Iemanjá: a grande mãe africana do Brasil

Iemanjá – popularmente conhecida como rainha do mar, deusa dos mares – é uma divindade cultuada em diversas cidades brasileiras, nas mais diferentes modalidades religiosas (candomblé, umbanda, entre outras). Na virada do ano, muitos devotos costumam realizar rituais públicos e enviar oferendas a ela pelas águas do mar, pedindo um ano novo com saúde, sorte e prosperidade.

Mas quais são as origens dessa grande divindade que se tornou amplamente conhecida em todo país? O pesquisador-sacerdote Armando Vallado mergulhou nos mitos, terreiros e rituais relacionados à Iemanjá e escreveu o livro “Iemanjá a grande mãe africana do Brasil”. O resultado é um estudo profundo não só sobre Iemanjá – mas sobre as religiões afro-brasileiras e sobre como a cultura popular laica assimilou esse orixá.

Iemanjá é uma divindade do rio Ogum, localizado na Nigéria. Foi trazida pelos escravos de língua e tradição iorubá para as Américas, local em que veio a se tornar o orixá do mar. Assim como sua regência sobre o rio Ogum foi transferida para o mar, muitas de suas outras atribuições sofreram mudanças no novo mundo, adaptando-se seu culto a novas realidades socioculturais. Iemanjá também é associada a diferentes mães d’água da mitologia indígena, sendo por isso chamada Iara, a mãe d’água.

Ao longo do livro, Vallado demonstra como o aspecto maternal que Iemanjá já tinha na África foi expressivamente acentuado no Brasil, enquanto outras características que a apresentavam mais próximas de uma figura sensual foram atenuadas ou apagadas. Quanto mais o papel de Iemanjá como mãe se fortaleceu, mais foi se aproximando da mãe dos católicos, Nossa Senhora, com a qual é sincretizada nas diversas regiões do Brasil.

De acordo com Vallado, Iemanjá foi assumindo características europeias:  ela é branca, de longos cabelos negros e lisos, usa um vestido azul de mangas longas trazendo um diadema na cabeça em forma de estrela.

A Iemanjá que aparece nos mitos iorubás oferece uma imagem bastante diferente daquela figura materna quase angelical popularizada nas festas de fim de ano. Vallado registrou diversos mitos em que ela ora aparece como uma deusa poderosa, que cria e destrói mundos, ora aparece como personagens com características humanas marcantes (vingativa, sensual, rebelde, generosa, dadivosa).

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Festa para Iemanjá no Rio de Janeiro. Foto de Tânia Rego para Agência Brasil. Alguns direitos reservados.

Em um dos mitos registrados por Vallado, Iemanjá ajuda Olodumaré na criação do mundo; em outro ela vinga seu filho Xangô, que estava sofrendo calúnia, e como punição resolveu destruir toda a humanidade. Em outros mitos, Vallado nos apresenta uma Iemanjá extremamente humana: como uma mulher que traiu seu marido Ogum, por exemplo. Quando casada com Oquerê (com quem teve 10 filhos), quis fugir da vida monótona e, com a ajuda de seu filho mais velho, Xangô, retornou para a casa da mãe, Olocum. Em outro mito, Iemanjá castigou seu filho Xangô, que andava atemorizando as pessoas.

Destaco um dos mitos que mais me marcaram a respeito de Iemanjá no papel de mãe: Olodumaré teria criado o mundo e repartido entre os orixás diversos poderes, dando a cada um deles um reino para criar. A Exu deu o poder da comunicação e a posse das encruzilhadas. A Oxóssi, o poder sobre a caça e a fartura. E assim por diante. Para Iemanjá, Olodumaré destinou os cuidados da casa de Oxalá, assim como a criação dos filhos e todos os afazeres domésticos.  Iemanjá trabalhava e reclamava da sua condição de menos favorecida – afinal, todas as outras divindades recebiam oferendas e homenagens, enquanto ela vivia como escrava. E tanto falou nos ouvidos de Oxalá que este enlouqueceu.

Caindo Oxalá enfermo, Iemanjá tratou de curá-lo. Oxalá, agradecido, foi a Olodumaré pedir para que atribuísse a Iemanjá o poder de cuidar de todas as cabeças. Desde então Iemanjá recebe oferendas e é homenageada quando se faz o bori (ritual propiciatório à cabeça) e demais ritos à cabeça.

Muito além do papel de mãe: uma mulher guerreira
Todos esses mitos são apenas uma pequena amostra da complexidade que a figura da Iemanjá enseja, principalmente nos cultos do Candomblé. Outro universo simbólico se abre quando começamos a conhecer as qualidades (avatares) dela, isto é, às múltiplas invocações dos orixás. Como nas religiões clássicas gregas e romanas, as qualidades referem-se aos cultos específicos do orixá, em que são invocados aspectos míticos da sua biografia, o que inclui suas diferentes idades, suas lutas, momentos de glória (podemos citar Iemanjá Sabá, Iemanjá Sessu, Iemanjá Oguntê, Iemanjá Aoiô, Iemanjá Acurá, Iemanjá Ataramabá, Iemanjá Maleleo, Iemanjá Conlá…).

Iemanjá Sabá, por exemplo, é a esposa de Orunmilá, divindade do oráculo iorubano. Conta o mito que Orunmilá, saindo para trabalhar em outras terras, demora-se a retornar e sua mulher Iemanjá-Sabá começa a passar dificuldades financeiras. Burlando as ordens do marido, ela apanha o oráculo e começa a atender as pessoas que corriam à sua casa. Orunmilá descobriu que a esposa o desobedecia e levou a esposa à corte de Olodumaré para que suas atitudes fossem julgadas. Ela foi absolvida pois ela estava desempenhando muito bem seu trabalho – além disso, ele decidiu que a partir daquele dia, todos os adivinhos deveriam fazer reverências a ela. Orunmilá, mesmo contrariado, se submeteu à decisão do deus supremo.

Vamos celebrar?
Não pretendo esgotar todos os mitos, tradições e rituais descritos no livro precioso de Armando Vallado. E nem é preciso conhecer tudo para celebrar a Iemanjá. Como colocou Vallado, existe também o Iemanjismo – uma religião que não é umbanda, quimbanda ou candomblé, embora sejam iemanjistas todos os adeptos destas seitas. O Iemanjismo não admite templos nem rituais, nem líderes: é praticado individualmente de acordo com os sentimentos de cada crente.

Então vamos celebrar! Que essas breves linhas sejam uma boa inspiração!

maternal que Iemanjá já tinha na África foi expressivamente acentuado no Brasil, enquanto outras características que a apresentavam mais próximas de uma figura sensual foram atenuadas ou apagadas. Quanto mais o papel de Iemanjá como mãe se fortaleceu, mais foi se aproximando da mãe dos católicos, Nossa Senhora, com a qual é sincretizada nas diversas regiões do Brasil.

De acordo com Vallado, Iemanjá foi assumindo características europeias:  ela é branca, de longos cabelos negros e lisos, usa um vestido azul de mangas longas trazendo um diadema na cabeça em forma de estrela.

A Iemanjá que aparece nos mitos iorubás oferece uma imagem bastante diferente daquela figura materna quase angelical popularizada nas festas de fim de ano. Vallado registrou diversos mitos em que ela ora aparece como uma deusa poderosa, que cria e destrói mundos, ora aparece como personagens com características humanas marcantes (vingativa, sensual, rebelde, generosa, dadivosa).

Em um dos mitos registrados por Vallado, Iemanjá ajuda Olodumaré na criação do mundo; em outro ela vinga seu filho Xangô, que estava sofrendo calúnia, e como punição resolveu destruir toda a humanidade. Em outros mitos, Vallado nos apresenta uma Iemanjá extremamente humana: como uma mulher que traiu seu marido Ogum, por exemplo. Quando casada com Oquerê (com quem teve 10 filhos), quis fugir da vida monótona e, com a ajuda de seu filho mais velho, Xangô, retornou para a casa da mãe, Olocum. Em outro mito, Iemanjá castigou seu filho Xangô, que andava atemorizando as pessoas.

Destaco um dos mitos que mais me marcaram a respeito de Iemanjá no papel de mãe: Olodumaré teria criado o mundo e repartido entre os orixás diversos poderes, dando a cada um deles um reino para criar. A Exu deu o poder da comunicação e a posse das encruzilhadas. A Oxóssi, o poder sobre a caça e a fartura. E assim por diante. Para Iemanjá, Olodumaré destinou os cuidados da casa de Oxalá, assim como a criação dos filhos e todos os afazeres domésticos.  Iemanjá trabalhava e reclamava da sua condição de menos favorecida – afinal, todas as outras divindades recebiam oferendas e homenagens, enquanto ela vivia como escrava. E tanto falou nos ouvidos de Oxalá que este enlouqueceu.

Caindo Oxalá enfermo, Iemanjá tratou de curá-lo. Oxalá, agradecido, foi a Olodumaré pedir para que atribuísse a Iemanjá o poder de cuidar de todas as cabeças. Desde então Iemanjá recebe oferendas e é homenageada quando se faz o bori (ritual propiciatório à cabeça) e demais ritos à cabeça.

Muito além do papel de mãe: uma mulher guerreira
Todos esses mitos são apenas uma pequena amostra da complexidade que a figura da Iemanjá enseja, principalmente nos cultos do Candomblé. Outro universo simbólico se abre quando começamos a conhecer as qualidades (avatares) dela, isto é, às múltiplas invocações dos orixás. Como nas religiões clássicas gregas e romanas, as qualidades referem-se aos cultos específicos do orixá, em que são invocados aspectos míticos da sua biografia, o que inclui suas diferentes idades, suas lutas, momentos de glória (podemos citar Iemanjá Sabá, Iemanjá Sessu, Iemanjá Oguntê, Iemanjá Aoiô, Iemanjá Acurá, Iemanjá Ataramabá, Iemanjá Maleleo, Iemanjá Conlá…).

Iemanjá Sabá, por exemplo, é a esposa de Orunmilá, divindade do oráculo iorubano. Conta o mito que Orunmilá, saindo para trabalhar em outras terras, demora-se a retornar e sua mulher Iemanjá-Sabá começa a passar dificuldades financeiras. Burlando as ordens do marido, ela apanha o oráculo e começa a atender as pessoas que corriam à sua casa. Orunmilá descobriu que a esposa o desobedecia e levou a esposa à corte de Olodumaré para que suas atitudes fossem julgadas. Ela foi absolvida pois ela estava desempenhando muito bem seu trabalho – além disso, ele decidiu que a partir daquele dia, todos os adivinhos deveriam fazer reverências a ela. Orunmilá, mesmo contrariado, se submeteu à decisão do deus supremo.

Vamos celebrar?
Não pretendo esgotar todos os mitos, tradições e rituais descritos no livro precioso de Armando Vallado. E nem é preciso conhecer tudo para celebrar a Iemanjá. Como colocou Vallado, existe também o Iemanjismo – uma religião que não é umbanda, quimbanda ou candomblé, embora sejam iemanjistas todos os adeptos destas seitas. O Iemanjismo não admite templos nem rituais, nem líderes: é praticado individualmente de acordo com os sentimentos de cada crente.

Então vamos celebrar! Que essas breves linhas sejam uma boa inspiração!

maternal que Iemanjá já tinha na África foi expressivamente acentuado no Brasil, enquanto outras características que a apresentavam mais próximas de uma figura sensual foram atenuadas ou apagadas. Quanto mais o papel de Iemanjá como mãe se fortaleceu, mais foi se aproximando da mãe dos católicos, Nossa Senhora, com a qual é sincretizada nas diversas regiões do Brasil.

De acordo com Vallado, Iemanjá foi assumindo características europeias:  ela é branca, de longos cabelos negros e lisos, usa um vestido azul de mangas longas trazendo um diadema na cabeça em forma de estrela.

A Iemanjá que aparece nos mitos iorubás oferece uma imagem bastante diferente daquela figura materna quase angelical popularizada nas festas de fim de ano. Vallado registrou diversos mitos em que ela ora aparece como uma deusa poderosa, que cria e destrói mundos, ora aparece como personagens com características humanas marcantes (vingativa, sensual, rebelde, generosa, dadivosa).

Em um dos mitos registrados por Vallado, Iemanjá ajuda Olodumaré na criação do mundo; em outro ela vinga seu filho Xangô, que estava sofrendo calúnia, e como punição resolveu destruir toda a humanidade. Em outros mitos, Vallado nos apresenta uma Iemanjá extremamente humana: como uma mulher que traiu seu marido Ogum, por exemplo. Quando casada com Oquerê (com quem teve 10 filhos), quis fugir da vida monótona e, com a ajuda de seu filho mais velho, Xangô, retornou para a casa da mãe, Olocum. Em outro mito, Iemanjá castigou seu filho Xangô, que andava atemorizando as pessoas.

Destaco um dos mitos que mais me marcaram a respeito de Iemanjá no papel de mãe: Olodumaré teria criado o mundo e repartido entre os orixás diversos poderes, dando a cada um deles um reino para criar. A Exu deu o poder da comunicação e a posse das encruzilhadas. A Oxóssi, o poder sobre a caça e a fartura. E assim por diante. Para Iemanjá, Olodumaré destinou os cuidados da casa de Oxalá, assim como a criação dos filhos e todos os afazeres domésticos.  Iemanjá trabalhava e reclamava da sua condição de menos favorecida – afinal, todas as outras divindades recebiam oferendas e homenagens, enquanto ela vivia como escrava. E tanto falou nos ouvidos de Oxalá que este enlouqueceu.

Caindo Oxalá enfermo, Iemanjá tratou de curá-lo. Oxalá, agradecido, foi a Olodumaré pedir para que atribuísse a Iemanjá o poder de cuidar de todas as cabeças. Desde então Iemanjá recebe oferendas e é homenageada quando se faz o bori (ritual propiciatório à cabeça) e demais ritos à cabeça.

Muito além do papel de mãe: uma mulher guerreira
Todos esses mitos são apenas uma pequena amostra da complexidade que a figura da Iemanjá enseja, principalmente nos cultos do Candomblé. Outro universo simbólico se abre quando começamos a conhecer as qualidades (avatares) dela, isto é, às múltiplas invocações dos orixás. Como nas religiões clássicas gregas e romanas, as qualidades referem-se aos cultos específicos do orixá, em que são invocados aspectos míticos da sua biografia, o que inclui suas diferentes idades, suas lutas, momentos de glória (podemos citar Iemanjá Sabá, Iemanjá Sessu, Iemanjá Oguntê, Iemanjá Aoiô, Iemanjá Acurá, Iemanjá Ataramabá, Iemanjá Maleleo, Iemanjá Conlá…).

Iemanjá Sabá, por exemplo, é a esposa de Orunmilá, divindade do oráculo iorubano. Conta o mito que Orunmilá, saindo para trabalhar em outras terras, demora-se a retornar e sua mulher Iemanjá-Sabá começa a passar dificuldades financeiras. Burlando as ordens do marido, ela apanha o oráculo e começa a atender as pessoas que corriam à sua casa. Orunmilá descobriu que a esposa o desobedecia e levou a esposa à corte de Olodumaré para que suas atitudes fossem julgadas. Ela foi absolvida pois ela estava desempenhando muito bem seu trabalho – além disso, ele decidiu que a partir daquele dia, todos os adivinhos deveriam fazer reverências a ela. Orunmilá, mesmo contrariado, se submeteu à decisão do deus supremo.

Vamos celebrar?
Não pretendo esgotar todos os mitos, tradições e rituais descritos no livro precioso de Armando Vallado. E nem é preciso conhecer tudo para celebrar a Iemanjá. Como colocou Vallado, existe também o Iemanjismo – uma religião que não é umbanda, quimbanda ou candomblé, embora sejam iemanjistas todos os adeptos destas seitas. O Iemanjismo não admite templos nem rituais, nem líderes: é praticado individualmente de acordo com os sentimentos de cada crente.

Então vamos celebrar! Que essas breves linhas sejam uma boa inspiração!

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