Sexo que é bom… a mamãe também gosta!

Texto de Tâmara Freire

Imagem de keiramellis no flickr, alguns direitos reservados

Então eu estava lá comprando calcinhas. Não quaisquer calcinhas: aquelas bonitas, rendadas. E sutiãs também: eu comprei alguns sutiãs. Eu não sabia onde aquele caso ia dar mas, quando a ocasião chegasse, eu queria ter coisas mais interessantes para vestir do que as maiores e mais confortáveis calcinhas disponíveis no mercado, e sutiãs de amamentação.

Yeah, você leu direito: sutiãs de amamentação. Além de ser mãe solteira, quando eu comecei a namorar, eu ainda amamentava meu filho. Que raio de mãe faz isso? Uma vadia, só pode. Alguém que não conseguiu segurar o fogo nas saias até a criança crescer! Ou não. Talvez uma mulher sensata, tentando encontrar o quanto antes um homem que a limpasse do crime de ter um filho fora de um relação estável, e que pudesse ajudar com a criação do rebento.

Acontece que, se não são todas as pessoas que admitem que uma mulher pode buscar sexo exclusivamente para obter prazer, são menos ainda aquelas que admitem que uma mulher que é mãe possa beijar, transar, namorar com alguém simplesmente porque isso é gostoso. Acredito eu que isso deriva de dois estereótipos ainda amplamente aceitos e reproduzidos a respeitos dessas mulheres: 1) Mães são sagradas. E santas não trepam né? Imagina se a minha querida e imaculada mãezinha vai ser alguém que cede às tentações da carne. 2) Mães são abnegadas. Portanto, há que ser muito degenerada pra deixar o bebê fofinho e amado com outro cuidador para namorar.

O fato é que mães são seres humanos. Com corpos que não servem apenas para gestar, parir, amamentar ou acalentar. Corpos que também são fontes de prazer. Portanto, nada mais razoável que este ser humano também alimente fantasias e busque realizá-las, como qualquer outro, não? Aceito esse pressuposto, podemos superar a ideia ultrapassada de que não há nada mais horroroso do que encarar que a própria mãe faz sexo e goza e pode gostar imensamente disso, como qualquer outra pessoa sexualmente ativa e sexualmente interessada? Podemos superar a coisificação da pessoa que é mãe, que nos faz considerar que apenas atividades diretamente relacionadas ao bem-estar dos filhos são de seu interesse e satisfação?

Podemos?

Quando se é mãe solteira, de um filho fruto de uma gravidez não planejada, esses preconceitos se somam a pelo menos mais um: se você não pode transar, porque é mãe e ninguém quer admitir que mães fazem isso (porque você é mãe e deveria se envolver apenas com atividades que tenham o seu filho como principal beneficiado); você também não pode transar porque é alguém reconhecidamente promíscuo e descuidado, que não segurou o fogo até estar em um relacionamento “sério” e não fez o suficiente para evitar uma gravidez.

Não é à toa que a mãe solteira é a besta do apocalipse dos masculinistas. Para esse grupo de homens, que leva a misoginia ao extremo, ser mãe solteira é sinônimo de alguém que tentou dar um golpe da barriga e falhou, e está apenas à espera de um novo trouxa para tentar o golpe novamente. Mas será que apenas os masculinistas pensam assim? Eu mesma já ouvi algumas vezes, de pessoas nem tão íntimas assim, perguntas e conselhos a respeito de diversos métodos de contracepção e brincadeiras a respeito das minhas “verdadeiras intenções” com a gravidez. Eu que sempre fui reconhecida pela minha independência, que sempre coloquei o sucesso profissional como principal meta de vida, que não aspirava a um casamento ou a algo do tipo tão cedo. Imagina, então, as perguntas e conselhos que não são ouvidos pelas mulheres, mães e solteiras que são menos “libertárias”. Ou aquelas envolvidas em um relacionamento extraconjugal. Ou aquelas que engravidam em um caso de longa data.

Não bastasse isso, a gente ainda encara uma questão que não está só na cabeça de quem julga. Está no corpo. No nosso corpo. Flacidez onde antes reinava um rijo seio juvenil. Estrias que não se acabam mais no quadril onde jaziam apenas curvas voluptuosas. E uma barriguinha. Aquela barriguinha meio murcha que sobra do barrigão outrora admirado. O corpo muda e como se a nossa própria adaptação a esse corpo novo que emerge não fosse complicada o suficiente, o corpo muda pra uma coisa que o senso comum julga como nada atraente. Peito caído, barriga proeminente, e rupturas de pele no formato e no tamanho do rio Amazonas não aparecem todo dia nas capas de revista. Pelo contrário: a atriz é justamente elogiada quando já aparece “com tudo em cima” apenas dois meses depois do parto. Na princesa magérrima, criticam a escolha do vestido que ressaltou a barriguinha pós-parto, nada sexy. O nome do bebê sequer foi anunciado, mas todos os canais anunciam aquela dieta infalível que fará a nova mãe voltar a se sentir uma mulher.

Imagem de Nathan Congleton no flickr, alguns direitos reservados

Como se.

Como se existisse uma coisa sem a outra. Como se não fôssemos mulheres-mães assim: uma coisa só metida na outra.

O único conselho que eu posso dar é compreensão. Consigo mesma, é claro. É desejável que sintamos desejo, mas é também perfeitamente aceitável que não tenhamos. É recomendável que nos amemos como somos. Mas é mais do que compreensível que isso seja um processo, pelo qual cada uma passa a seu tempo.

Ressalto: compreender a nós mesmas. Para aqueles que acham que podem apontar o dedo e dizer o que somos ou o que devemos querer, o conselho é velho: o que não falta nesse mundo é lote precisando ser carpido.

18 comentários Adicione o seu

  1. Fabi disse:

    Não podemos esquecer das mães separadas. As pessoas acham que a gente quer encontrar um novo pai pra criança. Ou um novo marido. Alguém pra enfiar dentro de casa, como era antes da separação. Não, não e não.

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  2. Cara, como eu te entendo!!
    Pq essa cobrança que precisamos de um homem ao lado para criar nossos filhos? Não posso sair com alguém apenas por prazer?
    Desde que minha filha nasceu, não sai com mais ninguém, não por achar errado, mas a vida anda uma correria, com tanto trabalho, e esse inverno glacial tira a vontade de sair de casa rs (moro no sul, quase polo sul rs). O verão chegando anima, e tenho vontade sim, de sair com alguém beijar, quem sabe transar. Pq não? O corpo não é mais o mesmo, quem achar ruim, problema seu!!!
    Vamos ser felizes!!!

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  3. Anônimo disse:

    Apenas: <3. Tudo o que eu penso e com o que eu concordo (ainda mais na situação de mãe de 4 ~oe~ separada, mas vivíssima).

    Adorei, beijos mil.

    Bia Francisco

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  4. Anônimo disse:

    Fabi, boa lembrança. Dermelivre e guarde reviver o mesmo modelo do casamento. Do jeito que tá tá bom demais =)

    Bia Francisco

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  5. AMEI! Virei fã e vou te seguir! Me identifiquei demais!

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  6. Amanda Vieira disse:

    Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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  7. Amanda Vieira disse:

    Lindo post, Tâmara! Obrigada! 😀

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  8. Esse foi um dos melhores textos que eu já li em toda a minha vida, pois era tudo que eu queria ter dito!
    O segundo parágrafo e o que cita as estrias, SIM, elas foram escritas praticamente por mim e por todas aquelas que se sentem assim, na mesma situação!

    O pai da minha filha é UM IDIOTA que fala que eu saio dando pra todo mundo e que eu deveria respeitar minha filha, mas se hj não estamos juntos foi porque ele é um verme e agora eu quero ser feliz, transar, beijar na boca.. quem é ele pra me julgar? Um verme que não conseguiu ficar comigo e agora se sente no direito de julgar a minha vida ''temos uma filha juntos''.. que se foda, vc só serviu para gozar e faze-la.. diferente de ser PAI.. ISSO É OUTROS QUINHENTOS !

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  9. É verdade, Fabi. Eu falei da mãe solteira porque essa é a minha realidade né. Mas minha mãe tem vivido bons momentos curtindo sem compromisso depois da separação, viu. Não posso dizer por mim, mas olhando pra ela, me parece um bom caminho…hehehe

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  10. Calorzinho do lado de fora, calorzinho dentro da gente o/

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  11. Ah, menina, deixa esse negócio de fã pra Angelina Jolie :-p Que bom que você gostou!

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  12. Taí em cima, Fernanda 😉 É que eu fiquei longe do blog na hora do almoço, daí demorou um pouquinho pra aprovar.

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  13. Obrigada! É muito triste o pai da sua filha não conseguir dividir a relação que vocês precisam manter por causa da filha, da sua vida particular. Mas é tão comum, né? Vou ficar aqui torcendo pras coisas apaziguarem.

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  14. Anônimo disse:

    “Me vestiu” como uma luva….tão bom ter lido e saber que não estou sozinha nessa aventura “pra lá” de desafiadora que é ser mãe solteira….Amei seu texto, Tâmara! Um beijo e sucesso, sempre! Alessandra

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  15. denise disse:

    muito bom, tâmara! vc pôs em palavras o que a gente sente. e garanto – por experiência – quando vem o desejo forte e uma pessoa linda (principalmente por dentro), vai com bebê no quarto e tudo! e nessa hora, não tem barriguinha mucha, leite que atrapalhe…

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