A mãe, o trabalho e o shortinho

Texto de Renata Corrêa

A mãe. Sabe a mãe? Aquela. Aquela mãe que imaginamos. A do avental todo sujo de ovo. A da novela. Do filme. Da fila do pão. A mãe, sabe? Essa mãe arquetípica que estamos acostumados a citar. Pois bem, essa mãe imaginária é uma figura estanque. Ela age da mesma maneira que o senso comum acha que ela deveria agir – e essa mãe tem um lugar, um lugar ideal que permeia nossa cultura e que pauta o que uma mãe pode ou não pode fazer e como uma mãe deve agir para ser uma boa mãe, uma boa mulher.

Pois essa “mãe” oprime todas as outras mães que conhecemos. Essa identidade da mãe una não é benéfica nem para as mães que a desejam e se encaixam nela (pois ela é feita para que a mulher falhe no seu propósito) e nem para as identidades femininas não hegemônicas que desejam uma experiência de maternidade.

As mães outras, que não estão no imaginário, que vivem a vida real com os seus filhos e os dilemas do cotidiano vão ser sempre pautadas pela ideia social do que uma mãe deveria fazer.

Essa semana duas celebridades internacionais foram notícia – a top model Gisele Bündchen que postou em seu instagram uma foto sua amamentando a filha Vivian Lake enquanto era maquiada e penteada por um staff e a cantora Beyoncé, que lançou um disco surpresa onde uma das faixas conta com a participação da filha Blue Ivy.

Apesar de serem mulheres ricas, famosas e independentes elas não escaparam do escrutínio da mãe ideal.

Gisele Bündchen foi acusada de não cuidar da filha, de “fazer a unha e deixar o cheiro de acetona na cara do bebê”, e de que ser mãe assim é mole, quero ver ser uma boa mãe tendo que cozinhar uma panela de feijão e ficar com a barriga no tanque. Esses argumentos nada mais são do que a velha crença de que para você ser mãe você deve deixar de ser quem você é, que depois de se tornar mãe a mulher desaparece e o indivíduo se dilui eternamente em paninhos de boca e lencinhos umedecidos. A foto da Gisele Bündchen me deixou encantada, confesso. Para mim é a gênese de como a identidade de mãe se agrega as outras identidades, não as excluindo ou sufocando.

 

Reprodução Instagram @giseleofficial

Com a Beyoncé foi um pouco pior. O crítico Thales de Menezes escreveu uma crítica na Folha onde dá a entender que a cantora não poderia ter feito um bom trabalho por ser mãe, chamando a maternidade de “período conturbado” e que para cumprir sua turnê a cantora teria que “arrastar bebê e babás”. Depois ele coloca em cheque a qualidade do álbum e que ela esconderia isso “mostrando as coxas em shortinhos”. Fiquei em dúvida se era crítica musical ou slut shaming gratuito. Afinal as mulheres que se tornam mães não podem fazer um bom trabalho, serem criativas ou sexies – as mães devem se recolher e desonerar a sociedade da participação na criação dos seus filhos e em silêncio aceitar o “peso” e a “dádiva”.

 

Cena no clipe “Blue”. Reprodução.

Lembro que durante as madrugadas em que amamentava a Liz eu tive a ideia para um livro e eu não tinha o menor tempo ou pique para sentar e escrever durante o dia, mas eu queria muito materializar aquele desejo. E durante essas madrugadas instalei um aplicativo e escrevi “Vacas e Outras Moças de Família” no tecladinho do telefone e nunca me senti tão mãe, nem tão escritora, nem tão mulher. Eu estava ali entregue à minha maternidade, Eu, Renata, compartilhando com a minha filha aquele momento único de entrega e de criação. Sem ser mãe eu jamais teria escrito aquele livro. E escrevendo aquele livro fiquei mais próxima da minha filha e da mãe que eu gostaria de ser para ela.

Mães estão por aí fazendo coisas depois que seus filhos nascem: taxistas-mães dirigem depois de terem filhos (e isso não é um fator de mais de acidentes), cirurgiãs-mães operam (e isso não é um fator a mais de erros médicos), jornalistas-mães escrevem (e isso não faz do jornalismo mais cretino do que já é), manicures-mães continuam fazendo as unhas (e não tiram mais bifes por conta disso) – usando shortinhos, cinta liga, óculos ou capacete essas mães dão de dez a zero na imagem mítica da mãe ovelha, sacrificada, a mãe silenciada pela sociedade machista, a mulher a quem o mundo é negado em detrimento da maternidade utópica-sacrificante e que ainda deve agradecer por essa experiência.

São as mães que ocupando as rua em turnês internacionais, salas de cinema, pracinhas, aviões, pontos turísticos, manifestações políticas, ônibus, sessões de fotos, restaurantes, filas de banco que vão deixar o mundo mais aberto e acessível para quem curte “arrastar o bebê” por aí. Mesmo que para isso precisem rebater uma ou outra crítica machista sobre o lugar que uma boa mulher deve exercer na sociedade.

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