Nós e Miriam Carey: a dor da gente não sai no jornal

Texto de Ludmilla Pizarro 

“A dor da gente não sai no jornal.”

 Quando li essa notícia a primeira coisa que me veio à cabeça foi o verso do Chico, acima. Miriam Carey foi mãe, como eu e muitas outras, mas a barra dela pesou demais. E a verdade é que a gente sabe como são as coisas quando a barra pesa. Quando uma porta se fecha, quando não se tem grana nenhuma, muito menos ajuda, quando a cobrança é enorme, quando se tem mais uma boca, que não a nossa, para alimentar. Desafio qualquer pessoa que tenha ou cuide de uma criança que nunca tenha perdido uma noite de sono pensando “e se…”

 

Divulgação

Pois é, muitos “e se” acabaram acontecendo na vida da Miriam Carey. Ela engravidou por acidente, perdeu o emprego (porque nos Estados Unidos mulheres grávidas não têm estabilidade), teve a filha sozinha. Parece um caminho incomum, mas não é. Da situação-limite para a dor, da dor para a doença, da doença para a tragédia. Tudo começa com noites perdidas em função do cansaço e da preocupação, a depressão (pós-parto) se instala, medos antigos e novos se fortalecem mutuamente, os remédios são caros, fortes e muitas vezes incapacitantes. Para um quadro de paranoia ou esquizofrenia é um pulinho, como foi, aparentemente, o caso. Miriam acreditava que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, se comunicava com ela. Um delírio típico de um quadro psiquiátrico agravado. Mas talvez com algum sentido. Sendo Miriam uma jovem, 34 anos, mulher negra, pode ser que a imagem de Obama lhe desse esperança. Pode ser que dentro de suas alucinações ela pensasse que o presidente negro, que também tem filhos, pudesse compreendê-la e ajudá-la. Mas a verdade é que o Estado norte-americano não dá a menor atenção à mulher que é mãe.

No Brasil a situação não é muito melhor. Quantas Mirians não existem por aqui? Quantas mães negras resistiram a todas as dificuldades e acabaram perdendo seus filhos para a truculência e arbitrariedade das polícias militares? A mesma truculência que fuzilou a Míriam norte-americana com 17 tiros e que não assassinou sua filha de um ano por milagre.

Cada mulher, seja negra, seja mãe, seja trabalhadora, seja paciente psiquiátrica ou consumidora de antidepressivos, tem uma pouco de Miriam Carey em si. Conhece e pressente o risco eminente, de um azar, de uma situação em que o controle se perca, da falta de amparo do Estado. E não digo isso sozinha.

“Vai ter muita gente dizendo que ela estava deprimida por causa da falta de emprego ou outros fatores que nao a maternidade e a gravidez. Mesmo assim acho que a gente, que é mãe, percebe o quão complicado pode ser isso. Ainda mais num país como os EUA, que nem licença maternidade tem, em que tudo é responsabilidade do indivíduo (plano de saúde, licença). Fora que, né, 17 tiros!?! 17 tiros pra matar uma pessoa que estava dirigindo desgovernada. Por que não atiraram no pneu do carro da vítima?- Sou solidária a essa mulher porque sei que ela não é a única mãe que comete atos de desespero. A cobrança social em cima das mães não vê situação econômica, não vê situação social, não considera que mães são mulheres, são gente, não são deusas infalíveis que aguentam qualquer tipo de adversidade. Mães são gente e precisam de apoio da família, do Estado, da sociedade, principalmente em situação de crise econômica, mas não só nesses casos.” Amanda Vieira
“Quando eu soube que estava grávida, me senti desamparada. Mesmo com todo o apoio do meu companheiro. Mesmo tendo um emprego garantido. Porque a maternidade nos trás muitas responsabilidades que às vezes a gente não sabe se vai conseguir dar conta. Depois de alguns anos, no meio de um processo depressivo, o que me passava pela cabeça sempre era que eu não estava conseguindo dar conta das minhas obrigações maternas, que qualquer pessoa iria desempenhar o papel de mãe melhor do que eu. Era como se o mundo não precisasse de mim. E se eu não conseguia ser uma boa mãe, nada mais eu iria conseguir fazer direito. Então quando li essa notícia, senti uma empatia imediata, me coloquei no lugar dessa mulher, senti o desespero de se ver grávida e depressiva numa sociedade que não ampara mães. Não consegui conter as lágrimas.” Fabiana Nascimento
“Você joga no Google “Miriam Carey” e a primeira resposta que recebe é “você quer dizer Mariah Carey?”.  Quem raios era Miriam Carey? O silêncio sobre ela, a despeito da forma como morreu, assassinada por uma quantidade absurda de tiros, mostra como são invisíveis as pessoas como ela. Era só mais uma mãe, só mais uma negra, só mais uma mulher, só mais uma pessoa precisando de ajuda. Só mais uma “ameaça” a ser neutralizada. Ela é só mais uma, vai cair no esquecimento conforme a notícia também cair. Cairão todas as Miriam Carey. Até quando?” Deh Capela.

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