Embalando Mateus: o filho do outro também é nosso

Uma notícia escandalizou feministas na semana passada: um grupo de moradores da Asa Sul de Brasília (um bairro de classe alta de Brasília) acionou o Ministério Público para impedir a construção de uma creche pública na vizinhança. Eles alegam, entre outras coisas, que não existe demanda por creches na região, uma vez que o bairro quase não teria crianças (seria formado majoritariamente por idosos) e que nem comerciantes e empregadas (o) domésticas (o) que trabalham na região estariam precisando desse serviço público. Também alegam que a área verde onde será instalada a creche deveria ter um uso definido pelos moradores do bairro, que desejam um espaço de lazer, como a construção de um clube, por exemplo.

A Asa Sul é um bairro que não tem creche pública. Como não se escandalizar ao saber que um grupo de cidadãos é contra a existência de um local público voltado para o atendimento de bebês e crianças no seu bairro? Como não se espantar com o fato de que viver num bairro sem creche pode vir a ser considerado, pela justiça, um direito desses cidadãos?

Em primeiro lugar, a região onde será construída a creche se trata de uma área pública, cedida na década de 70 para a Secretaria de Educação do DF, justamente para a construção de uma escola ou de uma creche. A principal pergunta deveria ser: por que a creche ainda não foi construída?

O argumento de “não existir demanda” por creches é bastante questionável. A Secretaria da Educação informa que a demanda por creches é de 130 mil meninos e meninas de até 5 anos de idade, em todo o Distrito Federal. O déficit entre as que precisam é as conseguem a vaga é de 15 mil.

A Asa Sul possui grande área residencial que abriga, em sua maioria, famílias de classe média e alta, que podem pagar creches privadas. Mas e quem presta serviço para essas famílias (babás, educadores, prestadores de serviços)? Com quem ficam as crianças deles, enquanto eles trabalham? E o comércio da região? A Asa Sul emprega muitos trabalhadores. E quem disse que idosos também não necessitam de ajuda profissional? Enfermeiras, cuidadores, muitos profissionais têm famílias, moram em outros bairros, e podem vir a precisar de creche num local próximo ao trabalho.

 

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Creche em Brasília. Foto de Wilson Dias para Agência Brasil. Alguns direitos reservados.

Engana-se quem pensa que a creche pública em área nobre seria para atender famílias de ricos. A única creche pública existente na Asa Norte (região de classe média e alta de Brasília) abriga pouco mais de 120 crianças, tem fila de espera, e faz seleção das famílias com critérios que envolvem renda familiar e vulnerabilidade social (mães solteiras, por exemplo, têm prioridade).

O governo do Distrito Federal está construindo creches também nos bairros periféricos, mas oferecer esse serviço só nessas regiões afastadas não é suficiente. Há quem prefira colocar a criança perto do local de trabalho do que perto de casa, por questões logísticas.

Também é questionável o argumento dos moradores que, dizem, consultaram diaristas, babás, e outros empregados domésticos do bairro e “descobriram” que essas pessoas não precisam de creche. Considerando que a hipótese seja verdadeira, cabe perguntar: será que não seria o contrário? O profissional já decide não procurar trabalho na Asa Sul porque tem filho pequeno, perto da casa dele não tem creche e perto do local de trabalho também não há esse serviço?

A falta de creche afeta as famílias mais pobres, principalmente as mulheres e as mulheres negras. Como em média o salário dos homens é maior do que o das mulheres mesmo em trabalhos semelhantes, quando um dos provedores precisa sair do mercado de trabalho pra cuidar de um filho pequeno, quem sai é a mulher. Ausência de creche pode ser também um motivo para mulheres largarem o mercado de trabalho no início da maternidade e ficarem economicamente vulneráveis. E para as mães que só contam com a própria força de trabalho, a ausência de creche pode significar deixar os filhos em situação vulnerável, sob a guarda de uma criança mais velha, ou com algum parente que nem sempre está disponível, ou em condições pouco seguras.

O que os moradores do bairro da Asa Sul talvez não saibam é que uma creche pública não deve ficar restrita a bairros periféricos porque as pessoas circulam na cidade, se movimentam. A ideia de uma cidade é permitir que todos se relacionem, independentemente da classe social. Creches públicas espalhadas pela cidade é disponibilizar segurança para filhos dos outros, de outros trabalhadores, de outras famílias com as quais os moradores da Asa Sul certamente têm (ou terão) algum tipo de relacionamento. Os moradores da Asa Sul precisam refletir sobre como tratam os filhos dos outros: não é só quem pariu Mateus que o embala. No dia em que todas as crianças da cidade estiverem devidamente abrigadas em creches ou em locais seguros, talvez os moradores da Asa Sul possam dizer que uma creche no bairro é desnecessária.

 

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