Enquanto os restaurantes comunitários não vêm, o jeito é ir no quilo!

Texto de Sharon Caleffi

Contei no blog das Blogueiras Feministas sobre o dia em que fui convidada pela creche do meu filho, Tomás, para almoçar com as crianças. Foi uma experiência importante para que eu, que já confiava na creche, confiasse ainda mais. Conhecer para delegar, é meu lema. Então, durante a semana, enquanto estou “fazendo mapas” no IBGE, eu sei que o Tomás está fazendo refeições saudáveis e nutritivas. Mas nos sábados, nas férias, nos feriados, o almoço é por conta dos adultos da casa. E quando a gente não pode ou não quer cozinhar (ou quando está mesmo é com vontade de comer só bife e batata frita), nós vamos a algum dos vários restaurantes por quilo aqui de Pato Branco (72.370 habitantes, 16.184 com menos de 14 anos, segundo o Censo 2010) que recebem bem as crianças. (Sim! Eles existem!!!)

Nosso preferido é o restaurante do seu Pedro (que o Tomás ainda não conseguiu compreender o nosso “seu” e chama de “meu Pêdo”), aonde vamos quase toda semana. Uma das nossas companhias, aos sábados, quando tem feijoada, é uma família enorme (umas 15 pessoas) que almoça sempre com o avô à cabeceira. Esse senhor é muito gentil e puxa, à distância, várias brincadeiras gestuais com as crianças que almoçam lá… o Tomás já chama ele de amigo e sempre vai dar beijinho. É claro que a gente se sente quase em casa. Ainda mais porque meus avós e os avós do Tomás moram longe.

E também pelo clima “de casa”, eu acho, é que muita gente aqui almoça em restaurantes por quilo com as crianças… eu sempre considerei uma alternativa saudável à comida caseira, bem mais barata que as novidades vendidas como saudáveis no balcão de congelados do mercado. E são dois braços na roda (eu gosto de dizer que famílias com crianças precisam de braços – e não só de conversê) pra aliviar um pouco o trabalhão que é o cuidado diário. Praticamente todos os restaurantes sempre têm alguma salada, arroz, feijão, alguma “mistura” feita de legumes e algum tipo de carne, mesmo os mais baratos. E claro, bife e batata frita, né, ai meu são dionísio. Dá pra fazer um prato bem colorido pra criança e sempre fica em conta. Colocando na ponta do lápis, para famílias pequenas como a nossa, de três pessoas que comem bastante (nhame! nhame!), vale a pena almoçar fora.

Greici, Felipe, Maria e Peter (Arquivo pessoal)

Vale a pena desde que a ideia surgiu aqui no Brasil (e primeiro aqui!) e não faz muito tempo… acho que eu tinha uns 13 ou 14 anos, lá em meados dos anos 1990, quando meu pai, que era representante comercial e viajava muito, chegou em casa contando da novidade, que ele havia conhecido, eu acredito, em Chapecó, Santa Catarina (183.530 habitantes, 41.110 com menos de 14 anos): “Incrível! A gente só paga o que come! É a melhor ideia do mundo!” E agora, eu, adulta, viajando também para coletar as pesquisas do IBGE, onde trabalho (não só com mapas, mas é o que o Tomás mais gosta quando vai me visitar no escritório), também acho uma benção encontrar um restaurante por quilo nas cidades que visito. Tem coisas raras e deliciosas, como o filé de tilápia na chapa de Itapejara d’Oeste (10.531 habitantes, 2.311 com menos de 14 anos) e o bife com batata frita do seu Schneider em Sulina (3.394 habitantes, 742 com menos de 14 anos), onde os dois filhos do seu Schneider e um garçom passam nas mesas de 3 em 3 garfadas pra perguntar se está tudo bem, se a gente quer mais alguma coisa.

Em outra dessas cidades em que trabalho, Saudade do Iguaçu (5.028 habitantes, 1.322 com menos de 14 anos), um restaurante por quilo muito bom abriu esses dias. Como almocei vários dias seguidos ali, aprendi um pouquinho sobre os fregueses – e principalmente as crianças (restaurante só é bom se respeita criança – e isso inclui o público). No primeiro dia em que fui lá, dois meninos de mais ou menos uns 5 anos estavam almoçando sozinhos em uma mesa. A mãe de um deles é a cozinheira do restaurante e, quando vinha dar uma olhada nas travessas aproveitava pra conferir o que o pequeno tinha comido, ou não, e ver se ele queria mais. A família do outro menino (depois eu descobri) estava sentada em peso em outra mesa – além da mãe, eram mais quatro pessoas – e conferiam de longe o que acontecia na mesa dos dois amigos, tão bonitinhos, conversando e comendo como dois cavalheiros. Que abandonavam toda a calma da refeição quando estavam de barriga cheia e saíam para correr em volta do restaurante, que tem janelas grandes, enquanto os adultos terminavam a sobremesa (grátis – quilão bom tem sobremesa grátis) e o café (quente, forte e à vontade, ainda mais pra quem tem que trabalhar depois!).

E é por esses e outros almoços deliciosos, nutritivos, divertidos, rápidos e sem louça pra lavar (ufa!) que Tomás, marido e eu estamos sempre nos quilos da vida. É por isso que quilo é puro amor. Por outro lado, eu sei que é um privilégio poder usufruir desses serviços de qualidade, que, mesmo baratos pra mim (e bem mais baratos aqui do que nas cidades grandes), ainda são caros para muitas famílias que se sentiriam menos sobrecarregadas com uma solução assim. Conheço várias mães que cozinham à noite para esquentar no almoço. Fui criança e filha de mãe que trabalha fora antes da invenção do quilo e comi muito bife, arroz e feijão congelado… sempre uma delícia e feitos em 20 minutos. Às vezes um adolescente pode fazer o almoço – minhas irmãs e eu começamos a cozinhar com uns 11 anos e fazíamos o almoço de sábado tranquilamente.

Mas uma alimentação de qualidade não é só necessidade das crianças, nem apenas responsabilidade de quem cuida delas. É um direito de todos, uma questão de saúde pública e, deveria fazer parte de todos os programas de Segurança Alimentar governamentais. Aqui no Brasil (190.755.799 habitantes, 45.932.294 com menos de 14 anos), alguns projetos de cozinhas e restaurantes comunitários começaram a ser implantados em alguns municípios e estados, com resultados variados. As notícias na internet mostram altos e baixos na administração das cozinhas comunitárias. No Distrito Federal (2.570.160 habitantes, 608.493 com menos de 14 anos), as 13 cozinhas comunitárias foram consideradas de boa qualidade pelo público usuário em 2012. Em Águas Lindas de Goiás, o restaurante comunitário foi um sucesso e foi apelidado de “Geraldão”, numa referência ao prefeito que o inaugurou. E em janeiro já tínhamos notícias de que o restaurante havia sido fechado. Em Porto Alegre (1.409.351 habitantes, 264.269 com menos de 14 anos) passaram dificuldades graves de atendimento em 2011 mas voltaram a ser inauguradas novas unidades em 2013, agora em uma aldeia kaingang Fág Nhin. Ali, o objetivo, além de garantir nutrição de qualidade para todos, é resgatar a forma tradicional e coletiva de produzir alimentos.

Restaurante comunitário de Águas Lindas – Goiás

Observando o vai e vem político, a gente pensa que não são só as políticas culturais que sofrem das “Três Tristes Tradições” destacadas por Albino Rubim: ausência, autoritarismo e instabilidade. Eu pessoalmente vejo nas pequenas comunidades com tradição de produção coletiva alternativas que podem ser eficazes no longo prazo e democráticas, como cozinhas realmente coletivas, administradas e tocadas por pessoas da comunidade. Mas para que todos possam participar da administração coletiva de serviços comunitários, seria preciso que todos trabalhassem menos… e conversassem mais.

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