Clipping FemMaterna – 02 a 08/09/2013

Lei da Palmada

A Lei da Palmada, como é conhecido o Projeto de Lei 7672/2010, que tem o objetivo de proibir o uso de castigos físicos ou tratamentos cruéis ou degradantes na educação de crianças e adolescentes, não foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, porque uma articulação dos deputados da bancada evangélica obstruiu a votação. A alegação desses deputados é a de que o projeto não é claro, pois fala em castigo físico e tratamento cruel , mas não especifica a gradação dos castigos que podem ser aplicados e seria uma interferência do Estado no âmbito da criação privada de crianças. A intenção desses deputados que estão obstruindo a votação, liderados pelo Deputado Marcos Rogério (PDT-RO), é levar essa votação para o Plenário.

A Deputada Érika Kokay (PT-DF), esclarece: “”Existe um grupo de parlamentares que acham que educação é bater, que acham que as crianças podem ser submetidas a tratamentos cruéis e degradantes, e esses parlamentares não admitem que nós possamos reformar o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA – Lei 8.069/90), assegurando apenas uma coisa: o direito de crianças e adolescentes serem isentos de castigo físico e tratamento cruel e degradante. É somente isso que o projeto diz.”

Todo mundo pode se manifestar a esse respeito pelo Atendimento ao Cidadão da Câmara: 0800 619 619. A ligação é rápida e gratuita.

Quem quiser escrever aos deputados que estão discutindo o assunto (Marcos Rogério é contra a lei e Luiz Couto é a favor), pode se manifestar aqui.

Estética infantil e pelos: relato de uma mãe

Maria Amélia Elói, em post no blog Mãe Perfeita, fala sobre os pelos pelo corpo que são característica das mulheres de sua família e sobre como esse aspecto já incomodou sua filha de apenas 6 anos:
E não é que a minha filha mais velha, de apenas 6 anos, já está preocupada com seu bigodito? Outro dia, enquanto eu contava histórias para ela à noite, na cama, ela me surpreendeu com um choro sofrido e a confissão: “Eu não gosto de ter bigode, mamãe. Meus colegas ficam me perguntando por que eu tenho”.

A percepção das características individuais de cada um dificilmente passa batida, sobretudo entre crianças que…bem, perguntam mesmo. O texto sobre a menina preocupada com a quantidade de pelos em seu corpo deixa em relevo, mais uma vez, a discussão sobre a estética infantil – fundamental num contexto em que a antiga brincadeira de criança de usar maquiagem, roupas e os enfeites da mãe se transformou em um expressivo nicho de negócios, e há salões com variedade de tratamentos estéticos para crianças, há sutiãs com bojo, sapatinhos infantis com salto à venda… e há também a ideia de que o importante é a padronização, o ajuste da criança a uma aparência dita “normal”, “certa”. Cada vez mais cedo.

Leia o post todo aqui.

A indústria do leite em pó, os médicos: uma relação duvidosa

Cristine Nunes escreve sobre como tem sido cada vez mais próxima a relação entre as empresas que produzem e vendem os leites artificiais e os médicos pediatras e cita um texto de Daniel Becker, que ressalta que

empresas fabricantes de leite em pó mudaram suas estratégias: em vez de vender fórmulas para as mães, venderiam para os pediatras. A ideia era conquistar a simpatia desses profissionais com tanta autoridade no que se refere à saúde da criança, e capazes de recomendar as suas fórmulas mesmo diante das evidências crescentes de que o leite materno era o alimento ideal para o bebê.


Quando se juntam em uma busca simples no Google os nomes da maior fabricante de fórmulas infantis do mundo e da Sociedade Brasileira de Pediatria os resultados imediatos mostram uma ligação inequívoca que é de fato preocupante. Misturam-se a isso relatos em redes sociais de mães que na maternidade não tiveram autorização para amamentar (!!) e que chegaram ao berçário e encontraram seus bebês sendo alimentados por fórmulas no copinho, prescritas por pediatras. O resultado final já se conhece: os índices que mostram que, a despeito da recomendação oficial de amamentação exclusiva do bebê até o sexto mês e das propagandas de empresas e instituições de classe que informam que fabricantes e médicos apoiam a amamentação exclusiva, amamenta-se pouco no Brasil.
Leia o post completo aqui.

Escola de Príncipes! Já pensou?

Imagina só que maravilha, que gracinha, o menino crescer inspirado em principezinhos de contos de fada, tendo seu comportamento espelhado neles e aprendendo os valores que eles ensinam nas histórias famosas, em filmes e desenhos animados E – imagina só, uma Escola de Príncipes, onde os meninos vão aprender a tomar chá com modos, a conversar como convém a verdadeiros príncipes, a andar direitinho de armadura? Aaaah, não é fofo?
Anne Rammi escreveu um texto ironizando a cultura das princesas – sim, ainda não se escreveu o bastante sobre isso, sobre como ela projeta valores arcaicos sobre as meninas, expectativas irreais, sobre como estimula estereótipos, classifica as pessoas de acordo com binarismo de gênero e impõe padrões estéticos e de comportamento. Se ela continua massiva, que continuem então as críticas.
Uma palhinha do texto:

Outro filme querido aqui em casa é a história do Príncipe Jasmino. Ele é muito ativo e adora aventuras, mas vive praticamente preso num castelo, esperando que uma garota livre e sua amiga genial da lâmpada apareçam para resgatá-lo do tédio. Ele também desafia sua mãe, que é muito conservadora. É uma história estimulante por mostrar que meninos também podem ir atrás dos seus sonhos e voar em tapetes especiais. Não são só as meninas que nasceram com essa liberdade.


Leia o restante aqui.

A invenção da infância – documentário e comentários de Rosely Sayão

O curta-metragem A Invenção da Infância (2000), dirigido por  Liliana Sulzbach, mostra que a concepção de infância é uma idealização surgida com a modernidade, e esse período seria o momento do desenvolvimento humano que demanda mais cuidados e que deveria ser protegida. Antes da Era Moderna não havia essa distinção: crianças e adultos compartilhavam os mesmos lugares sociais. O filme foca na situação  brasileira dos anos 90 e faz o contraponto entre duas realidades: a de crianças trabalhadoras no interior da Bahia e a de crianças privilegiadas do sul do Brasil. Em ambos contextos as crianças não vivem uma infância plena, apenas reproduzem comportamentos de adultos. A conclusão do filme é a de que “ser criança não significa ter infância”.

Assista aqui ao curta-metragem.

Na última semana Rosely Sayão abordou o tema do documentário em sua coluna para a Folha de São Paulo. Para ela:

Temos entendido que o tempo de permanência na escola é uma necessidade social já que os pais têm se dedicado muito à vida profissional. Conheço profissionais que trabalham muito além da jornada e justificam o excesso como necessário para dar conta da responsabilidade profissional. E a pessoal, com os filhos, onde temos colocado tal responsabilidade?

Crianças têm se alimentado como adultos que se alimentam mal. E, como estes, têm enfrentado doenças por causa disso. Esse fato não ocorre por falta de informação dos responsáveis pelas crianças e sim pela falta de paciência e dos cuidados necessários que elas necessitam.”

Continue lendo o texto clicando aqui.

A autora provavelmente fala para um público de classe média escolarizada, que tem muita informação mas que ainda assim cria suas crianças com base em valores consumistas e no excesso de atividades, que teriam como justificativa a necessidade urgente de ocupar seu tempo e “preparar para o futuro”. No entanto é preciso em primeiro lugar levar em conta a necessidade de se pensar na coletivização do cuidado: muitos cuidadores deixam as crianças muitas horas na escola por não terem outra opção, visto que a carga horária trabalhista não dá margem para o pleno exercício da criação. Tampouco existe flexibilização na estrutura de trabalho que permita arranjos diferentes. Outra questão a se pensar é o caráter individualizado da criação dos filhos: os valores de cada família são expressos também na forma como as crianças são criadas e escolhas e valores não serão necessariamente homogêneos em uma sociedade. Diminuir jornadas de trabalho seria uma opção, mas os argumentos levantados em primeiro lugar são de ordem econômica – a família quer manter seu padrão de vida ou precisa simplesmente sobreviver, e o empregador não quer arcar com um aumento de custos ou diminuição do fluxo de trabalho desenvolvido.

Cabelos cacheados

A blogueira Ana Fonseca conta todo o processo que,  desde a infância, a fez ter vergonha de seus cabelos cacheados, submetendo-os a constantes processos de alisamento:

Foto de Ana Paula Fonseca. Arquivo pessoal.

eu tinha 7 anos e a professora reuniu todos os alunos depois da educação física pra uma conversa livre. fez algumas perguntas e pediu que cada um as respondesse, e uma delas foi: “o que você mais gosta em você? o que tem de mais bonito?”. toda orgulhosa, respondi: “meu cabelo! meu cabelo é lindo”. ela riu. não sorriu, não, ela gargalhou. os alunos começaram a gargalhar junto, acredito eu que em sua maioria sem saber o por que, só seguindo a professora. depois de muito rir, ela disse: “mas esse cabelo aí? se fosse igual o da kelly eu entenderia, mas o seu?” e riu mais um pouco.

a kelly tinha os cabelos lisos e loiros. os meus cabelos eram castanhos, cacheados e volumosos. (…)
decidi que queria fazer franja, ser igual a todas aquelas meninas. quem sabe assim meu cabelo seria bonito? uma tia cortou minha franja e, óbvio, nem de longe fiquei parecida com as coleguinhas. a franja encolheu, se escondeu amontoada na cabeleira longa e cacheada. me senti horrorosa, tinha vergonha que as pessoas me vissem. então peguei alguns bonés da coleção do meu pai e era assim que saía, pra onde quer que eu fosse: o boné escondendo os cabelos que outrora achava tão lindos.

Depois de sua gravidez e da impossibilidade de alisar os cabelos com química, Ana Paula começou um processo de aceitação de seus cachos.

Leia todo o relato: http://malluquicesmaternas.blogspot.com.br/2013/09/das-mudancas-que-maternidade-me-trouxe.html.

O texto de Maria Rita Casagrande no Blogueiras Negras fala sobre a infância negra e também sobre o sentimento de inadequação, neste caso aquele que pode crescer junto com a criança que vive em uma sociedade que desvaloriza a negritude. A autora trata sobretudo da importância da valorização da identidade negra da criança:

Apesar de terem oportunidades diferentes de seus antepassados, as crianças afrodescendentes ainda possuem dificuldade de estar orgulhosos de sua herança racial. Como tão bem explicitado na repetição do teste das bonecas da década de 40, no qual os psicólogos negros Kenneth e Mamie Clark mostram uma boneca branca e uma negra para que crianças relacionem aspectos positivos e negativos a elas. A boneca branca acaba por ser a escolhida pelas crianças pelas características positivas enquanto a negra era preterida. O mesmo teste foi feito em 2006 e o resultado foi semelhante.

Diante de situações como estas ou de pedidos como “eu quero uma franja”, “eu quero ser branco”, “porque não sou igual a minha coleguinha” ou “porque me chamam de preto se é cor de lápis”, mesmo a mais preparada das mães ou pais paralisa. Paralisamos porque passamos por situações semelhantes, paralisamos porque doeu em nós e pode doer neles.

Leia aqui o restante do texto.

Curta de animação: The Lighthouse



Cena de The Lighthouse, curta de Po Chou Chi.


O curta de animação The Lighthouse (O Farol) foi produzido e dirigido pelo taiwanês Po Chou Chi entre 2010 e 2011 e recebeu 28 prêmios internacionais. O filme traz uma delicada história sobre paternidade, crescimento e aprendizagem, sobre o ciclo da vida.

2 comentários Adicione o seu

  1. Cada dia mais lindo, mais recheado e mais crítico.

    Amando o clipping!!!

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  2. Marusia disse:

    Acrescentar pontos de vista àquilo que já parecia estabelecido para sempre: a gente sempre cresce!
    Obrigada pelo link!

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