Maternidade bissexual e lésbica: o que você tem a ver com isso?

Texto de Amanda Vieira.
Este post faz parte da Blogagem Coletiva da Semana da Visibilidade Lésbica e Bissexual, organizada pelo True Love.

Como mãe e bissexual, atualmente vivendo com minha companheira, portanto vivenciando toda a questão lésbica do lado bi da palavra, vos digo: ser mãe não torna invisível minha lesbiandade. E vice-versa. E você, pessoa que me lê, precisa se acostumar com isso.

Assim que declarei para a minha família que estava grávida e seria mãe, recebi um caminhão de questionamentos que mulheres solteiras frequentemente recebem assim que comunicam uma gravidez. E se a experiência me valeu de alguma coisa, foi essa coisa que ganhei: o senso comum não tolera moças solteiras grávidas. Bem-vinda à desilusão, bem-vinda ao mundo das mulheres que não poderiam nunca ser mães!

Depois que minha filha nasceu e enfim revelei para algumas pessoas que eu vivia com uma companheira, o questionamento da vez foi: como é que a sua filha vai lidar com isso? Isso o quê, eu perguntei. E ouvi: você vai expor uma criança ao preconceito da sociedade?

Silmara, Sofia, Amanda: uma família

Realmente, existem muitos preconceitos contra lésbicas, negras, pessoas trans*, gays, pessoas com a síndrome da epidermólise bolhosa, pessoas que passam por problemas de saúde mental, e a lista se amplia ao infinito. A nossa capacidade de criar preconceitos é realmente impressionante. A nossa capacidade de embutir preconceitos em perguntas falaciosas também não tem limite.

“Como não expor a criança ao preconceito da sociedade?” Acaso alguma criança neste mundo fica livre de todos os preconceitos sociais? Quando uma mulher bissexual/lésbica coloca um filho no mundo, ela está fazendo o quê, alimentando o preconceito do mundo? Daqui a pouco vou começar a ouvir que mulheres negras não podem ter filhos, para não os exporem ao preconceito da sociedade; mulheres trans* não podem ser mães para não exporem os filhos; cegas não podem ter filhos…

Afinal, que pessoas estão autorizadas a terem filhos?

É a sociedade que deve esconder seu preconceito no armário – porque a minha filha já está no mundo. E eu também. E tantas outras mães de diferentes cores, situações sociais, gostos, quadros de saúde… É tão difícil se acostumar com isso? Será mesmo que uma mãe deve ser acusada de egoísmo por “não pensar nos preconceito que o filho irá sofrer”?

Bissexual ou lésbica, não deveria importar! O fato de uma pessoa ser negra, trans*, homossexual ou o que seja deveria importar tanto quanto o fato de eu gostar de brigadeiro. Para mim bastaria isso – que a minha capacidade de ser mãe (ou de trabalhar, ou de agir politicamente, ou de fazer o que eu tenho vontade) não fosse colocada em dúvida por causa da minha lesbiandade.

Direitos sexuais e reprodutivos são direitos humanos. Mas quantas bissexuais e lésbicas se permitem esse desejo de serem mães? Como esse desejo de maternidade está sendo compreendido, reconhecido e validado pela sociedade? O Estado está oferecendo suporte para que esses direitos sejam efetivados?

O que a sociedade tem a aprender com as mães bissexuais e lésbicas é isso: maternidade é um direito humano a ser respeitado. Vai ser mãe aquela pessoa que, livremente, chamar a responsabilidade de mãe para si. Vai ser mãe a pessoa que se sentir à vontade para isso. E convenhamos: não é nada fácil se sentir à vontade pra ser mãe nessa sociedade preconceituosa que quer impor a maternidade para algumas mulheres (impedindo que elas realizem aborto, por exemplo) e vetar para outras, segundo regras não escritas, discriminatórias e violentas. Precisamos rever essas regras.

___________

Confira abaixo mais textos da Semana de Visibilidade Lésbica e Bissexual:

– O Biscate Social Club também participa da Blogagem Coletiva desde o dia 26/08. Confira o texto de abertura, A biscatagi e a visibilidade lésbica, e a série completa no site.

– No Blogueiras Negras, a Semana de Visibilidade Lésbica e Bissexual também começou no dia 26, com o poema Já li essa bula, de Natalia Soares. No site do grupo você confere todas as postagens.

– O Blogueiras Feministas também participa da Blogagem Coletiva e abriu a semana com texto de Jamil Sierra: Levantai-vos, todas! Não deixe de conferir as postagens da semana toda no blog.

4 comentários Adicione o seu

  1. melkubik disse:

    PArabéns! Tenho uma amiga que, logo depois que ela nasceu, a mãe morreu. O pai, não sei pq, não tinha condições de cuidar dela e da irmã, que já tinha uns dez anos de idade. Então a tia a adotou. Tia essa que é lésbica. E posso te dizer, foi a nossa “tia” mais legal de todas as mães! Foi a única q sempre conversou sobre todos os assuntos com a maior naturalidade: sexo, drogas & rock'n roll… Foi e ainda é uma super mãe, que deu uma puta base pra essa minha amiga.
    Sexualidade não define caráter materno. E sim, me lembro dela ter ouvido de pessoas escrotas palavras preconceituosas a respeito da “lesbianidade” da mãe… e ela tirou de letra!

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  2. Parabens Amanda por falar do nosso desejo tantas vezes ignorado…

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  3. Maíra disse:

    Excelente texto, Amanda!
    Basicamente é isso que você disse: querem obrigar mulheres a serem mães proibindo o aborto e querem proibir outras que desejam ser mães com argumentos baseados em puro preconceito! Arrisco dizer que quem não deveria ser mãe e nem pai são as pessoas com essa linha de pensamento, que parecem só estar no mundo com o objetivo de incentivar ainda mais preconceitos nas mentes das pessoas e dos próprios filhos!

    Também sou lésbica, quero ser mãe e exijo ser respeitada por isso!

    Beijos!

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  4. Amanda Vieira disse:

    Oi gente! Desculpe a demora em responder!

    Agradeço pelos comentários. E vamos todas continuar escrevendo, denunciando, comentando, incentivando umas às outras. Beijos

    Amanda

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