Frozen: a Disney está repensando seu modelo?

*Texto de Lays Moreira

Quando vi pela primeira vez o trailer de Frozen: uma aventura congelante (Frozen, 2013), não fiquei muito animada. Baseado em dois personagens – a rena Sven e o boneco de neve Olaf – disputando uma cenoura, o trailer me deu a impressão de “mais do mesmo”, até porque a caracterização de Sven me lembrou muito o cavalo com transtorno de personalidade Maximus, de Enrolados (2010). E tendo um rapaz e uma mocinha na trama, estavam reunidos todos os ingredientes para mais uma história de “princesa Disney”.

Mas eram férias, minha filha gosta de cinema, e – poxa, melhor do que ficar em casa – fomos ver o filme. E confesso, eu estava errada. Redondamente. Porque Frozen não é mais um filme de princesas (embora eu não duvide de que as protagonistas logo irão integrar o grupo, com o lançamento de inúmeros produtos licenciados), mas uma quebra de paradigmas do estúdio Disney, rompendo com tradições que se estabeleceram desde Branca de Neve e os Sete Anões (1937).

O filme mostra duas irmãs, Elsa e Anna, princesas do reino de Arendelle. Elsa, a mais velha, nasceu com o poder de criocinese, ou seja, de criar gelo e neve. Ela e a irmãzinha se divertem brincando com esse poder, até que por acidente, Anna é atingida acidentalmente pelo poder de Elsa. Os pais das meninas as levam aos trolls da montanha, onde Anna é curada e Elsa é advertida do perigo de seu poder. As memórias de Anna sobre o poder da irmã são apagadas e o rei decide que o melhor a fazer é esconder o poder de Elsa de todos.

Neste ponto, não pude deixar de fazer um paralelo com a condição feminina. Elsa é isolada de todo o mundo exterior e levada a esconder o seu poder de todas as formas; ela é forçada a renegar aquilo que a faz especial e se submeter aos padrões de comportamento considerados normais. Mesmo que isso a destrua por dentro e a faça infeliz, ela precisa se enquadrar e esquecer o que é, pois a fazem acreditar que isso a deixará segura. Tal como as meninas que são ensinadas, desde cedo, que precisam se comportar de determinada forma para serem “meninas bonitas”, para serem aceitas. O drama de Elsa se mostra bem na canção “Livre Estou” (Let It Go):

“Não podem vir, não podem ver, Sempre a boa menina, deve ser.

Encobrir, não sentir, nunca saberão.”

frozen
Imagem do filme Frozen. Divulgação.

Anna também sofre com o isolamento, principalmente porque, além de ter sido isolada fisicamente do mundo externo aos portões do palácio, foi também isolada das razões que levaram os pais a tomar tal atitude. Anna cresce em um palácio praticamente vazio sem sequer desconfiar do sofrimento da irmã. Irmã mais nova, princesa que não deverá chegar ao poder, ela não sofre as pressões sofridas por Elsa, mas também não participa do drama da família. Ela é simplesmente desconsiderada nesse contexto, como se dele não fizesse parte. Com o pretexto da proteção, as duas irmãs se veem privadas de qualquer liberdade, como frequentemente ocorre com as meninas no mundo real.

Mas os pais das princesas morrem e Elsa assume o trono. Os portões se abrem para a coroação. Enquanto Anna exulta com a possibilidade de ver pessoas novas – e sonha com um pretendente – Elsa se desespera ao ver que não consegue manter a criocinese sob controle. Cada uma das princesas quer desesperadamente se enquadrar no papel que a elas foi determinado: uma aspira a um amor e casamento, a outra deseja esconder sua real natureza e assumir o comportamento a ela ensinado durante toda a sua vida.

Durante a festa, Anna conhece o príncipe Hans. Ele a pede em casamento, ela aceita – no típico momento de amor à primeira vista. Entretanto, quando pede a bênção à irmã mais velha, esta lhe responde: “Você não pode se casar com alguém que acabou de conhecer” . Nesse momento, alguma coisa se agitou na minha mente: como assim, esse é o estúdio que fez um monte de filmes onde as mocinhas acabam sempre se casando com um cara que acabaram de conhecer? Eles realmente romperam com a tradição de Branca de Neve, Cinderela (o príncipe nem se lembra do rosto da menina, tenta encontrá-la com um sapato!), Ariel e tantas outras? Como assim?

Anna confronta Elsa, que perde o controle sobre seu poder e foge, deixando Arendelle sob um inverno eterno. Esse é um dos momentos mais marcantes do filme, em que Elsa chega ao pico das montanhas nevadas e ali, dá-se conta de que não precisa mais esconder o que ela é. Ela usa o seu poder, sentindo a sensação de liberdade recém-descoberta, dizendo que “the good girl is gone”. Ela se liberta de todas as amarras que a prendem, mesmo sabendo que o preço para isso é o rompimento com a sociedade de que fazia parte. Elsa descobre a si mesma e deixa que seu eu verdadeiro aflore, virando as costas e batendo a porta para sua antiga vida. Ela está livre.

Entretanto, Anna procura pela irmã para que ela desfaça o inverno, e é quando conhecemos mais três personagens. Kristoff, um rapaz que ganha a vida vendendo gelo, sua rena Sven e Olaf, o boneco de neve feito por Elsa e que ganha vida. Juntos eles partem em busca de Elsa, que quando sabe do que ocorreu com Arendelle, perde novamente o controle e atinge o coração da irmã com um pedaço de gelo. Anna aos poucos está ficando cada vez mais fria, até que – segundo o xamã dos trolls – ela se tornará uma estátua de gelo, a não ser que um gesto de amor verdadeiro aqueça novamente o seu coração.

Elsa é capturada por Hans e levada de volta. Krsitoff leva Anna para casa, para que Hans a beije. Nessa hora pensei: “ah, pronto é agora que a coisa volta pros eixos. O Hans salva a Anna e aí vem aquela coisa de amor verdadeiro e blá,blá,blá, whiskas sachet.” Mas eu estava errada de novo, porque Hans se mostra um homem ambicioso, que propôs casamento a Anna apenas para chegar ao poder. Ele a deixa presa para morrer em um salão e vai dar cabo de Elsa, acusando-a de traição.

Entretanto, Elsa foge e Anna é libertada por Olaf, que lhe conta que Kristoff a ama e está voltando para salvá-la (“Aí, olha! Não falei? Sempre tem que ter o salvador!!!). Anna procura Kristoff em meio à tempestade gerada por Elsa, quando vê que a irmã está para ser eliminada por Hans. Anna se coloca entre Hans e Elsa, recebendo o golpe da espada de Hans no momento em que se transforma em uma estátua de gelo. Elsa, ao perceber o sacrifício da irmã, se permite sofrer, chorar, sentir, e nesse momento se faz o gesto de amor verdadeiro de uma irmã para outra. Ao se perceberem livres dos rótulos e imposições que sofriam, as duas irmãs são libertadas de suas maldições.

Frozen é um filme marcante dentro da filmografia Disney. Ao apresentar personagens femininas marcantes e tridimensionais, que transcendem o papel da donzela em perigo; ao negar o “amor à primeira vista” e transformar o príncipe em vilão; ao relegar o provável par romântico a um papel secundário, deixando a solução do conflito central nas mãos das irmãs; ao ampliar o conceito de amor para o campo fraterno; ao tratar, com sutileza e delicadeza, da condição feminina frente às imposições que a sociedade impõe, Frozen se coloca como algo diferente dentro do acervo produzido pelos estúdios Disney. O filme, se não se coloca abertamente como feminista, chega muito perto disso e abre novas perspectivas para o estúdio, que espero que não se resumam apenas à este filme.

Nesse caso, vale a pergunta: o estúdio Disney inovou com Frozen, assumindo novos paradigmas e enfrentando conceitos estabelecidos, ou está refletindo as mudanças na sociedade, em que as meninas não se contentam mais em serem boas meninas e esperarem seus príncipes salvadores? Conhecendo a Disney e sua visão comercial, eu apostaria meu dinheiro no segundo palpite, o que, convenhamos, é bastante animador.

P.S.: Valente (Brave, 2012) também tem uma protagonista forte e independente de um salvador, com um viés abertamente feminista. Entretanto, esta se trata de uma animação do estúdio Pixar, enquanto Frozen é 100% Disney.

 

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