais a fralda na frente, meninas no meio. Uma justificativa anatômica, certo.

O que há dentro de dois pacotes de fraldas, um pra cada gênero dentro da perspectiva binária homem – mulher? Há uma série de questões que vão do apelo mercadológico dos produtos direcionados para um ou para outro lado à designação de gênero de crianças e por extensão chegando à construção de uma montanha de expectativas a respeito dos pequeninos.

Deixando os tópicos para reflexão aqui:

1) Acatando-se a justificativa da necessária especificidade do produto (absorção maior em pontos diferenciados da fralda): por que, mais uma vez, a estereotipia do rosa versus azul, a bola e a tiara de princesa? A indústria atende a uma necessidade ou na verdade está criando mais uma – a ideia de que a menina tem que usar a fralda do pacote rosa e o menino tem que usar a do pacote azul?

2) Por que não produzir então uma fralda descartável com alto poder de absorção para todas as especificidades anatômicas? Novamente: o que é necessidade legítima e necessidade criada? (isso para não mencionar: por que fraldas descartáveis, poluentes e caras, e não fraldas de pano, que sim, também são produzidas atualmente com aparato tecnológico?

3) É aceitável estabelecer a designação de gênero tão cedo, não seria binarista e cissexista? Em caso positivo, como resolver essa questão de forma prática?

Ainda falando sobre o assunto…

Alemanha permitirá, a partir de 1º de novembro, que os pais registrem seus filhos com um terceiro sexo, “Indefinido”. A medida a princípio é voltada para pais que precisam registrar crianças nascidas com hermafroditismo (é o termo utilizado na matéria!), mas é vista por alguns como algo revolucionário, já que abre a possibilidade de a criança ser identificada legalmente como homem ou mulher posteriormente, e não logo ao nascer.

A lei é um primeiro passo para a eliminação legal do binarismo de gênero, e vale lembrar que na Alemanha ainda não são reconhecidos casamentos entre pessoas do mesmo gênero ou em que um dos cônjuges possua gênero indefinido. Por outro lado, se a lei existe para contemplar bebês portadores de genitália ambígua, então na origem ela não acolhe indivíduos que não queiram ser identificados com um gênero específico – além, claro, de ser teoricamente um marcador de “anormalidade” (o bebê nasceu nem homem nem mulher, é “indefinido” – termo pesado e que continua aludindo ao binarismo – gêneros definidos são só o masculino e o feminino, então).

Na Austrália e na Nova Zelândia também existe a terceira opção de registro de gênero.

A notícia não é nova, mas também serve pra se pensar a questão de gênero na infância: na Suécia a pré-escola Egalia não só evita abordar o binarismo, os estereótipos de gênero e a heteronormatividade em suas atividades, mas também deixou de identificar as crianças de acordo com o sexo de nascimento, adotando apenas pronomes neutros.

E nesta semana também tivemos contato com um post bem interessante (enviado pela autora, nossa leitora!) que questiona mais um dos “defaults” em se tratando de bebês: os brincos para as meninas. Quase todo mundo conhece uma história de bebê que já saiu da maternidade de orelhas furadas porque, ora, é preciso diferenciar menininhas e menininhos – então os brincos, a roupa rosa, os enfeites…

…mas e se não diferenciar? E se os brincos deixarem de ser um distintivo de gênero – porque há muitas mulheres que não os usam, há homens que usam e assim por diante e assim se repetem os argumentos em relação inclusive a cabelos longos, anéis… E se aquele indivíduo, que não será bebê para o resto da vida, puder ter o direito de escolher mais adiante se vai submeter seu corpo a uma intervenção estética – como é feito com tatuagens, por exemplo?

Afinal – porque é possível sim ampliar essa discussão – que escolhas os pais devem fazer pelos filhos, que escolhas não deveriam ser consideradas prerrogativas dos cuidadores? Gênero? Orientação religiosa? Vestuário?

Se não houver atenção a isso, terminamos por perpetuar, sem perceber, um cerceamento em relação às mulheres desde muito cedo, das coisas mais simples às mais significantes. Tem que furar a orelha, tem que vestir de rosa, tem que gostar de boneca, tem que dançar balé. E o mesmo acontece para os meninos. Tem que usar roupas que não sejam rosa. Tem que gostar de futebol. Tem que brigar. Não pode gostar de boneca. Não pode gostar de balé. No caso dos meninos, ainda tem o contraponto do que não pode ser igual às meninas, pelo perigo da homossexualidade, questão que aparece com menos peso entre as meninas, já que a preocupação maior não é essa. O peso em relação ao medo homossexualidade pesa desde cedo para os meninos. Para as meninas não. Mas, da mesma maneira, elas têm que se comportar de uma maneira adequada ao que se espera de uma menina. E a mãe, o pai, devem providenciar isso. Devem furar a orelha. Escolher a fralda de meninas (sim, até isso já tem). Ensinar desde cedo que de saia tem que cruzar as perninhas. Percebo olhares de um certo desprezo quando falam do furo da orelha. Finjo que não é comigo. “

Leia o post completo aqui.

Birth Marks – Marcas de nascença

O projeto Birth Marks registra as transformações no corpo de quem engravidou, gestou, pariu. É belo por naturalizar o corpo que é considerado anômalo, deformado, feio, por considerar os traços de modificação como marcos de histórias que se unem.

Outro projeto parecido, mais antigo, é o norteamericano The Shape of a Mother: para trazer à luz os corpos pós-gestação que a ditadura da beleza diz que devem ficar escondidos, apertados em cintas, que devem ser mudados a qualquer preço.

Lei californiana garante direitos a estudantes transgêneros

Entrará em vigor na Califórnia (EUA) a partir de 1o. de janeiro de 2014 uma lei que garante a estudantes transgêneros a participação em atividades e programas e o uso de instalações escolares de acordo com sua autopercepção e seu desejo, independente de seu gênero de nascimento. O governo da Califórnia e a comunidade LGBT comemoram a lei, ressaltando inclusive que estudantes trans* não precisarão mais escolher entre sua identidade e a formatura. Os conservadores, claro, chiam e mencionam o constrangimento e a violência a que ficarão expostas, por exemplo, meninas que terão como companhia nos banheiros, chuveiros, clubes pessoas que são “biologicamente garotos”.

Laerte foi centro e alvo de uma série de notícias quando não pôde frequentar um banheiro feminino em um restaurante paulistano no começo deste ano.

E falando em Laerte…

Não precisa explicar nada pro filho – amor dispensa explicação.
Mas e aí, já cansaram de princesas?
Um vídeo bem divertido especula sobre o destino que tiveram as onipresentes princesas Disney – mais realismo, menos magia, certamente. O que nos lembra da série Fallen Princesses, da artista Dina Goldstein – ensaios que colocam as princesas em realidades bem diversas do idílio do “felizes para sempre.”


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s