Ser feminista não é ser super-humana

No período das férias escolares nós mães estivemos atarefadas (porque ao contrário dos filhos, algumas de nós não tiraram férias) ou viajando, descansando e aproveitando (quando foi o caso de conseguirmos – ufa! – tirar férias em família). Então, fizemos uma pausa no FemMaterna. E agora estamos começando o ano novo reabastecidas (ou não), mas com a mesma garra de antes! A luta continua!

Pra começar o ano eu queria conversar sobre algumas exigências sobre-humanas que estamos fazendo conosco mesmo e com nossas companheiras feministas. Simbora?

Talvez as pessoas olhem para as mulheres feministas e vejam mulheres diferentes. Mulheres mais fortes, mais resilientes (como contou Viviana Santiago no Blogueiras Negras), super-mulheres que aguentam toda porrada, toda indiferença, toda frieza e crueldade do mundo. E, além de tudo, mulheres que jamais erram, perfeitas, incorruptíveis, acima das questões éticas do cotidiano, que jamais colocariam seu conforto acima da cartilha ética mais elevada.

Talvez algumas pessoas olhem para as feministas como olham para todas as mulheres: como não-pessoas, mas no lado oposto da escala, aquelas que serão capazes de salvar o mundo, sozinhas. Talvez as pessoas coloquem as mulheres feministas num lugar além-humano. Um lugar de onde elas não podem jamais sair (assim como não podem jamais sair do seu lugar sub-humano).

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Manifestação feminista no Rio de Janeiro. Foto de Fernando Frazão para Agência Brasil. Alguns direitos reservados.

Talvez as pessoas tenham construído para as feministas um novo padrão, o da mulher que aguenta e enfrenta piada machista, que aguenta agressões verbais, físicas, que tem tanta força em si mesma que pode consolar e confortar todas as outras mulheres sofredoras do mundo (talvez quase todas as mulheres do mundo, então, menos ela). Porque a mulher feminista é aquela que viu o sofrimento, entendeu sua origem e suas causas, mas não é abalável por ele nem por elas.

E eu até gostaria que fosse mesmo assim, assim a crueldade os horrores do mundo não me machucavam tanto e tão fundo.Quando a Gabriela Monelli decidiu que a vida não era mais possível, quando a Agatha de Mello foi baleada, a Raika Tomaz esfaqueada, doeu. Quando Suzane Jardim foi jogada do quarto andar pelo homem com quem ela saía, doeu. Quando Pâmela Padilha foi queimada pelo namorado, doeu demais, e a dor foi estrangulante quando, mais tarde, eu soube que ela acabou morrendo devido às sequelas do ataque. Dói em mim quando descubro que  Léia, Eliene, Caroline, Karla e Bruna foram mortas por seus companheiros. Dói em mim cada relato de violência obstétrica. Dói em mim cada relat de estupro.

Eu não conhecia essas moças, nenhuma delas. Só sei que elas viveram e vivem por que nós, como sociedade machista, misógina e transfóbica, educamos nossos homens, nossos médicos, nossa polícia, para acreditarem que mulheres são posses, coisas, um pedaço qualquer de carne que não merece respeito algum. Que pode ser estuprado, baleado, atirado de janelas de prédio, agredido, rasgado, submetido. Eu só conheço a história de vida dessas moças porque elas sofreram e porque o mal causado a elas foi tão grande e absurdo, que pessoas resolveram não se calar e gritar por elas. Porque uma sociedade que não se responsabiliza pelo bem-estar e pela proteção de quem vive nela não é justa. É uma sociedade de ódio. Uma sociedade em guerra contra si mesma. Eu não posso fazer muito pela Gabriela, pela Raika, pela Pâmela, pela Léia agora, mas as histórias delas me afetaram fundo e fazem com que eu queira tentar fazer com que elas não se repitam. Porque eu senti dor quando soube da dor delas, e não porque, na minha imagem idealizada de perfeição moral e ética, o respeito pela vida e pela integridade humana é um valor inestimável e deve ser defendido. Não, eu não funciono assim, eu quero lutar porque eu sinto dor.

É egoísta, eu acho. Eu quero lutar para que a dor acabe em mim também. E falar sobre a minha dor não é útil em nada nessa luta que em muitos poucos aspectos se referem a mim, mulher branca de classe média. Espero que seja útil pra que eu encontre pessoas como eu, sensibilizadas com as vidas perdidas e as cicatrizes marcadas. E, para que não me doa mais, que não doa mais em nenhuma mulher, eu escolho lutar e viver ao lado de pessoas como eu, que se sentem próximas de quem sofre. Eu tenho medo de quem se coloca de fora das coisas e acredita que é possível mudar o mundo apenas na racionalidade, sem afeto, sem dor, sem tomar partido, de cima da grande montanha do pensamento racional, além do real.

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Manifestação feminista no Rio de Janeiro. Foto de Fernando Frazão para Agência Brasil. Alguns direitos reservados

Mas eu também aprendi que realmente é uma coisa tola esperar reciprocidade no afeto, justamente porque somos todos humanos e nossos afetos são transitórios. A contrapartida é escassa não por ser mesquinha, mas por ser humana. Somos gente, nem todos somos maus, só não é possível que sejamos bons o tempo todo. Uma das coisas mais necessárias hoje para mim é olhar nos olhos e ouvir as falas das pessoas e perceber que elas tem a dor dentro de si. A dor pelas pessoas estupradas, perseguidas, exploradas, oprimidas, machucadas, assassinadas.

Porque o conjunto dos movimentos pelos direitos humanos, o feminismo, o movimento negro, lésbico, trans, de portadores de deficiências, não é uma uma Liga da Justiça Igualitária, onde pessoas cis e trans, brancas e negras, ricas e pobres, que praticam todas as expressões de afeto e sexualidade, são super heróis infalíveis e insuperáveis. São gente humana, falível e imperfeita. E dentro dessa nossa imperfeição é preciso reconhecer que estamos juntos por nossa dor compartilhada, por nosso medo, por nosso horror diante das violências que cometem contra nós. Juntas por nossa vontade de que nunca mais outra Gabriela imagine que a vida não é possível de viver por ser uma mulher trans.

Porque talvez eu mesma pensasse que retirar a venda do patriarcado é como uma mordida de aranha mutante. Mas não. Ninguém deixa de ser humano ao se declarar feminista, ser feminista não nos dá super-poderes. Continuamos sensíveis, abaláveis, frágeis, e, principalmente, continuamos imperfeitos e continuamos errando.

Então eu sei que muitas mulheres feministas sabem disso e formam redes de sororidade para ajudar umas às outras a resistir ao sofrimento, a conquistar o próprio poder, o próprio espaço, e na tarefa que nos é imposta de mudar esse mundo. A sororidade nos ajuda a nos ver como somos, fortes em alguns aspectos, frágeis em outros, nem fortes nem frágeis na maioria do tempo, apenas nós mesmas vivendo nosso cotidiano da forma que conseguimos aguentar e viver com o mínimo de paz possível (se, e quando, conseguirmos esse mínimo de paz – às vezes não conseguimos nunca).

Então eu desejo que, nesse ano de 2014, todas nós, feministas, nos olhemos com mais carinho. Para nós mesmas e para nossas companheiras de luta. Vamos tentar entender e perdoar os erros umas das outras, porque nós também erramos. Todas nós sofremos faces diferentes da mesma opressão. Todas somos vítimas de ódio declarado e aberto ao gênero feminino. Vamos procurar reconhecer a dor nos olhos das outras e lutar juntas. Porque todas nós temos o direito de sermos felizes sem precisar lutar pra isso! Venham que vai ser bom!

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