Pelo direito de ser diferente

Texto de Cecília Santos e Deborah Capella

Na semana passada o pequeno Theo, de apenas 4 anos, foi impedido de viajar em um voo da Gol de Salvador ao Rio de Janeiro. Neto da coreógrafa Deborah Colker, Theo tem uma doença de pele não contagiosa chamada epidermólise bolhosa. O comandante do voo da Gol exigiu um atestado médico para levantar voo, depois que a tripulação da aeronave submeteu Theo e sua família a muito constrangimento.

Em um contundente artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo de 25/08, Débora Diniz denuncia:

“Mas o fantasma que incomodava a tripulação não era a saúde pública, e sim o que alimenta o estigma pelo corpo incomum. Enquanto o medo atiçava as fantasias do contágio, Theo e a avó inventavam fantasias de super-heróis no espaço – uma realidade existiria além daquela, disse a avó, a forma que encontrou para protegê-lo do tumulto. A força policial foi chamada para impor a lei de invisibilidade ao pequeno corpo que insistiam em se exibir. O batalhão do medo tentou reduzir Theo às bolhas e à pele que descama, ignorando a criança que viaja, vai à escola e gosta de brincar. Por isso, o anúncio da avó é uma subversão do destino imposto pelo estigma: Theo não viverá escondido. Ele vai existir no mundo. Os outros que acostumem seus olhos.”

Clara Colker e seu filho Theo, discriminado em um
voo da empresa Gol

 A palavra da mãe de Theo de que a doença não é contagiosa não foi suficiente para convencer a tripulação. Um médico da Infraero foi chamado, mas a mera palavra dele também não foi suficiente, o comandante exigia um documento por escrito, assinado e carimbado. É lamentável que um papel tenha mais validade do que a palavra das pessoas e que o ônus da prova recaia sobre a vítima. Como acontece com frequência, por exemplo, quando a mulher é que tem que provar que não “provocou” seu estuprador. Ainda segundo Débora Diniz:

“Alguns médicos sustentaram a importância de Theo carregar consigo um laudo que comprovasse não ser seu corpo uma ameaça pública. Esta é a verdadeira perversão do estigma: localiza no indivíduo a origem da rejeição e devolve para o próprio sujeito o dever de proteger-se. Assim funciona a cruel lógica da repugnância: Theo e outras crianças com singularidades corporais não precisam ser autorizadas para o convívio público, por isso laudos médicos, ao invés de passaportes para a liberdade, são como prisões existenciais.”

Choca também que a suposta preocupação com a segurança dos passageiros só tenha surgido no caso de uma condição visível. E se a doença não fosse aparente e fosse contagiosa? Vale mais o aspecto, vale mais o estigma da diferença, do choque visual.

O fato é que o caso do pequeno Theo veio a público depois que sua mãe, Clara Colker, denunciou o caso nas redes sociais e a notícia saiu na grande mídia. Mas e se a avó não fosse famosa, e se a mãe não pudesse ter tido sua voz ampliada pelo acesso às redes sociais? Transpondo a situação pela qual Theo e sua família passaram para um contexto de mais desfavorecimento, quantos indivíduos são postos em evidência por apresentarem o que Débora Diniz nomeia “singularidades corporais” e têm sua passagem interditada diariamente?

A mentalidade impiedosa transita da invisibilização à exposição vexatória em um átimo.

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