Meu corpinho, minhas regrinhas

Texto de Renata Corrêa.

 

“Carinho, filha! Ca-Ri-Nho! Ai, não bate nele!”

Enquanto eu ia acariciando Sushi, o nosso gato, esse monólogo se repetiu diversas vezes. Eu tentava ensinar pra Liz a fazer carinho no bichano, mostrando como ele fechava os olhinhos, ronronava e mostrava a barriga. Ela tentava fazer o tal do carinho, mas logo a mãozinha leve resolvia que puxar as orelhas, o rabo ou dar tapas no gato era o mais adequado. E o gato foi extremamente paciente, até o dia que resolveu que aquele bebê deveria aprender uma lição. Em duas arranhadas e uma mostrada de dentes, Liz aprendeu que não era legal machucar o seu irmão de quatro patas.

As demonstrações de afeto de um bebê não seguem um script pré definido que os adultos gostariam – dar abraços, beijinhos, dizer que ama – tudo isso é, ou ao menos deveria ser, manifestação espontânea da criança, mas não é isso que vemos por aí. Logo que o bebê aprende a seguir instruções simples nas brincadeiras lá pelos oito ou nove meses, os adultos acreditam que eles devem aprender a demonstrar esse afeto como se isso fosse prova de educação ou boas maneiras. E dá-lhe pedidos para que o bebê use seu corpo para agradar o adulto ou tenha seu corpo invadido com contato não solicitado.

Muitos bebês e crianças rejeitam veementemente esse comportamento. Viram a cara, limpam a bochecha após receberem beijos-babados ou deixam os braços pendentes sem se manifestar ao ganhar um abraço forçado. A pergunta que fica é: se acreditamos que não devemos tocar um outro ser humano sem que este expresse claramente essa vontade, se isso é regra básica da convivência em sociedade, por que muitos adultos ainda acreditam que bebês e crianças não devem ter a autonomia de seus corpos respeitada e que toques e afagos não solicitados podem ser uma coisa boa?

Foto de Cecília Santos, arquivo pessoal.
Todos os direitos reservados.

Alguns teóricos acreditam que essa forçação de barra é uma porta aberta para o abuso sexual – ao ensinarmos nossos filhos que os sentimentos e vontades são menos importantes que as vontades de um adulto a respeito do seu corpinho, deixamos uma highway sem lombadas ou limite de velocidade para que um possível abusador faça da criança uma vítima. Afinal, ela foi ensinada que o educado, polido e correto para que gostassem dela seria se calar e deixar que manipulassem o seu corpo da maneira que quisessem, a despeito do sentimento de auto preservação, nojo, ou medo. É um argumento forte. E também um argumento coerente. Pessoas que tiveram sua auto-estima destroçada são presas muito mais fáceis para qualquer tipo de abuso e falta de respeito. E não existe maneira mais fácil de destruir a auto-estima de alguém do que revogando a posse do seu próprio corpo. Esse corpo que não te pertence, pertence a alguém – aos mais velhos, aos mais fortes, àqueles que são capazes de silenciar através da violência.

Por aqui fomos agraciados com a presença de uma menininha com uma grande personalidade. E essa menininha nos ensina dia a dia como gosta de ser tratada e acolhida. Nós, mãe, pai, babá e avós acreditamos que essa voz merece ser ouvida. Que a nossa relação com ela deve ser baseada no respeito mútuo. Então manifestações de carinho a afeto são aquelas que nascem espontaneamente de dentro do seu grande coração de bebê. Chamegos e afagos não faltam, mas apenas aqueles que nós desejamos que aconteçam, em qualquer hora, em qualquer lugar. Não é porque a visita está se despedindo que merece um beijinho, não é porque o tio quer um carinho na hora que chega. Lutamos dia a dia para ensinar a Liz que o nosso amor por ela não está vinculado à noção de obediência, ou de cumprir tarefas que foram ordenadas. A amamos exatamente por ela agir como age, por ela ser quem ela é.

Não é uma tarefa fácil – de alguma maneira fomos ensinados desde pequenos que quando nos tornamos pessoas grandes temos algum tipo de poder que deve ser exercido sem controle sobre o corpo e sobre a individualidade de nossos filhos. Alguns de nós apanharam, alguns de nós foram abusados por amigos e parentes que viviam no entorno familiar. Alguns de nós ainda somos essa criança assustada que acredita que a sua autonomia não deve ser respeitada. Que foi chantageada ou violada para agir como adultos achavam adequado. Ou até mesmo sofreu formas mais sutis de violência.

Acolher os seres humanos que são crianças hoje é um passo importante para construção de pessoas mais seguras e com mais autonomia. Mas acolher essa criança que fomos, e que também teve seus direitos desrespeitados também é muito importante: para que histórias de terror não se repitam. Para que não sejamos nós mesmos os agentes dessa violência. E para que o mundo possa contar com mais e mais gente que acredite que suas vozes devem ser ouvidas, suas peculiaridades acolhidas e suas identidades respeitadas.

Quanto ao pobre Sushi, ele e Liz já voltaram às boas. Ambos sabem que uma relação de respeito mútua se constrói no dia-a-dia, e que a despeito de alguns arranhões iniciais, o amor é muito, muito, melhor.

14 comentários Adicione o seu

  1. Frida disse:

    Super concordo. Ser mãe já me fez refletir sobre o “assédio” corporal aos nenens ainda grávida. Muitos me questionavam porque eu não estava ansiosa para ver o rosto ou pegá-la no colo. Tentava explicar que senti-la crescendo bem e com saúde tornava desnecessário o contato externo. Isso a longo prazo foi ganhando outras proporções como as que narrou tão bem… Cuidar de nossa criança interior é fundamental, mesmo para aqueles que ainda não são ou não querem ser pais. Adorei o texto, parabéns! Bjss

    Curtir

  2. Aninhahh.' disse:

    Maravilhoso texto…
    e é incrível como nós já estamos tão condicionados a esses ensinamentos de carinho que fazemos no automático, seja a criança nosso filho ou não…

    Beijos !
    http://www.odocediariodasanas.wordpress.com

    Curtir

  3. Fernanda disse:

    Ponto de vista sensacional. Fui dessas crianças que fugiam de quase todo tipo de contato físico. Os beijos das visitas eram limpos com as mãos na frente delas e torcia a cara pra abraçar as pessoas, pra vergonha mortal da minha mãe…ahahahahaha

    Curtir

  4. Ila Fox disse:

    Frida, me lembrei das amigas grávidas, que ainda nem ostentavam uma barriguinha e o povo já se achava no direito de por a mão. :-/

    Curtir

  5. Ana Fonseca disse:

    texto genial e muito necessário.
    às vezes me pego pedindo “dá um beijinho na mamãe, Mallu”. não tenho que pedir, quando ela senti vontade, vai dar. como é difícil policiar e mudar o que nos soa tão natural…
    vou compartilhar! beijo.

    Curtir

  6. Anônimo disse:

    Me parece que a simples resposta pra isso é abrir os braços e deixar que a criança queira (ou não) nos abraçar… Entretanto o que observo nos adultos de hoje é uma dificuldade para abraçar… talvez fruto da falta de abraços na infância! Toda moeda tem dois lados…

    Curtir

  7. souminha disse:

    A menina linda que ilustra o post é a Maria Eduarda, minha afilhada, no dia do “Um bilhão que se ergue”.

    Linda!

    Curtir

  8. Lucia Freitas disse:

    Re Correa sua maravilhosa!!!

    Obrigada pelo texto, por iluminar meu começo de dia, por colocar a Liz na roda da vida…

    amor e luz, sua linda!!!
    beijo gigante

    Curtir

  9. Ok, super importante respeitar o espaço de cada um, principalmente das crianças, que são tão sensíveis, mas que isso não vire justificativa pra criança mal educada que não cumprimenta. Não precisa de beijo e abraço, mas “oi” e “tchau” acho indispensável!

    Curtir

  10. Fabi disse:

    Gostei. Minha filha tem, digamos, uma “personalidade forte” quando o assunto é seu corpinho. Beijos, despedidas, afff, a gente fica aflita, mas não forço. Teve uma época que forcei, hj desencanei. Muitas vezes converso com ela, mas não no sentido de obediência. Se eu quero mandar no meu corpo, preciso deixá-la que mande no dela também. Muita gente acha que é falta de educação mas já passou pela minha cabeça a questão da violência. E não gosto qdo uma criança vem me beijar à força naquela coisa “dá um beijinho na titia” ou “dá um sorriso pra titia”… sei lá… acho que desse jeito, respeitando-se é bem melhor. Parabéns. bjs Fabi

    Curtir

  11. Sensacional esse artigo!Tenho um filho de quase 3 anos e ele tem uma personalidade imbatível!Ele vive se expressando com beijos, abraços e elogios!Mas tudo no seu tempo e com sua vontade!E se eu pedir pra ele, o mesmo diz NÃO!

    Curtir

  12. Acho que devemos desconstruir o conceito de criança mal educada. Se ela é “mal educada” alguém “mal educou” ou deixou de educar, quando na verdade relações sociais de afeto são CONQUISTADAS, não impostas. Se a criança não tem relação alguma com aquele adulto, se o adulto sequer olhou na cara da criança durante toda visita, pq a criança deveria ser obrigada a dar oi e tchau? Quando a criança alcança a maturidade paracontsruir certas relações sociais o oi e o tchau não seriam naturais? Acho curioso que ao adulto não seja dada nenhuma obrigação de polidez com a criança e a criança seja obrigada a ser polida com um adulto…

    Curtir

  13. Mas o que é uma criança mal educada? Quem foi que deseducou ou mal educou essa criança? A maioria dos adultos ignora a presença da criança, e a criança que é mal educada em não dar oi e tchau para quem ela não tem nenhuma relação? Acho que com a maturidade e a construção de relações mais sólidas sociais e de afeto o oi e o tchau virão naturalmente. Agora, sem relação? Acho forçação de barra de uma maturidade que a criança não tem. Acho que quando os adultos se abaixarem, olharem no olho da criança e disserem oi e tchau vai ser mais fácil da criança entender isso como uma atitude empática sem forçação de barra.

    Curtir

  14. Excelente! Ainda não conhecia essa relação entre forçar contatos físicos com ficar mais vulnerável ao abuso sexual, muito pertinente.

    Só tenho meninas, mas tenho o palpite de que isso aconteça mais com elas… Não costumo ver meninos sendo forçados a abraçar e beijar os amigos do papai: tem coisa mais sem noção??

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s