Vamos passear no parque! Mas… cadê o parque?

Texto de Lays Moreira 

Quem me compra um jardim com flores?
Borboletas de muitas cores,
lavadeiras e passarinhos,
ovos verdes e azuis nos ninhos?

Quem me compra este caracol?
Quem me compra um raio de sol?
Um lagarto entre o muro e a hera,
uma estátua da Primavera?

Quem me compra este formigueiro?
E este sapo, que é jardineiro?
E a cigarra e a sua canção?
E o grilinho dentro do chão?

(Este é o meu leilão.)
Leilão de Jardim – Cecília Meireles

 

É fácil perceber a aproximação do Dia das Crianças. É só ligar a televisão, não importando se é aberta ou por assinatura, e somos bombardeados pelas propagandas direcionadas às crianças no seu dia. Verdadeira metralhadora giratória de consumismo (machismo e sexismo também, mas esse é assunto pra outro post) atingindo em cheio as crianças, vendendo a ilusão de que comprar é felicidade.

Por outro lado, vê-se uma reação crescente a esse movimento comercial. São pessoas que se unem no sentido de combater o consumismo infantil, tanto na coibição do estímulo ao consumo desenfreado – verdadeira batalha de Davi contra Golias, só que com Golias levando a melhor, por enquanto – como na proposição de atividades alternativas para que as crianças não tenham no consumo o foco principal do Dia das Crianças. E um dos refrões que mais tenho visto/ouvido neste caso é o “troquem o presente pelo parque”, normalmente voltado aos pais/cuidadores.

À primeira vista, a ideia é boa. Parques são legais, são espaços verdes, com possibilidade de movimentar o corpo, fazer novos amigos, tomar sol, ouvir o canto dos passarinhos, botar o pé na grama, correr… parques são realmente muito legais. Pena que existam tão poucos. Pena que os que existam sejam, na sua maioria, distantes dos bairros populares. Pena que o transporte público, ruim durante a semana, seja péssimo no final dela, dificultando o passeio das famílias. Pena que.

Na nossa sociedade urbana/capitalista/industrial, os espaços abertos de vivência estão cada vez mais raros. Na construção dos bairros, muitas vezes desordenados, não se pensa nos espaços onde as crianças possam brincar, não há lugar para a praça ou o parquinho, o importante é aproveitar o espaço para as construções, que isso é assunto de gente grande. Até pelo ponto de vista do poder público, que autoriza empreendimentos de olho no dinheiro vindo dos impostos, tirando ouro dos tijolos à la Super Mario (agradecimentos a Deh Capella). Muito provavelmente o shopping que a Turma da Mônica Jovem frequenta foi construído no campinho onde a Turma da Mônica vivia suas aventuras (e imagino: o Cebolinha usa um perfil fake no Face pra chamar a Mônica de baixinha, dentuça e gorducha, o Cascão joga bola na escolinha de futebol, se o pai dele tiver dinheiro, Magali e Mônica se falam via Hang Out ou chat). As construções tomam cada vez mais os espaços livres que ainda existem, saem as bolas e as pipas, entram os corredores e as lojas, as casas, os prédios de apartamentos.

Foto de Lays Moreira. Arquivo pessoal Todos os direitos reservados.
 Foto: Lays Moreira, arquivo pessoal. (Tirada no Parque das Águas, em Campinas. Distante 20Km da residência da autora, inviável para quem não tem carro. Um lugar gostoso de verdade. Pena que.)

Os poucos espaços que existem são, muitas vezes inseguros e mal conservados. Praças com mato alto, brinquedos em mau estado de conservação, falta de segurança, tudo isso afasta os cuidadores e as crianças desses espaços. Entre a liberdade insegura, opta-se por manter a criança em prisão domiciliar, onde as opções muitas vezes estão relacionadas ao consumo, pois consome-se na tentativa de compensar a falta de liberdade. No documentário “Muito Além do Peso” mostra-se o caso emblemático de um menino cuja mãe não tem coragem de deixa-lo brincar no campinho próximo de casa, por temer pela sua segurança. E não tem tempo de acompanhá-lo, pois trabalha todo o dia.

Quantas mães e cuidadores não passam pelo mesmo dilema? Falar em trocar o presente pelo parque, em um contexto onde as opções de lazer estão cada vez mais restritas ao shopping, associando o lazer ao consumo, chega a ser uma piada de mau gosto, mais uma culpabilização para quem cuida. E se levarmos em conta a responsabilização da mãe por todos os aspectos da vida de seus filhos, independente do poder real que ela tenha sobre o contexto, vemos que a briga pelos espaços de convívio seguros e acessíveis é uma luta feminista. É uma luta pelas crianças, sim, mas também pelas suas mães, que carregam muitas vezes sozinhas o peso de escolhas que não existem. Porque não dá para se falar em escolher o parque quando não há parque. Não dá para acusar de se ter optado pelo consumo quando tudo que existe é o shopping. A luta é desleal, e é injusto acusar as mães, os pais, os cuidadores de optarem pelo consumo oura e simplesmente.

De forma alguma eu defendo o consumismo, e acredito ferrenhamente no seu combate. Mas acredito que o foco não deve estar no apelo para que os pais busquem alternativas individuais, mas na cobrança por soluções coletivas: ampliação e disseminação de espaços de vivência, flexibilização de jornada de trabalho tanto do pai quanto da mãe, criação de espaços recreativos públicos, como praças de esporte e centros de arte.

A partir dessas mudanças, (utópicas, eu sei) aí sim, pode-se falar em escolhas individuais. Porque, ao contrário do contexto atual, passa a haver a possibilidade de escolha real. Enquanto isso não acontece, a única opção de lazer possível para muitas famílias são os corredores do shopping, ou a tela da televisão. E bem vindos ao mundo do consumo. Porque os jardins estão cada vez mais raros. E caros.

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