Sou surda, meu companheiro é ouvinte, e estamos esperando bebê

Texto publicado originalmente no Offbeat Families em 18/06/2013. Tradução de Cecília Santos.

O FemMaterna agradece a Xênia Mello pela leitura antecipada do texto e pela indicação do vídeo que recomendamos logo ao fim do post.

Sou Surda. Isso, Surda com “S” maiúsculo. Isso significa que eu adotei minha cultura e minha comunidade como minha identidade. Sou portadora da Síndrome de Waardenburg, o que significa que tenho olhos de cores diferentes e alguma descoloração de pele juntamente com a surdez. Meus pais são Surdos. Vários dos meus familiares também são Surdos. Assim como a maioria dos meus amigos. Nós nos comunicamos usando Auslan (a língua de sinais australiana), que também é minha primeira língua. Eu também falo inglês fluentemente, graças a anos de fonoterapia que tive durante a infância. Meu namorado é ouvinte. Eu sou a primeira pessoa Surda com que ele e a família e os amigos dele convivem. Todos eles me acolheram e fizeram concessões à minha surdez (por exemplo, falar comigo cara-a-cara para que eu possa ler lábios, tomar cuidado para haver iluminação suficiente e assim por diante).

Eu estou grávida. Há uma possibilidade de o meu bebê ser surdo (uso “s” minúsculo porque a criança pode não escolher o “S” maiúsculo como sua identidade). Expliquei ao meu companheiro que vou entender se ele e a família dele ficarem chateados se o bebê nascer surdo. Expliquei também que ficarei furiosa se ele e a família dele disserem que ficaram aliviados caso o bebê nasça com audição. Isso foi complicado de explicar ao meu companheiro. Como assim, eu aceito que a família dele lamente a surdez mas não que comemore a audição?

Meninas conversando em linguagem de sinais. Imagem de daveynin no flickr, alguns direitos reservados.

Conversei sobre isso com uma amiga Surda que tem um bebê surdo. Ela entendeu totalmente, eu não precisei explicar. Porém, conversamos sobre isso de maneira a tentar entender melhor o lugar de onde estamos vindo. Concordamos que comemorar a audição também era uma maneira de nos rejeitar como pessoas Surdas. É mais ou menos como dizer que: “Tudo bem você ser uma pessoa ‘com deficiência auditiva’, mas é algo que não desejamos para ninguém.” Nós podíamos compreender que pessoas ouvintes lamentem a surdez, porque a maioria das pessoas que não estiveram expostas à surdez vê isso como uma perda. A pessoa, ou o bebê neste caso, deixa de ouvir música, deixa de ouvir vozes, e deixa de ser uma cópia de seus pais.

Tenho receio que, se meu bebê nascer surdo, ele vai sentir falta do contato com a família pelo lado do pai. Ficar de fora de eventos familiares, como eu também fico, não ser capaz de acompanhar conversas rápidas em torno da mesa do jantar ou entender por que uma determinada coisa é engraçada. O que vai acontecer quando os primos (ouvintes) nascerem – meu filho ou filha vai ver a família interagir de forma diferente com as outras crianças?

Também temo que, se meu bebê nascer com audição, ele pode não se identificar com minha família Surda. Já vi casos em que as crianças ouvintes de pai e/ou mãe Surdo(s) não gostam de estar com pessoas Surdas porque elas são diferentes, e para uma criança que não se comunica em Auslan como primeira língua, é difícil acompanhar totalmente uma conversa em Auslan fluente. Será que meu filho ou filha vai preferir ouvir e obedecer o pai que está ouvindo e portanto fala, a obedecer a mãe que é Surda e vai falar com uma voz “engraçada” ou vai usar Auslan?

Eu só sei que vou amar meu bebê, assim como os dois lados da família, Surdos e ouvintes, sem importar se ele nascerá surdo ou ouvinte. Sei que vamos nos adaptar e que eu, junto com minha criança, vou aprender a me comunicar melhor com todo mundo. Sei que minha criança será uma alegria e um terror. Essa criança vai experimentar o amor e a solidão, não importa para onde vá na vida, e eu vou tentar ensiná-la a aceitar o bom e o ruim, e a acatar ou lutar contra certas situações. Tento explicar isso ao meu companheiro e tento não ter medo.

Meu bebê e eu vamos ficar bem.

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No vídeo acima, o pequeno Bê, que tem mãe ouvinte e pai surdo, mostra os sinais da LIBRAS que já aprendeu. A mãe, Elisa, posta vídeos mostrando a aprendizagem da linguagem pelo filho.

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