Porque eu tenho medo de que o meu feto seja menina

Recebemos esse texto de uma leitora, que prefere ficar anônima, com uma inquietação que muitas de nós passamos ao nos descobrirmos grávidas. Quantas de nós não achavam que jamais dariam conta de criar uma menina de modo livre e seguro, sem encher a cabecinha dela com os medos e autocensuras que cultivamos ao longo dos anos por sermos mulher? Medo de lidar com a sexualidade dela sem criar traumas, de deixá-la explorar o mundo, sem entrar na paranoia das milhares de agressões que ela pode sofrer apenas por ser mulher. O feminismo nos tem mostrado um caminho de união e luta, mas o mundo ainda não é um lugar tranquilo ou seguro. Segue o texto:

Pois é,  outro dia descobri que estou grávida. Foi festa para todos, da minha família à dele, o meu filho, os amigos. Só eu que entrei em pânico. E se dessa vez eu não der sorte de ter menino? As primeiras semanas foram desesperadoras, porque sim, eu lá dentro sinto que eu fui muito sortuda de ter tido na minha primeira gravidez, um menino.

No último ano me enxerguei feminista, mesmo não tendo lido todos os livros, mesmo ainda cometendo gafes, sei que sou uma feminista. E mesmo assim morro de medo de estar gerando um feto mulher.

Filho, a meu ver, quando a gente se permite ver, vira um reflexo nosso. Das melhores e piores coisas que somos, vivemos, tememos e sonhamos. Meu filho mais velho, todas as vezes que eu permiti, me escancarou verdades que eu custava ver.  Foram todos aprendizados profundos e em parte doloridos.

E o que essa possível criança mulher pode refletir, simplesmente me apavora.  Eu sofri abusos; as piores foram situações pontuais (aos 7, aos 11, aos 16 e aos 18 anos) que racionalmente e depois de muita terapia, resolvi alguns pontos. Outros, para seguir com a vida, guardei em algum lugar e faço um esforço grande para esquecer quando as lembranças vem à tona numa situação qualquer.

gravida
Foto de Marcello Casal Jr. para a Agência Brasil. Alguns direitos reservados.

Não sei como lidar nem com a possibilidade de ter uma filha. Será que eu vou entrar numa neura de super proteção? Ou será que o medo de ser impossível ter certeza de que nada irá acontecer à ela vai me paralisar e me afastar? Afinal, será que eu estou preparada para ver esse reflexo diariamente e lidar com ele, será que eu vou conseguir colocar o que aconteceu comigo lá no passado e desapegar desse medo?

Os números não animam, a violência contra a mulher, as noticias, o dia a dia na rua, nada me anima. Meu medo maior do que não conseguir protege-la, é de não conseguir ensiná-la a se proteger, se amar, se defender.

Por enquanto sigo na dúvida, não quero saber tão cedo, talvez só no nascimento.  Até lá, vou me preparando para receber essa pessoinha que virá tão amada, quanto temida.

—-
O FemMaterna quer começar a resposta às inquietações dessa mãe e de todas as outras que veem as barreiras e gaiolas que o machismo impõe a todas as crianças com a nossa Carta de intenções de uma mãe feminista.

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