Resenha: "Tarachime” de Naomi Kawase (2006)

Texto de Carol Pombo.

Nesse média metragem a diretora registra momentos seus com a mãe-avó de noventa anos de idade, e também com o filho que acabara de nascer. Ela aparece pouco no vídeo, ficando como realizadora e ao mesmo tempo expectadora das cenas, como se, de fato, tentasse entender sua relação com a mãe (que a adotara logo depois de nascer, mas que fora chamada de avó durante todo o filme), ao mesmo tempo em que transita para a maternidade. As cenas focam-se nos corpos nus, nas mãos que marcam o sinal do tempo – do vivido e do que ainda há pra viver, da velhice e da primeira infância.

Imagem do filme “Tarachime”. Divulgação.

 Os seios e a barriga da avó são registrados detalhadamente, evidenciando a questão do pertencimento – Naomi que sugara os seios de uma mulher que não a carregara no ventre, reclama das vezes em que, na adolescência, ouvira os apelos para que fosse embora caso quisesse. Os diálogos parecem revelar a ambivalência desse sentimento de partilha e de insegurança, de ser e ao mesmo tempo não ser aquilo que se espera.

Um dos momentos mais tocantes é o parto de Naomi, vivido em sua casa, ao redor de uma parteira e pessoas próximas, incluindo a avó-mãe, e que culmina com o consumo da placenta enquanto ela conversa com seu bebê. A cena é como um ritual de passagem que a leva à compreensão (ou pelo menos à disposição em compreender) o que é a maternidade, em como viver a transição para essa nova vida. Sabemos que Naomi se questiona sobre a vida não só porque está gerando um filho, mas porque sua mãe-avó descobre-se com câncer e enfim falece.

Ela mesma se descobre com um nódulo benigno no seio e sobrepõe as imagens do exame da mãe com sua sessão de ultrassonografia. Enfim, seu filho, já caminhando, visita o túmulo da bisavó e faz a tradicional reverência japonesa aos antepassados, nos oferecendo a conclusão de que afinal a vida não se resume apenas àquele que vem à luz, ao começo de tudo, mas se refere às interposições de outras vozes, corpos e sentidos que o antecedem.
 
Naomi Kawase
Naomi Kawase é uma cineasta japonesa que se notabilizou por dirigir documentários autobiográficos. Outros filmes de sua autoria são: Vestígio e Floresta dos Lamentos. Leia aqui uma entrevista com a cineasta.
 
 
Assista ao filme neste link: http://www.filmesdetv.com/tarachime.html

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