Para que serve a identidade ou por que escolher a maternidade como foco

Texto de Amanda Vieira.

O ser humano é um ser social – dizer isso significa assumir que uma pessoa não existe no vácuo, não brota no vazio ou no acaso: significa dizer que ela depende de outras pessoas para sobreviver. O nascimento de um ser humano não pode ser encarado como algo neutro, puramente biológico. Nenhum ser humano sobrevive sem suporte social – é no coletivo que ele se estabelece.

Se a socialização é um fenômeno indiscutível, cabe a nós refletirmos como se dá essa socialização. Se o ser humano será alimentado por mulheres (livres ou escravas?) ou por homens (por que não?); se terá suas necessidades emocionais e de afeto plenamente supridas ou não; se dormirá num quarto arejado ou num (in)cômodo escuro e sem janela…

A maneira como esse ser humano será socializado é moldada pelas regras sociais. E essa forma de socialização não é igual para todo mundo – nem no nascimento, nem ao longo do desenvolvimento desse ser humano até a velhice (se ele conseguir chegar lá). As sociedades impõem obstáculos à socialização de quem precisa dessa mesma sociedade para sobreviver. E, assim, o caminho da sobrevivência se apresenta com as mais variadas formas de relevo, escolhas e custos a pagar.

Todo ser humano vai responder a esses obstáculos de alguma forma, sobrevivendo ou não, sozinho ou em grupo. Quando os seres humanos percebem que outros seres humanos precisam enfrentar os mesmos obstáculos e pagar os mesmos preços, a luta pela sobrevivência de um tem o poder de se tornar a luta pela sobrevivência de vários.

A Presidente da Associação de Mães e Familiares Vítimas de Violência e
Impunidade no Espírito Santo, Maria das Graças Nascimento Nacort, mostra
cápsulas de projéteis encontrados na Casa de Custódia de Viana, no interior
do Espírito Santo. Foto: Wilson Dias/Agência Brasil de Comunicação

E é nesse contexto que o ser humano pode criar e apoiar em “identidades”. Se você está trabalhando e se sente explorado pelo sistema, você pode se apoiar no movimento dos trabalhadores. Se você não tem casa, você pode se apoiar no movimento dos sem teto. Se você é uma pessoa com necessidades especiais, você se apoia no movimento das pessoas que têm necessidades especiais. Se você quer discutir e se engajar em uma proposta mais global de sociedade você pode integrar um partido político. Um ser humano pode se engajar em quantas causas lhe parecer conveniente e pode abraçar as identidades que melhor se adequarem aos problemas que estão enfrentando no momento.

Correntes tradicionais do feminismo perguntam: seria a maternidade uma identidade legítima? Ou ainda: as mães podem se apoiar nesse elemento comum (a maternidade) para enfrentar os problemas sociais com os quais se deparam ao exercerem a maternidade?

É uma pergunta interessante pois o feminismo sabe que a maternidade, sobretudo na sociedade brasileira, vem sendo imposta para as mulheres como algo “biológico”, “natural” e “inerente” a todas as mulheres. Além de ser um papel obrigatório para as mulheres, a maternidade seria um pacote fechado de regras a serem seguidas: dogmas que variam um pouco com as circunstâncias históricas (mães podem trabalhar fora?). E para o feminismo qualquer identidade que se apoie nesse papel previamente estabelecido pela sociedade é conservador por si só.

Então é esperado que correntes feministas olhem com desconfiança qualquer discurso que se faça em torno da maternidade. Parir, nessa sociedade altamente sexista, é conservador. Mulher que adota uma criança é conservadora – pois estaria reproduzindo um sistema indesejável, assumindo o papel esperado de uma mulher que é o de “cuidar” de um ser humano. Para certas correntes feministas falar de maternidade é, rigorosamente, falar de uma maternidade patriarcal indesejável.

Teoricamente mulheres que cuidam não deixam espaço para que homens possam cuidar. Sim, queremos homens que cuidem de crianças. Mas não se muda uma cultura com um estalar de dedos, automagicamente, por força da teoria enunciada. É como se a teoria enunciada não dependesse do ativismo dos espaços concretos.

As correntes feministas prescindem do ativismo? Do ativismo que se dá pelas mães que se recusam a abaixar a cabeça frente a morte prematura de seus filhos devido à violência estatal? Do ativismo das que fazem mamaços, reivindicando que a amamentação seja respeitada nos espaços públicos? Das que reivindicam partos sem violência? Esse ativismo de mães que batem na porta dos governos reivindicando creches para seus filhos? Esse ativismo que batem na porta dos empregadores cobrando licença maternidade e paternidade compartilhadas? Esse ativismo de mulheres mães que clama para que o aborto seja descriminalizado? O ativismo de mães que enfrentam os preconceitos contra a homossexualidade de si próprias e de seus filhos?

Existe feminismo sem passar por esses espaços concretos? Existe feminismo sem a força de mulheres mães que conhecem na pele o lugar mais escuro do patriarcado e se revoltam contra isso?

O feminismo prescinde das mulheres feministas que passam pela experiência peculiar da maternidade?

É essa a última pergunta que as mulheres mães feministas fazem. Elas já sabem a resposta – elas vivem os problemas. E estão cansadas de ouvir dos outros como deve ser a maternidade delas. A maternidade deve pertencer, de fato, às mães – elas têm direito de, estando nesse lugar e sentindo os problemas, transformar esse lugar. Ora, se você é uma pessoa que está se sentindo oprimida por determinada situação social, por que não lutaria para mudar sua situação?

Está mais do que na hora de aceitar que o que é ser mãe e maternar, cabe às próprias mães e outras cuidadoras e cuidadores que maternam definirem. O fato de não haver reconhecimento dessa identidade perante o feminismo não vai impedir que as mães continuem se reunindo, debatendo e formulando reivindicações.

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