Conversa com uma mãe ateia

Texto de Lays Moreira.

Antes de começar, eu gostaria de já deixar uma coisa bem clara: sou ateia. Eu gosto de deixar as coisas claras no começo, sabe? E eu sou ateia.

Isso quer dizer que não acredito em Deus, em nenhuma de suas manifestações: não acredito em Deus, em Alá, em Oxalá, em Krishna… enfim, não acredito. A história do meu ateísmo é longa, não sei se cabe ser contada aqui, mas de modo geral, ele se baseia na falta de evidências que comprovem a existência de algum ser sobrenatural responsável pela criação do universo e orientação das nossas vidas. E evidências que não sejam apenas experiências ou impressões pessoais, sabe? Você pode me dizer que sente a presença de Deus, quem tem evidências suficientes, ou ainda, que Deus não precisa de evidência. E vai estar tudo bem pra mim, não vou questionar a sua fé, não vou mesmo. Até porque… Quem sou eu para fazer isso? Não tenho o direito de questionar a sua crença, porque acredito que você tem o direito de crer. Por mais que eu esteja certa da minha não-crença, não vou impô-la a você.

Se você me disser “Vá com Deus”, eu vou agradecer e desejar o mesmo. Se você me abençoar, vou desejar o mesmo. Se você me der de presente um símbolo da sua crença, vou guardar com carinho. Não vou rejeitar nenhuma manifestação de carinho vinda da sua fé, porque afinal, elas são manifestações de amor, são suas e são importantes para você. Também não vou tentar impor minhas crenças a você, não vou tentar desconverter você, porque não faço o tipo de ateu que tenta a desconversão mundial. Já fui, admito, mas a gente vai vendo as coisas diferentes e vai mudando o jeito de pensar; hoje penso que há lugar para todo mundo, desde que haja o respeito à diferença. Então, se um dia você quiser saber sobre meu jeito de pensar, a gente conversa e eu explico, mas não vou impor nada e nem insistir no assunto, se você não quiser.

Estou falando tudo isso porque quero que você tenha uma ideia de como eu levo as coisas antes de entrar no assunto mesmo. É que eu tenho uma filha, sabe? E eu me preocupo muito com esse aspecto da vida dela, não porque eu queira que ela pense igual a mim; na verdade, se um dia ela chegar por si mesma às mesmas conclusões que eu, vai ser legal. Se ela acreditar em algo, também vai ser legal, desde que ela respeite outros pontos de vista e manifestações de fé diferentes. Acho que essa é a única coisa de que eu faria questão, então estou fazendo minha parte. Levo-a para ver diferentes manifestações, desde a missa católica até a festa de Iemanjá, sempre focando na diversidade de caminhos, para que, quando ela tiver idade, ela possa escolher o caminho dela entre tantos que existem. Sabe, mostrar os caminhos e deixar livre pra escolher?

Para ser franca, se eu pudesse escolher, optaria para que ela não fosse ateia. Porque a vida dos ateus não é muito fácil, vai desde as frases do tipo “pessoa que faz isso não tem Deus no coração” (geralmente depois de um crime hediondo), até o rompimento de relações com amigos e parentes que se recusam a se relacionar com um descrente. É complicado. Já fui constrangida no meu ambiente de trabalho por uma colega que abria toda reunião com uma oração pela minha salvação. Já fui questionada sobre a capacidade de criar minha filha e passar-lhe valores positivos. Pessoas já trocaram de calçada ao verem minha aproximação. Já tentaram me converter de todas as formas, desde a pregação aberta até formas mais sutis de manipulação. É complicado.

E fica difícil você reagir quando o próprio Estado passa por cima de você e impõe a educação religiosa como parte do currículo escolar, através da lei 9475. E apesar de dizer que essa disciplina é de frequência facultativa, na prática as coisas não são tão simples; muitas escolas não informam os alunos dessa natureza facultativa da matéria, outras não possuem alternativas para os alunos que não queiram frequentar as aulas de religião. E sempre há o risco de discriminação do aluno, como aquele “que não tem Deus no coração”. Se a escola da minha filha tivesse a aula de religião, eu faria com que ela a frequentasse. E não porque eu acredite no que vai ser ministrado, mas porque tenho medo de que ela seja discriminada caso ela seja identificada como ateia. Ou melhor, como filha de ateia. Embora o Estado se auto-defina como laico, ele cria situações que geram a perseguição e discriminação religiosa, principalmente se você acredita em religiões que não sejam as cristãs ou, como eu, é ateu.

Foto de Zach Alexander no Flickr em CC – alguns direitos reservados

Sabe, e muitas vezes a imposição da religião, da crença, vem de formas nem sempre abertas. É o salmo escrito na lousa diariamente para que as crianças copiem, é a oração para o Papai do Céu, são as musiquinhas do “homenzinho torto que Jesus endireitou”, tudo isso ministrado por professoras, fora do momento do ensino religioso em si. E sem se consultar os pais daquelas crianças, porque se parte do princípio de que “é bom ensinar isso para os alunos”, “todo mundo gosta”, “todo mundo acredita”. Quer dizer, esquece-se que existem formas diferentes de pensamento, que existem os umbandistas, os candomblecistas, budistas, hinduístas, judeus, pagãos, ateus. Assume-se que todo mundo pensa igual, que existe apenas uma forma de crença e estabelece-se o pensamento único. E eu tenho muito medo do pensamento único. Principalmente quando ele é transmitido para as crianças. Porque elas confiam nos adultos que as ensinam, tendem a assumir o que lhes dizem como verdade; e eu não consigo ver essa relação de outra forma que não seja a da violência ideológica. A imposição através da relação de confiança.

Você pode me perguntar então se sou contra que as crianças recebam a instrução religiosa familiar. De forma alguma, acredito mesmo que as orientações religiosas são responsabilidade e direito das famílias. Problema é quando o Estado pratica essa orientação disseminando apenas uma forma de pensar, ou não faz nada para coibir essas práticas, ou permite que facções religiosas interfiram em políticas públicas de educação e saúde. Esse é que é o grande problema. Quando algo que deveria ser uma escolha de âmbito familiar passa a ser algo que interfira no público, quando algo que deveria ser pessoal passa a ser praticamente uma imposição. Quando algo que deveria ser instrumento de compreensão e tolerância vira meio de perseguição, preconceito e discriminação.

Minha filha ainda não sabe que sou ateia. Ela nunca me perguntou diretamente sobre as minhas crenças e, quando ela pergunta sobre o que acontece com as pessoas depois que elas morrem, ou se os anjos existem, respondo que as pessoas acreditam em coisas diferentes. É assim que tenho levado, porque, como eu falei para você, eu não quero que ela apenas assuma as minhas escolhas. Quero que ela faça as dela. Mas eu sei que uma hora ela vai perguntar, e eu vou ter que responder a verdade. E aí – e assumo que tenho muito medo disto – vou ver se continuarei a ser a mãe dela ou passarei a ser uma pessoa “sem Deus no coração”.

Lays Moreira é feminista, mãe, nerd, ateia. E acima de tudo, uma pessoa tentando entender a loucura desse mundo.

8 comentários Adicione o seu

  1. Maíra disse:

    Olá, Lays!

    Primeiro, parabéns pelo seu texto! Também sou ateia assumida, mas, antes de me descobrir ateia, passei pelo catolicismo, espiritismo e budismo. Foi libertador me assumir ateia e creio que foi uma das melhores coisas que aconteceu na minha vida, assim como foi quando me assumi lésbica! Sim, além de ateia eu sou lésbica, daí você imagina o quanto religiosos fanáticos devem me achar o “máximo”, né? rs!
    Mas, sabe, gostaria de fazer uma observação sobre o seu texto que me incomodou um pouco: o seu medo de se assumir ateia para a sua filha e o medo dela ser ateia e sofrer. Foi inevitável não fazer um paralelo disso com a homossexualidade! Antigamente, beeeem antigamente, eu tinha um discurso muito parecido com relação à minha homossexualidade! Como sempre desejei ser mãe, eu pensava que seria melhor que meu filho fosse hetero, pois, dessa forma, ele não sofreria discriminação. Foi um longo caminho até eu conseguir enxergar que esse era um preconceito internalizado. Consegui superar isso e hoje digo tranquilamente que gostaria, sim, que meu filho fosse homossexual, tanto quanto gostaria que ele fosse hetero. Acho que pessoas bem resolvidas e amadas no seu círculo familiar são felizes, independente do caminho que tomam. E projeto muito isso também na questão do ateísmo! Quero que meu futuro filho entenda o que é religião, quero ensiná-lo sobre as várias crenças que existem no mundo e também quero explicar porque somos ateias aqui em casa. Obviamente, se ele quiser seguir uma religião, não vou reprimi-lo, mas gostaria que ele fosse ateu, sim, simplesmente porque, do meu ponto de vista, crer em Deus é algo muito “nonsense”, e é fato que muitas pessoas se deixam levar por essa ilusão e acabam perdendo muitas oportunidades na vida e deixando de viver por medo de “reprimendas divinas”! Não, eu sinceramente não gostaria que meu filho acreditasse em Deus.
    O preconceito contra ateus existe, sem dúvida (apesar de eu nunca ter sofrido nenhum tipo de discriminação parecida com essas que você citou), mas acho que precisamos ser felizes com nossos caminhos e nossas escolhas, e acho que é importante nos assumirmos ateias para nossos filhos. Esconder nossas opiniões faz parecer que estamos errados, e não acho bacana passar isso para um filho! No meu caso, por exemplo, como eu ensinaria para meu filho que ser homossexual é normal e correto, se eu escondesse isso dele? Acho que a questão do ateísmo se encaixa bastante nesse ponto também!

    Beijos e boa sorte!

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  2. Sooraya disse:

    Parabéns pelo texto Lays.

    Essa imposição através da confiança de que você fala é uma questão importantíssima no magistério porque através dela professores colocam para os pequenos não só suas crenças religiosas como seu machismo, sua homofobia e racismo.

    São coisas aparentemente simples, como “brinquedos de menina e de menino”, “não vá chorar como uma menina”, ou o tal do “lápis cor da pele”.

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  3. Rita disse:

    Oi, Lays.

    Sabe que tenho respondido com muita tranquilidade sobre isso? Assim: “tem gente que acredita que quando morremos vamos para o céu; eu não acredito” ou “tem gente que acredita em papai do céu; a vovó, por exemplo; eu não acredito”; outras vezes, quando perguntam o que ocorre quando a gente morre, digo simplesmente “não faço a menor ideia; há respostas que a gente nunca vai encontrar, sabe?”. Com naturalidade, desde sempre. Por enquanto, tudo bem. 🙂 (meus filhos têm 8 e 6 anos)

    A escola deles é católica, mas o ensino religioso é multicultural, gosto muito da abordagem deles nesse sentido. A última “avaliação” não tinha uma palavra sobre o cristianismo, foi toda sobre islamismo e hinduísmo (3º ano do ensino fundamental) – e, cá pra nós, acho que ensinar sobre a relação religião/cultura é uma ótima forma de introduzir o assunto ateísmo, porque desmistifica a noção de absoluto de cara, né?

    Ao mesmo tempo, também questionamos a ciência e digo pra eles: “alguns cientistas estudaram um monte e concluíram que bla bla; eu acho uma ideia bacana, mas há outros cientistas que pensam diferente; ciência é assim, tá sempre evoluindo, sempre fazendo perguntas, etc” – pra garantir que eles não transformem a ciência em uma espécie de deus também. 🙂

    Ótimo texto, parabéns.
    Bj,
    Rita

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  4. Jose Silveira disse:

    Você falou mais de 10 vezes a palavra Deus. Escreveu em maiúsculo o nome em respeito. Você se definiu como “feminista, mãe, nerd, ateia”. Assim os caoisa mais importantes na sua vida são o feminismo, a maternidade, ser nerde e não crer em Deus. Veja como é Deus, ele está em tudo, está muito em você também que negando-o vive falando nele. Eu não gosto de chocolate, já tiraram sarro de mim por isso, mas jamais parei para falar num blogue ou qualquer outro lugar sobre isso, mas você sentiu essa necessidade, necessidade de falar em Deus, ainda que seja pra falar que ele não existe, mas falar em Deus. Falar em Deus é bom, seja confirmando ou negando. Na bíblia está escrito que, onde houver dois ou mais reunidos em meu nome, ali estarei, é o caso aqui, reunidos em nome de Deus falando da existencia ou não. Na bíblia está escrito que os cristãos devem levar ao conhecimentos dos ateus a existência de Deus, mas eu não pretendo te converter ou tentar algo, embora minha obrigação de cristão seja essa. você tem uma filha, imagino que quando ela saia na rua, você de alguma forma torça para que corra tudo bem com ela, emita eum fluido bom, sei lá…Eu peço a Deus e tento me tranquilizar nisso e assim vou vivendo nesse nosso mundo muito louco e perigoso. Eu tb tenho filho e falo pra que ele reze toda a noite. A crença em Deus vem de pai para filho, é uma semente plantada, ou não. mais de 95% da humanidade cré em Deus deve ter um fundo de verdade. tudo de bom!

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  5. Jose Silveira disse:

    Bom Você se define como “feminista, mãe, nerd, ateia”, falou mais de 10 vezes em Deus, quer dizer que Deus de uma forma ou de outra está em sua vida.. isso é Deus. Você vai falar pra sua filha, crer em Deus ou não Crer em Deus, mais vai falar em Deus. Não é atoa que 95% da humanidade de todos os tempo creem nele.

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  6. Maira, obrigada por comentar o texto. Sabe, embora eu tenha dito que preferia que ela fosse religiosa por uma questão de adaptação ao meio, tenho consciência de que não posso encaminhá-la para esse lado, porque seria uma incoerência gritante da minha parte. Pregar o que não acredito? Não rola.

    Por outro lado, também não me sinto à vontade de estabelecer de modo taxativo para ela o que não acredito. Da mesma forma que não reconheço o direito dos religiosos de tentarem converter a cabeça da minha filha, também não me sinto no direito de forçar a barra para o ateísmo. O que posso fazer é que ela tenha contato com a maior diversidade de pensamentos possível, na tentativa de ajudá-la a ser uma pessoa plural. Isso significa que ainda não assumi abertamente meu ateísmo, mas também não permito o proselitismo. Mais ou menos como não estimular a acreditar no Papai Noel, mas também não destruir a crença e deixar ela fazer os questionamentos por si mesma. Quando ela perguntar qual é o meu ponto de vista, vou responder, mas não antes, porque no meu ponto de vista, é puxar a sardinha para o meu lado; no máximo questiono alguns conceitos que aparecem vindos de fora.

    E na verdade, acredito que seu paralelo com a homossexualidade não seja perfeito, dado que a religião, mesmo com todo o seu contexto social, é uma escolha. Você pode deixar de ser católico, protestante. Você não pode deixar de ser homossexual. Faz uma diferença enorme.

    Beijocas!

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  7. Boa noite, José, obrigada por comentar!

    Bom, em primeiro lugar, se escrevi o nome de Deus com maiúscula, foi em respeito às regras da Língua Portuguesa, já que neste caso “Deus” se refere à uma entidade em específico. Também escrevi os nomes de outras entidades com letra maiúscula, pelo mesmo motivo.

    Claro, você pode interpretar que isso na verdade é um desejo inconsciente de me aproximar de deuses, de preferência o seu cristão. Sem problemas, mas não é verdade. Você também pode acreditar que isso é uma prova de que Deus (substantivo próprio) está em todos os lugares. Sem problemas também. Não é o que eu acredito, mas você tem todo o direito de acreditar.

    Mas vou discordar quando você diz que falar de Deus é sempre bom. Nem sempre. Não consigo acreditar que é bom quando uma criança demonstra medo de ser punida por Deus, ou medo de ser mandada para o inferno, ou acreditar que Deus não gosta dela. Não consigo ver isso como uma coisa boa, a disseminação do terror através da religião. Daí é que veio a minha necessidade de falar no assunto; da utilização da religião como instrumento de dominação. Se as pessoas religiosas respeitassem o meu direito de não crer, se não tentassem a doutrinação a todo custo das crianças, independente da crença de seus pais/família e delas mesmas, eu provavelmente não teria escrito o texto.

    Você diz que a necessidade de conversão dos ateus (e crentes de outras deidades )está escrita na Bíblia (aqui também em maiúscula por ser substantivo próprio), mas lá também estão escritas coisas como apologia à escravidão, pena de morte, assassinatos em massa e coisas afins. Então sempre me questiono sobre como se pode assumir a Bíblia como norteadora em alguns aspectos e não em outros, se ela é tida como palavra divina. Mas ainda bem que passamos a ignorar algumas coisas dela, não é mesmo?

    Sugiro que veja a porcentagem real de crentes em Deus, porque com certeza ela é bem menor. Principalmente se estivermos falando do deus cristão.

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  8. VYG disse:

    Que tal ler o texto?

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