A Barbie, gafes e questões feministas

 Texto de Bárbara Diniz

Há alguns dias semana cometi uma gafe e magoei uma pessoa muito querida. No final das contas, eu fiquei muito magoada com o resultado final (eu não queria magoar ninguém), mas também muito tranqüila com minha tomada de decisões.

Eu estudo cultura de paz e ações políticas de não-violência, em que eu insiro meu tema central, mediação de conflitos. No meu objeto de estudo, em escolas públicas. E nesse ponto preciso, mais uma vez, esclarecer que o conceito com o qual trabalho não é aquela “paz pacífica”, com todos vivendo em harmonia, meditando e trazendo “luz ao mundo”.

A minha paz (e a de quem lida com questões de direitos humanos) envolve organização social, movimento, ações políticas efetivas e busca por justiça social (em seu mais amplo aspecto). É sim, uma paz de luta. Mas, além disso, ela também envolve a “paz cotidiana”, a “micro-paz”, as pequenas ações do dia a dia que contrariam o status quo. Isso significa que talvez a minha principal militância seja como organizar minha vida para tentar chegar um pouco perto dessa utopia. Coisas como quem lava a roupa ou a louça em casa, quem limpa o banheiro, quem acorda de madrugada para atender a filha e como vamos educar essa filha envolvem essa militância. E as questões de gênero, nessa educação, são primordiais em todo esse processo.

Mariel Clayton, fotógrafa canadense, cria cenários realistas com Barbies em cenas que fogem do glamour típico do imaginário da boneca. Imagem: divulgação.

Não é possível pensar numa cultura de paz quando metade da população trabalha o triplo para receber metade e gastar o dobro do que a outra metade e ainda é culpada por tudo de errado. Sim, eu estou falando das mulheres, que trabalham fora e ainda tem de cuidar de casa, marido e filhos, gastar sempre mais porque possuem os “gastos com beleza” (e por acaso homem “precisa” usar meia calça, maquiagens, tinturas de cabelos e manicure?!) e qualquer coisa de errado com os filhos tem de ouvir: “Cadê a mãe desse menino?” ou em caso de estupro aguentar “mas ela provocou”. Ah, sim, e no caso do divórcio elas ficam com os filhos e todos os gastos que isso representa e eles com o desconto no imposto de renda por pagar a pensão…

Dessa forma é que desde que minha filha nasceu eu tenho vivido na corda bamba entre as questões feministas que me são caras, mas não são o padrão social, e o que a sociedade espera da educação de uma menina, que mantém a função da mulher como inferior ao homem. E nessa questão o brincar, o brinquedo, são um item muito importante, afinal, para uma criança, são as brincadeiras que colocarão os papeis a serem desempenhados no futuro, são elas que construirão o imaginário social, é por meio da brincadeira que ela digere o mundo à volta, lida com ele e o dá sentido, para então nele se inserir. É claro que a brincadeira não é o único quesito, mas é um deles, e um muito importante.

Cenário criado por Mariel Clayto. Imagem: Divulgação

E então dentro dessas preocupações que, um dia, encontro minha filha, de 2 anos, brincando com uma Barbie que ela ganhou… Sim, eu fiquei atônita e inicialmente sem reação. O que fazer?

Bem, antes é preciso deixar claro que ser contra a Barbie não é exatamente uma causa feminista. Grupos conservadores e religiosos também podem ser contra a boneca, ao passo que talvez uma feminista possa considerar seu aspecto positivo: uma mulher que trabalha fora (que tal a Barbie médica? ou a domadora de golfinhos? ou a engenheira de informática?) e tem sucesso…

Mas não deixa de ser um ponto feminista a questão de a boneca reforçar os estereótipos femininos em vigor. Ou seja, por trás de sua aparente liberdade econômica está todo um sistema que em nada mudou na sua relação com as mulheres. Conforme Fernanda Roveri ela foi uma boneca criada para ADOLESCENTES aprenderem a se comportar como damas, ainda na década de 40, a partir do visual de um desenho pornô alemão.
Por meio da Barbie não podemos negar que o aprendido é o ideal de beleza, que foca na magreza exagerada, nos seios fartos, no cabelo loiro e liso e na necessidade de se estar sempre maquiada. A imagem que se forma é que para se dar bem (ter a casa da Barbie, o carro da Barbie, as amigas da Barbie, o namorado da Barbie), as meninas devem ser sempre sorridentes, maquiadas, de salto alto (mesmo de maiô!) e fúteis (ainda que sejam médicas), tudo isso sem esquecer seu aspecto consumista (roupas, acessórios, uma roupa para cada ocasião e tudo o mais relacionado à Barbie), inerente ao mundo que se almeja alcançar por meio da boneca. Mas se a mulher não alcança o mundo Barbie, tudo bem, anorexia, bulimia, bisturis, botox e antidepressivos estão aí para isso… Sem falar em preconceito e racismo…

Cenário criado por Mariel Clayton. Imagem: Divulgação

É dentro dessa perspectiva que eu vi minha filha de 2 anos brincando de Barbie, quando estou fazendo esforços por uma educação que rompa com esses paradigmas…. O chão se esvaiu, foi embora e eu sequer posso dizer quem estava na hora ao meu lado. Meu cérebro simplesmente ficou pensando, o que fazer, o que fazer, o que fazer… Eu não poderia fazer como fiz antes com outros brinquedos – simplesmente trocá-los por brinquedos que eu considerasse mais apropriados (ela já estava brincando). Eu não poderia guardar a boneca para depois repassar para outras crianças – eu não poderia repassar um brinquedo que fosse contra os meus valores. Também não poderia simplesmente tirar o brinquedo da mão dela – ou o efeito até poderia ser pior. Foi então que eu tomei a liberdade de falar com o adulto de plantão, de forma séria e calma: sinto muito, mas esse brinquedo não vai para casa, não. Não concordo que uma criança de dois anos brinque com essa boneca.

É claro que houve confusão. É claro que negar um presente é falta de educação. Mas é claro também que, graças a nossa sociedade, eu sou a única responsável pelos cuidados com minha filha (ainda que não tenha voz nos debates relacionados à educação de meus filhos, diante de todos os responsáveis e especialistas em educação). E justamente porque todos são contrários é que eu é que preciso lutar por uma educação feminista. Se eu tivesse um filho, ele não teria armas de brinquedo. Como eu tenho uma filha (e sou a favor de que todos brinquem de bonecos) pelo menos ela não teria uma Barbie (brincar é outra história, pois não posso impedir que ela brinque com outras crianças que têm a boneca). Mas eu posso, como feminista e mãe, pelo menos não reafirmar o status quo e sempre lembrar, nem que seja bem lá no fundo, que outro mundo é possível. Neste Natal não darei uma Barbie de presente.

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