Mulheres gastam demais? As raízes patriarcais de um estereótipo

*Texto de Henrique Marques-Samyn

“Dinheiro na mão de mulher é vendaval”; “o homem ganha, a mulher gasta”: em frases feitas como essas, assim como em clichês comuns no imaginário contemporâneo — como o da mulher que compra compulsivamente, ou cujo cartão de crédito vive estourado –, ressurge um dos mais antigos estereótipos a respeito do gênero feminino, que o associa a uma insuperável incapacidade de controlar os seus gastos. Para o senso comum, pode parecer apenas uma piada a ideia de que mulheres são irresponsáveis e perdulárias, sendo raras e notáveis as que escapam a essa regra; contudo, uma análise feminista logo deixa evidente sua intrínseca associação às estruturas de poder patriarcais: se as mulheres são invariavelmente frívolas e incapazes de lidar de modo adequado com o dinheiro, quem teria condições de fazê-lo, se não os homens — a quem são mais frequentemente confiados os cargos de autoridade e poder, que exigem responsabilidade e manejo consciente dos recursos?

O estereótipo da “mulher gastadeira” — como aqui o denominarei — também está fortemente vinculado à distribuição tradicional das funções familiares conforme os gêneros, uma vez que reforça o controle concedido ao homem como provedor e “chefe da família”. O arranjo conservador que reserva à mulher as pequenas despesas, vinculadas ao cuidado com os filhos e aos afazeres domésticos, e delega ao homem os grandes gastos, associados ao patrimônio familiar, é muitas vezes fortalecido por aquele clichê — o que colabora para manter as mulheres em posição de vulnerabilidade, visto conceder a responsabilidade pelo futuro familiar à autoridade masculina, que não raro a exerce de forma unilateral. Por outro lado, não é incomum que homens evoquem a suposta “tendência feminina” a gastar com “bobagens” para legitimar um suposto direito de exigir prestação de contas do valor devido como pensão alimentícia (o que é judicialmente incabível) ou mesmo para justificar o seu não pagamento (o que é um crime passível de punição com prisão civil).

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Foto de Renato Araujo para Agência Brasil. Alguns direitos reservados.

Por mais persistentes que sejam os estereótipos — sobretudo aqueles que, associados a estruturas patriarcais, permanecem vigentes há séculos –, eles sempre podem ser contestados e desconstruídos. No caso que nos interessa, o Programa Bolsa Família (PBF) é exemplo de um fator que vem propiciando mudanças significativas no que tange a valores e normas tradicionais. Do total de titulares do PBF, mais de 90% são mulheres; embora isso esteja relacionado à sua associação com as responsabilidades domésticas — o que reflete a permanência de um modelo patriarcal de família –, a possibilidade de administração do benefício pelas mulheres tem um potencial emancipatório justamente por possibilitar transformações nas estruturas familiares. Como demonstrou uma investigação realizada por André Pires e Haretha Kazumi Itoman, pesquisadores da PUC-Campinas, o PBF pode ressignificar o papel social da mulher como mãe, na medida em que ela passa a dispor de recursos que lhe permitem cumprir funções tradicionalmente associadas à condição paterna, gerindo os gastos familiares e atuando como mediadora entre o Estado e a instituição familiar. Diversos estudos (como este e este) têm registrado a importância do PBF para a autonomização das mulheres em situação de pobreza.

Concebido e alimentado por estruturas patriarcais, o estereótipo da “mulher gastadeira” colaborou, ao longo dos séculos, para perpetuar a submissão feminina: vista como incapaz de lidar com os recursos materiais, propensa ao desperdício, impulsiva e irresponsável “por natureza”, caberia à mulher resignar-se a uma posição de dependência, delegando sua vida e seu destino à autoridade masculina. Combater estereótipos que colaboram para sustentar a ordem patriarcal é uma tarefa que se impõe a feministas e a seus aliados; com efeito, a construção de uma sociedade mais igualitária demanda não apenas a luta pela melhoria das condições materiais, pelo fim da discriminação de gênero nas relações de trabalho e pela valorização do trabalho doméstico, mas também o questionamento das diversas estruturas simbólicas que, presentes no dia a dia, colaboram para que as mulheres continuem sendo alvo da opressão sexista.

Outras sugestões de leitura sobre o mesmo tema:

Mocinha e Valor” e “Case-se com ela. Oi?”, ambos do Biscate Social Club.

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