Pelo Mundo: As pessoas incríveis que estão mudando a forma como mulheres de baixa renda dão à luz

Texto publicado em The Huffington Post, seção Huff Post Parents – traduzido por Cecília Santos



O que Shakima Woolward, 35, mais queria com seu terceiro bebê era um parto natural. Seus dois primeiros filhos nasceram de cesárea por motivos, segundo ela, que nunca foram devidamente explicados pelos médicos. Com seu segundo filho, agora com 7 anos de idade, a decisão de realizar cirurgia foi repentina. Shakima tinha atingido dilatação quase completa quando os médicos interromperam seu parto e ordenaram a operação, mencionando sua cesárea anterior. Ninguém ouviu seus pedidos por um parto vaginal e ela não tinha conhecimento suficiente para começar uma briga, ela conta.

“Eu não queria ficar meses em casa com um corte enorme. Dói demais, até segurar o bebê é doloroso, e se você não tiver ninguém em casa para te ajudar… é simplesmente horrível,” disse ela. “Eu só queria experimentar parir pela via vaginal.”

Mas quando Shakima começou a fazer o acompanhamento pré-natal em um hospital próximo ao seu apartamento em Brownsville (um bairro pobre do Brooklyn com a maior concentração de moradias populares da cidade de Nova York), ela conta que descobriu que parto natural não era uma possibilidade. De acordo com Shakima, o hospital era fortemente anti-VBAC (parto vaginal após cesárea). Como Shakima sofre de hipertensão e sofreu abortos espontâneos antes, ela conta que os médicos recomendaram insistentemente que ela passasse a noite no hospital ao menor aumento de sua pressão arterial, o que a deixou em pânico.

Alpha, uma mãe que teve o apoio de uma doula através do Programa de Apoio
“By My Side” e seu bebê. Foto By My Side Birth Support publicada em
The Huffington Post

“Eles disseram: ‘Não interessa o que você leu a respeito, nós não vamos te deixar parir pela via vaginal,’” conta Shakima. “Desse momento em diante eu fiquei na maior tensão. Estava deprimida. Não queria voltar lá de jeito nenhum.”

A situação de Shakima mudou drasticamente quando uma parteira do hospital lhe falou sobre um programa, patrocinado com recursos federais e municipais, que oferece doulas sem custo a gestantes de baixa renda em bairros do Brooklyn com altas taxas de mortalidade infantil.

As doulas são assistentes treinadas, geralmente mulheres, que oferecem apoio físico e emocional e informação muito necessários a futuras mães durante e após o parto. (Diferentemente das parteiras, elas não são profissionais de atendimento básico à saúde.) Mas o preço de ser atendida por uma doula (que varia de US$250 a US$2.000, dependendo do local e da experiência) coloca esse serviço definitivamente fora do alcance de mulheres pobres como Shakima. De fato, um dos problemas mais aflitivos com o cuidado materno nos Estados Unidos é que mulheres de baixa renda, que apresentam alguns dos piores resultados em termos de saúde reprodutiva desse país, também têm acesso limitado a apoio externo no parto.

Ou seja, quem mais se beneficia do atendimento da doula é que tem menos probabilidade de ter acesso a uma.

Shakima se encontrou com sua doula, Ellen Farhi, mais ou menos umas 10 vezes antes do nascimento de seu filho. O primeiro passo foi avaliar suas necessidades mais prementes. Embora Shakima estivesse batalhando para se graduar em educação de crianças pequenas, ela estava desempregada na ocasião e não tinha berço, carrinho ou cadeirinha para o carro, mas Ellen a ajudou a conseguir todos esses itens. Shakima também queria encontrar um hospital que estivesse aberto a um VBAC caso os médicos considerassem que seria seguro. Ellen pesquisou as opções e conseguiu ajudar Shakima a encontrar outro hospital do Brooklyn que era mais propenso ao procedimento.

Quando Shakima começou a sentir contrações três dias antes do parto, Ellen foi ao seu apartamento levando uma bola de exercícios para ela se sentar, massageou suas costas e passou a noite com ela. “Nunca vou esquecer as massagens, contou Shakima. “Ela fazia alguma coisa quando eu sentia uma contração e massageava as minhas costas… Eu me sentia muito mais leve.”

No hospital, Ellen lembrava a Shakima para se manter calma e focar quando a dor estava tão forte, com oito e depois nove centímetros de dilatação, que ela queria que os médicos simplesmente a “cortassem”. E Ellen segurou a mão de Shakima enquanto os médicos fizeram uma episiotomia, cortando sua vagina para ajudar o bebê (cujo braço estava cobrindo a cabeça) a sair. “Eu fui cortada em cima e embaixo e foi uma dor excruciante, porque eu não recebi nenhum remédio para dor, nenhuma peridural, nada”, contou Shakima. “O fato de ela estar lá me acompanhando, fez tudo ser tão fácil.”

Com exceção dos médicos e enfermeiros, Ellen era a única pessoa com Shakima quando seu filho Adonis chegou ao mundo, começando pelo cotovelo.

Mulheres ajudam outras mulheres a dar à luz há séculos, mas a ascensão da doula profissional (uma palavra do grego antigo que significa “uma mulher que serve”) só começou na década de 1970. DONA International, a mais antiga entidade profissional de doulas, foi fundada no início da década de 1990. No início da década de 2000, estima-se que 3% a 5% das mulheres norte-americanas contrataram uma doula, estimuladas em parte por um número cada vez maior de pesquisas que sugeriam que as doulas ajudam a reduzir o tempo do parto, a moderar o uso de fórceps e peridurais, a diminuir os índices de cesáreas e a melhorar o sentimento geral de satisfação das mulheres em relação ao nascimento de seus filhos. Evidências também mostram que as doulas podem exercer um papel fundamental na saúde pública, ajudando a reduzir a distância entre mulheres ricas e pobres nos resultados de gestações nos Estados Unidos, onde pobreza e raça são fatores de risco para nascimento prematuro, mortalidade materna e infantil e menores índices de amamentação.

Um estudo publicado em fevereiro no American Journal of Public Health foi um dos primeiros a colocar a discussão em termos monetários, mostrando como os programas da Medicaid [N.T.: o programa de saúde pública dos Estados Unidos destinado a pessoas de baixa renda] poderiam potencialmente gerar economia ao pagar o atendimento prévio prestado pela doula. Os pesquisadores estavam limitados ao seu conhecimento dos detalhes dos programas, que variam entre estados, mas desenvolveram vários modelos hipotéticos. Por exemplo, se a Medicaid reembolsasse as doulas ao valor de US$200 pelo apoio contínuo ao parto, praticamente todos os estados economizariam pelo menos US$2 milhões por ano. Isso porque as cesáreas geralmente custam 50% mais que partos vaginais, e as chances de fazer cesárea entre beneficiárias da Medicaid que receberam o atendimento de uma doula eram 41% menores do que entre aquelas que não eram acompanhadas por uma.

“Existem evidências realmente fortes de que o atendimento pela doula oferece benefícios clínicos”, afirmou a autora do estudo, Katy Backes Kozhimannil, professora assistente da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de Minnesota. “Agora estamos realmente tentando levar a discussão para o terreno da política, no contexto da tomada de decisão financeira.”

Mas embora muitos estados norte-americanos estejam analisando essa possibilidade, Oregon e Minnesota são os únicos estados com pacotes de benefícios de atendimento à maternidade da Medicaid que atualmente incluem o acompanhamento da doula. Um problema potencial é o credenciamento: embora a DONA forneça certificação de doula, isso não é uma exigência, e muitas seguradoras podem perfeitamente ter dúvidas sobre a consistência do atendimento, afirmou Kozhimannil.

Na ausência de cobertura mais ampla para doulas, existem centenas de programas no país que reúnem recursos públicos e privados para fornecer atendimento de doula a mulheres de baixa renda a um custo pequeno ou mesmo custo zero. Shakima participou do programa “By My Side Birth Support” (Apoio ao Parto Ao Meu Lado”), que assegura atendimento gratuito de uma doula a mulheres em cinco bairros do Brooklyn, com rendas que as tornam elegíveis a participar de programas nutricionais do governo (renda anual igual ou inferior a US$21.000 em domicílios com uma pessoa ou US$27.000 em domicílios com duas pessoas). Entre 2010 e 2013, a taxa de início de amamentação entre mulheres no programa foi de 94% (14% mais que a média para o estado de Nova York em 2011), de acordo com dados internos do programa “By My Side” compartilhados com The Huffington Post. E o índice de cesáreas entre essas mulheres foi de 31,6%, comparado a 34,2% no estado todo.

De acordo com a DONA, a missão central da doula é ajudar as mulheres a realizar seus planos para o parto, quaisquer que sejam eles. Para programas comunitários, isso pode significar lidar com fatores socioeconômicos e ambientais mais amplos. Regina Conceição, uma doula do “By My Side” que também trabalha com clientes particulares em bairros mais ricos do Brooklyn, disse que suas clientes de baixa renda possuem expectativas similares para seus partos (seja ter uma determinada trilha sonora para o nascimento ou planejar receber uma peridural), mas com frequência elas precisam primeiro lidar com necessidades básicas.

“A tensão de não ter um berço ou um local seguro para dormir, não ter fraldas ou roupas, não saber como vão chegar ao hospital… é com esse tipo de coisa que temos que lidar”, diz Conceição.

Maritza Jimenez, 32, vive no bairro de Bedford-Stuyvesant no Brooklyn e deu à luz sua filha ano passado. Ela conta que o maior benefício de ter uma doula gratuita é que a doula foi capaz de responder perguntas básicas sobre o que esperar quando ela chegasse ao hospital. Maritza também foi grata pelo suporte emocional da doula naquele momento.

“Ela ficou lá, secando meu suor e dizendo: ‘O que você quiser que eu faça… se você quiser que eu segure sua perna ou se quiser que eu chute alguém pra fora da sala’”, brinca Maritza. “Sabe, ela teria feito isso mesmo.”

Regina Conceição (à direita) com uma cliente e seu bebê
recém-nascido. Foto By My Side Birth Support
publicada em The Huffington Post

Embora as doulas possam ser especialmente úteis a mulheres de minorias pobres com acesso limitado a atendimento reprodutivo, não existe muita diversidade econômica e racial entre as próprias doulas. Como comentam os autores do recente estudo da Medicaid, “a maioria das doulas é de mulheres brancas de classe média que atendem mulheres brancas de classe média.” Organizações como a HealthConnect One, um dos programas de doulas comunitárias mais antigos, estão tentando diminuir essa desigualdade insistindo que as doulas empregadas pelo programa morem nos mesmos bairros que suas clientes e sejam membros respeitados da comunidade.

Mas as evidências mostram que o que importa mais para as mulheres no parto é simplesmente ter alguém ao seu lado. Uma ampla revisão da Cochrane Library de 2011 constatou que, quando mulheres contam com apoio contínuo, seja de um(a) parceiro(a), amigo(a), enfermeiro(a) ou doula, os resultados do parto geralmente são melhores. E são melhores quando as parturientes recebem o suporte de alguém que não é funcionário(a) do hospital e que possui treinamento específico para acompanhar partos – que é a descrição do trabalho da doula.

Para Shakima, ter uma doula fez com que ela se sentisse informada, e ela acredita que essa é a única razão para ter conseguido ter um parto vaginal.

“Entrei em trabalho de parto sozinha antes, e foi tão assustador! Não tive nenhum apoio. Não tive ninguém lá comigo para segurar minha mão”, conta Shakima. “Durante anos eu ouvi que nunca conseguiria ter um parto natural. Nunca.”

“Ela me acalmou de verdade e me fez ter a melhor experiência da minha vida”, diz Shakima.

2 comentários Adicione o seu

  1. O SUS precisa de doulas…Tem ate um projeto bonito no MS… Alguns programas sucedidos no RIo SP Salvador BH Recife senao o deserto.. Dependemos da boa vontade dos gestores que mesmo sendo cobrados por sociedade civil nao mexem..Temos uma pletora de mulheres querendo mas precisam ser capacitadas e integradas querendo dizer aceitadas pelas equipes..
    Regine Marton Nurse Midwife (Enfermeira Parteira em Natal RN)

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  2. Bárbara disse:

    Aqui em BH, recentemente foi protocolado um projeto de lei das doulas bem interessante: http://vilamamifera.com/dadada/doula-a-quem-doer-projeto-de-lei-da-doula-em-bh/

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