Entre biologia e sociedade: por uma discussão ética da maternidade

Texto de Carolina Pombo.

Quando a gente começa a falar de maternidade e maternagem é muito comum ouvir questionamentos sobre o papel da biologia e da sociedade. Dependendo das respostas podemos ser “encaixadas” nas versões y ou x das teorias feministas e dos movimentos maternos. O assunto é sensível a esses questionamentos porque ele remete a um evento universal: a concepção e o nascimento (ainda que extrapole e muito esses elementos).

Algumas abordagens mais críticas partem da constatação de que a maneira como encaramos essa temática é formada por valores culturais e relações sociais de poder. Muitas feministas das décadas de 60 e 70 denunciaram a prisão que a maternidade compulsória representava para as mulheres. Elas afirmavam que maternar não era um desejo natural ligado ao corpo feminino, mas que era uma imposição social, disfarçada de “essência biológica” – e que portanto todas deveriam ter acesso à contracepção. As abordagens que tratam diretamente dos cuidados com as crianças, da amamentação, gravidez e parto, porém, costumam apelar bastante para as verdades biológicas (fisiológicas, estatísticas) para aconselhar as mães e demais cuidadores.

Afinal, quem está certo? Afinal, como mães, recorreremos a um discurso legitimado pelas ciências ou pela crítica feminista? Seremos orientadas pela biologia ou por valores sociais?

Eu vejo vantagens tanto num tipo de discurso como noutro. Porém, tenho ensaiado outra visão sobre a biologia e a sociedade, a partir justamente dessa posição constrangedora na qual as mães (especialmente as mães feministas) permanecem. Nessa visão, abro mão de responder à pergunta sobre o “ovo e a galinha”, sobre a origem de tudo, afinal…

Imagem: Carolina Pombo, arquivo pessoal.

A biologia não precisa ser encarada como fonte determinista de nossos comportamentos, sentimentos, nem mesmo de nossos corpos. Assim como tudo nesse mundo, ela não é estática nem é isenta politicamente. O que eu quero dizer com isso? Por um lado, a biologia é um campo científico em constante evolução, que recebe influências diversas, até mesmo econômicas – não é por acaso que temos muitas pesquisas sobre leites artificiais para recém-nascidos, por exemplo. Então, os conceitos que ela cria a partir da observação de nossos corpos não são neutros, são influenciados por diversas demandas das sociedades. É por isso que nem sempre devemos acreditar naquilo que é espalhado por aí como “descoberta científica”. Por outro lado, se pensarmos na biologia como materialidade vamos perceber que mesmo ela não é livre de mudanças, instabilidade, variedade. Nossos corpos se adaptam ao meio, nossos órgãos são remodelados pelos usos que fazemos deles, as reações químicas que surgem em nossos sistemas estão ligadas ao tipo de alimentação que fazemos, aos produtos que consumimos, etc. A vida é dinâmica. Então, podemos concluir que a biologia não é uma “essência natural”, uma fonte determinista de tudo que é humano. Então, se os cientistas dizem que encontraram os “genes” da sexualidade, por exemplo, não significa que esses são códigos pré-determinados de nossa orientação sexual, mas que pode existir uma correspondência genética para determinados comportamentos sexuais, que nossa genética é variável e pode acompanhar mudanças sociais. E mais: que as mudanças e diferenças biológicas não devem sempre ser encaradas como anormalidades e patologias.

E ao falarmos de sociedade, significa que estamos nos referindo a coisas impalpáveis, a forças metafísicas, que podem ser de qualquer maneira, dependendo do livre-arbítrio de quem tem poder para modificá-las? Da mesma forma que a biologia tem suas influências culturais e políticas, as ciências sociais, o jornalismo, a literatura, a educação também tem. Os valores que nos ajudam a compreender a realidade, a fazer laços com outras pessoas, a nos desenvolvermos como seres sociáveis que somos, também não são neutros. Não são livres das relações de poder e não são livres de relações íntimas e complexas com a biologia. Os discursos que alimentam nossa sede de informação, quando maternamos, são muito influenciados por recomendações pedagógicas, psicanalíticas, filosóficas, valores que partem de “projetos de sociedade” que nunca são neutros. E cada campo de conhecimento acaba se relacionando de alguma forma com nosso dia-a-dia, mesmo quando não percebemos. Da mesma forma, as construções de gênero que fazemos não estão soltas no ar, estão ligadas aos valores sociais que nos informam e suas relações com a materialidade dos corpos. Imagina se a gente considerar que um dia homens cis possam engravidar… Mesmo que essa seja uma escolha subversiva, sabemos que ela dependerá do desenvolvimento tecnológico, das pesquisas biológicas, das possibilidades de alteração dos corpos (isso nos faz pensar também no caso de um homem trans que faz hormonioterapia e pode modificar seu sistema reprodutivo – até que ponto essa alteração lhe favorecerá engravidar caso queira?). Então, ao falar de gênero e propor formas de subversão, é preciso pensar na materialidade também. Quais são as repercussões das modificações corporais relacionadas às identidades de gênero? Como cuidaremos desses corpos modificados pela gravidez, pelas alterações hormonais espontâneas ou provocadas?

Mas, se consideramos a materialidade variável, então, aceitamos que diferentes pessoas vivam relações diferentes com seus corpos, e que a correspondência entre biologia e cultura não se restrinja à medicalização. (Quando um governo institui um terceiro gênero, que seria o X, não estaria justamente reconhecendo uma vivência biológica e social antes oprimida? Pois, foi o que fez o governo alemão, e o que muitos outros Estados certamente farão daqui em diante).

A questão que permanece em aberto (e que eu não sei se um dia poderemos responder satisfatoriamente) é como se dão essas relações entre biologia e sociedade, corpo e palavra, natureza e ação humana – não é possível saber o que vem primeiro, o ovo ou a galinha. Essas relações remetem ao paradoxo entre estabilidade e mudança, típico da humanidade, e nos demanda posicionamentos éticos urgentes. Pois, não é porque temos o poder de manipular a natureza e transformá-la em bombas atômicas que o devemos fazê-lo, certo? Não é porque identificamos opressões sobre as mães que defenderemos políticas que impeçam que tenham mais filhos (como a Política do Filho Único na China), não é? É importante lutar contra a visão equivocada da ciência que patologiza/hierarquiza corporalidades que são diferentes das estatisticamente comuns. E ao mesmo tempo é importante entender como as corporalidades mais comuns se desenvolvem, e assim, criar parâmetros éticos de “melhores práticas”, “melhores cuidados” para os bebês recém-nascidos – que afinal serão padrões sempre inacabados, abertos a mudanças culturais e escolhas individuais.

A amamentação é um tema especialmente sensível a esse paradoxo. Sabemos que nem todas as mães de bebês têm leite e amamentam. Ao longo da história de diversas sociedades as mulheres usaram vários recursos substitutos de seus próprios seios, de acordo com as classes sociais, as religiões, o tipo de organização comunitária, enfim. Mas sabemos que a maior parte delas tem corpos fisiologicamente preparados para tal e que a maioria dos bebês se beneficia muito do leite materno. Deixaremos de incentivar a amamentação porque existem mães que não conseguirão exercê-la? Abraçaremos um discurso determinista de que toda mulher pode amamentar quando sabemos que algumas não? Proibiremos a venda e a compra de mamadeiras para forçá-las a pelo menos “tentar” (como na proposta do governo venezuelano)? Será que não é possível adotarmos um discurso ético, que priorize o pleno desenvolvimento de todos, e que, portanto, não use apelos hierarquizadores de modos de maternagem, mas que não se isente de apresentar alternativas sabidamente saudáveis de cuidado?

Eu acho super difícil encontrar o tom certo. Porque nos acostumamos a separar radicalmente biologia e cultura, natureza e sociedade. Ainda estamos caminhando devagar para um valor de maternidade que considere de verdade a complexidade da vida. E podemos cair na tentação de recorrer a explicações deterministas. Mas, acho um erro maior abraçar discursos fechados sobre o assunto, quando ele ainda está longe de ser acabado. De minha parte, por causa de meu percurso como mãe, como feminista e como pesquisadora, estou me permitindo arriscar. Nem sempre encontro respostas, mas acho fundamental manter as perguntas. Essa é a posição ética que eu acredito que todo feminismo e toda militância em torno da maternagem deveria adotar, a de se perguntar sobre modos comuns e variáveis de ser mãe, sem julgá-los precipitadamente; a de se voltar para as realidades “nuas e cruas” desse processo transformador, e a confrontá-las aos discursos legitimados, sejam eles biológicos ou feministas.

5 comentários Adicione o seu

  1. Carol! É isso! Tá perfeito!

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  2. Obrigada querida! Suas questões foram super importantes e me ajudaram a construir um texto melhor. 🙂

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  3. A questão da amamentação é algo muito muito muito muito complicado para mim. É muito raro uma mãe não poder, fisiologicamente, amamentar. Todo o resto, leite fraco, pouco leite, peito pequeno, sabemos que são mitos para dificultar a amamentação. Sabemos também que, uma mãe informada, com o apoio necessário, consegue amamentar sim. A questão é: e as que não querem? É ai que pega pra mim. Porque sim, a pessoa pode não querer. Tem gente que sente aflição do bebê sugando no peito. Tem gente que não gosta. E quem sou eu para falar que a pessoa tá de frescura? Quem sou eu para anular o sentimento do outro? Eu tenho é de ajudar essa mulher, é de defende-la como uma pessoa que pode e deve escolher. Mas é complicado.

    Quanto a questão de instinto, biologia, etc. Eu acredito muito que nós todos temos instintos. Todos. Homens, mulheres, crianças. Todos. Acontece que a história do instinto materno é umas das coisas mais machistas que já ouvi, é uma forma de jogar toda a responsabilidade de uma criança para cima de uma mulher, com a justificativa que biologicamente ela é mais preparada.

    Tem um texto no meu blog, sobre a questão da paternidade, onde uma moça comentou que não podemos dizer ” ah, é biológico”. Porque se formos fazer tudo que é biológico, ou instintivo, a vida seria um caos.

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  4. Oi Isabela, obrigada pelo seu comentário! Acho que em relação à amamentação, a gente tem que se questionar então o que é ser fisiologicamente preparada para amamentar, e se isso basta. A fisiologia de uma mulher se reduz à seus hormônios? E mesmo que fosse assim, a gente sabe que o sistema hormonal não é igual em todas as mulheres. A capacidade de amamentar está relacionada também é possibilidade de “aguentar” um bebê sugando o seio. Então, isso tem a ver com a forma como a pessoa vive sua corporalidade. A questão do desejo de amamentar também tem que ser vista com cuidado, porque muitas vezes a falta de vontade não é de dar de mamar, mas é de passar pelas dificuldades, pelos desafios de amamentar, num contexto totalmente contraditório a essa “função”. Isso tem a ver com a questão da via de nascimento tb, né? Muitas vezes, quando ouvimos alguém dizer que quer fazer uma cesária eletiva não é só porque não quer sentir as dores das contrações, mas porque ela tem uma ideia de parto normal que é mesmo assustadora, que tem a ver com a violência obstétrica que vemos por aí… Então, acho que a proposta do texto é vermos essas coisas imbricadas, biologia e sociedade, influenciando na maternidade de cada uma.

    Beijos

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  5. Sim, concordo Carolina. Só pontuei algo que me incomoda e que não sei agir diante disso, conflitante entre o feminismo e o jeito que acredito na maternagem. Acredito que amamentar é quase que a única opção saudável para o bebê, e para a mãe. Porém, não posso tirar o direito de escolha de uma mulher e impor o que acredito. Porque, biologicamente acredito que muitas podem amamentar sim. Que produzem leite. Porém, e a vontade dessa mulher? Amamentar é muito mais que produzir leite. É dedicar tempo, é ter paciência, é aguentar uma pressão enorme. E daí que eu sei que tem mulher que pode não querer passar por isso e ela não deve ser julgada e sim apoiada.

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