Encarando com leveza a Síndrome do Ninho Vazio

Texto de Suely Oliveira 

O termo ninho vazio tem sido usado para caracterizar o momento em que o último filho deixa a casa. Antigamente, os textos que descreviam a chamada Síndrome do Ninho Vazio (SNV), geralmente enfatizavam o sofrimento das mulheres, causado pela perda do lugar de “cuidadora”, papel tradicional – e arcaico – atribuído às mulheres.

Eu prefiro entender a SNV como um desconforto emocional do pai e/ou da mãe ao verem seus filhos e filhas deixando a casa, como mostram as autoras mais modernas que estudam o tema. Um sentimento que acomete homens e mulheres – pais e mães, ao se depararem com a nova realidade. Os/as filhos/as crescem e vão cuidar da vida, constituir família ou simplesmente são levados pelo desejo de sair de casa, de manter uma independência financeira, de construir a própria trajetória profissional.

Imagino que cada pessoa vivencia esse período de uma forma particular, que tem a ver com o momento e a fase de vida que cada uma está vivendo. Em muitos casos, por exemplo, o momento em que os filhos estão saindo de casa, coincide com a aposentadoria e com o climatério. Duas fases de muita mudança na vida de uma criatura seja por fatores hormonais ou por questões culturais. Muita gente fala em solidão, em depressão, tristeza. Mas também tenho visto muitas pessoas falando que com a saída dos filhos de casa, passaram a fazer um monte de coisas que não tinham oportunidade de fazer antes, como viajar, estudar, passear, aprender um idioma, fazer seus próprios horários, enfim, não dá pra generalizar.

 

Quadrinho da personagem Mafalda, por Quino

 

E eu nessa história? Bem, eu tenho dois filhos. Henrique com quase 28 anos e Júlio, com 23. Não é uma tarefa fácil, educar filhos ou filhas. É uma luta permanente e diária. A sociedade é machista, racista, homofóbica, heteronormativa. Apesar disso, sou muito feliz com o resultado. Eles são duas pessoas incríveis, amorosas, gentis, íntegras, de bom caráter. Sou bem feliz com a maternidade. Aliás, eu tive os filhos que quis ter. Mas isso é outra história, voltemos para a Síndrome do Ninho Vazio.

A minha casa sempre foi um lugar que os amigos, as amigas e depois, as namoradas gostavam de frequentar. Quando eles eram crianças, os amigos vinham passar o fim de semana e a programação era intensa: praia, cinema, teatrinho ou mesmo sessão de vídeo acompanhado de pipoca e refrigerantes. Depois que cresceram a casa continuou um lugar de muitos encontros, além, de liberdade total para trazer as namoradas que sempre foram bem-vindas em nossa casa. Eu amava aquela movimentação. Quando eu me separei do pai dos meus filhos, fiquei com medo que eles decidissem morar com o pai e colocamos essa possibilidade para eles. O protagonismo juvenil não podia ser apenas um discurso, mas uma prática encarada com toda seriedade. Mas eles decidiram continuar morando com a mãe, o que foi motivo de alívio e muita alegria para mim.

Entre 2003 e 2004 eu saí de casa para viver em Brasília. Foi uma decisão bem difícil, mas eles foram as pessoas que mais me incentivaram, pois eu tinha recebido um convite para trabalhar no governo federal, justamente quando Lula foi eleito Presidente da República.

Como muitas mulheres, eu contava com uma trabalhadora doméstica que me deu todo suporte – e a eles – nos quatro anos em que estive morando fora, além do que a minha mãe ainda estava viva e também dava uma força.

Raramente deixei de vir em casa a cada mês, mas precisei tomar algumas decisões para facilitar a vida deles e a minha. Uma delas foi a emancipação de Henrique, que como filho mais velho acabava tendo que assumir algumas tarefas da administração do lar. Foram anos de muita aprendizagem, pra eles e pra mim, com muita coisa boa e outras, nem tanto.

Uma das razões que me levou a voltar pra Recife em 2007 era a preocupação com a saída deles de casa. Eu comentava com as amigas que estava vendo a hora eu chegar e eles estarem de saída, seja da casa ou da cidade. Dito e feito. Em 2009, Henrique e Giovanna se casaram, a minha neta Alice nasceu e eles se mudaram, foram morar perto da minha casa. Mas um ano depois foram morar em Brasília.

Comecei a pensar sobre a Síndrome do Ninho Vazio com a saída de Henrique, que levou junto a minha neta e a minha nora, uma vez que quando Alice nasceu a família morou alguns meses em minha casa. Ficamos, então, eu e Júlio e fomos nos adaptando à nova casa, à nova realidade.

Agora estou me preparando para outra grande mudança. A partir de janeiro de 2014, Júlio vai morar em São Paulo. O mais curioso é que essa nova fase coincide com outras mudanças na minha vida. Voltei a estudar, estou fazendo mestrado, estou com um grupo de estudos em psicanálise porque quero em breve abrir o meu consultório. Além disso, estou me organizando para no ano que vem ficar três meses em Salvador, fazendo mobilidade discente – um estágio de curta duração em um centro de pesquisa para realizar parte do trabalho de dissertação.

Eu sei que vou sentir muita falta do meu filhote, que é um amigo, parceiro e muito querido, mas provavelmente nesse contexto de tanta demanda e novidades a Síndrome do Ninho Vazio vai ser vivenciada de um jeito muito particular, vocês não acham?

Suely Oliveira é uma feminista blogueira, que se diverte nas redes sociais.

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