“Um estranho salvou minha filha de ser linchada num bullying”

O bullying entre crianças e adolescentes está se tornando um fenômeno cada vez mais comum, sofisticado e preocupante. O Femmaterna convidou o estudante Alexsandro Henrique Largher para relatar como está reagindo ao cyberbullying (pois não bastasse o abuso, a agressão foi filmada e divulgada nas redes sociais) sofrida pela filha mais nova dele. O intuito é abrir o debate para que mães, pais e educadores possam dialogar mais sobre esse tema e encontrar saídas para se evitar essa violência que regra geral envolve uma série de preconceitos (sexismo, racismo, homofobia, transfobia, gordofobia, entre outros) que precisam ser eliminados da sociedade. Veja o depoimento dele a seguir.

“Sou do tempo que o conceito bullying não existia no nosso imaginário, e pra ser honesto, não gosto do termo, porque é uma palavra norte-americana (EUA). Mas como já está naturalizado, falemos dele.

Quando criança tinha um apelido que me incomodava muito, ou melhor, vários apelidos, como Topo Gigio, Dumbo, Orelhão, etc. Ter orelha de abano na escola foi péssimo, era muito zuado. Mas quando tinha uma briga, ou eram alguns empurrões entre os meninos, algum bico na canela ou algum soco no braço. Violência sim, e sei que estou falando uma obviedade, mas também tinha a turma do “deixa disso”, e as brigas não duravam muito tempo, sempre tinha um professor ou um supervisor de olho. Falando em gênero, brigas entre meninas, além de serem raras, quando tinha, eram puxões de cabelo e alguns arranhões. E logo a turma do deixa disso aparecia.

Hoje, ao estudar para ser professor, e ver a realidade da comunidade periférica onde moro, constato que é fácil perceber a banalização da vida e a naturalização da violência. Por nada, uma briga entre colegas, vira algo fora de controle e a turma do “deixa disso” foi substituída pela turma do “deixa que eu filmo”. Nasceu aí o cyberbullying, outra palavra indigesta, mas de efeitos devastadores, pois não bastasse a extrema violência física, que causam muitos danos, a rede virou uma ferramenta de violência emocional, tão ou mais devastadora quanto à primeira.

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Foto de Marcello Casal Jr. para a Agência Brasil. Alguns direitos reservados.

Ao assistir o vídeo onde minha filha é agredida, pude perceber estas características que descrevi acima, pois teve a turma do “deixa que eu filmo” e teve a violência física extrema, teve puxão de cabelo, mas um puxão que arrasta uma criança de 12 anos por diversos metros aos gritos de dor. Contei 5 chutes no rosto, os socos eu perdi a conta. Tudo filmado e assistido por um grupo de meninas e meninos como espectadores do que chamo de espetacularização e midiatização “modus UFC”. Sim, a menina que agride minha filha não queria só bater, queria “finalizar”. Não fosse um cidadão passar e interferir ela teria conseguido, esse cidadão é meu herói.

Uma amiga, que recebeu o vídeo via WhatsApp numa cidade vizinha, reconheceu minha filha e ligou horrorizada dizendo que aquilo não era agressão escolar, foi tentativa de homicídio. O vídeo não foi parar só na cidade vizinha, foi parar no Facebook, foi parar com muitos alunos da escola via bluetoth, e quando minha filha consegue sair na rua, é apontada, e aos cochichos, ouvimos risinhos de satisfação.

O cidadão que interferiu (meu herói) trouxe minha filha até a porta da minha casa, minha primeira reação foi o choque, não conseguia nem falar ao ver minha filha chorando e com sangue escorrendo de sua boca. Mal agradeci o cidadão, que hoje é testemunha da barbárie e vai me ajudar no processo crime que estamos movendo.

A mãe da minha filha saiu do trabalho correndo ao saber o que tinha acontecido, pegou nossa filha e tomou as providências necessárias, levou ela à delegacia do menor para registrar BO e lá a encaminharam para o exame de lesão corporal.

Eu fui para a internet, entrei no facebook da minha filha e fiquei esperando os ataques, não vieram, comecei a procurar entre suas amigas e colegas, e de link em link achei um post, e descobri quase todxs os envolvidxs na filmagem e na agressão. Fui à escola com a intenção de falar com adolescentes e perguntar porque e quem eram todos os agressores. Fiquei sabendo que não poderia falar com eles através da coordenadora pedagógica. Concordei, alegaram que legalmente não é permitido. A diretora se resumiu a falar: “Ah, nós soubemos dessa briga, foi fora da escola né, pai?”. Me passou para a coordenadora, deu as costas, e foi pra sala dela.

Conversei com a coordenadora, passei os nomes que tinha dxs possíveis agressorxs que agiram em grupo, e ela ficou de me ligar e dar retorno… estou esperando até hoje. Minhas filhas ficaram sem escola, pois não somente a que foi agredida foi prejudicada, a menor, de 10 anos, que estudava no turno inverso, e quem levava ela para escola era a irmã mais velha, também não foi mais. Estou esperando a ligação da escola pra avisar que duas das minhas filhas não forma mais às aulas desde o dia 14/03.

Encontrei a coordenadora rapidamente na rua noutro dia, estava esperando a mãe da menina que iria me trazer o vídeo, pois sua filha de 11 anos também recebeu em seu celular. Ao que a coordenadora apressada disse: “Ah, a menina que agrediu é de outra escola né?” e entrou no carro com alguém, estava indo a algum lugar. E quem não vai a lugar nenhum hoje, a não ser médicos, psicólogos, psiquiatras, psicopedagogas é minha filha.

Desesperado, desempregado, com a filha física e emocionalmente destruída, fui tomado por um “surto” e redigi uma carta, improvisada, sem revisão, talvez sem razão, agindo só com a emoção pedi socorro. Clamando aos amigos virtuais e conhecidos por ajuda, eu não tinha R$1,00 naquele dia para ajudar a minha filha. Não sei quantas palavras escrevi, mandei por e-mail aos amigos e amigas, estes espalharam a corrente de solidariedade que invadiu o twitter, o facebook e o blog de uma grande amiga, que reproduziu meu pedido de socorro.

Foi uma avalanche de espanto com o relato, e com ele veio a solidariedade, a ajuda. Estou até hoje respondendo mensagens, emails, twitters. Recebi carinho, ajuda, atenção e doações para que eu pudesse prestar os primeiros socorros a minha filha sem precisar entrar na fila de espera do SUS.

Conseguimos com essa ajuda, psicopedagoga, psicóloga, psiquiatra, dermatologista, advogada, foram tantas as mensagens de auxílio que algumas tive que recusar, sempre agradecendo a solidariedade e o carinho à minha filha.

E é esta solidariedade que está nos dando força a cada dia para continuar lutando, para superar os traumas, para curar minha filha, para fazê-la sorrir um pouco em horas que o choro é incontrolável. Sim, ela ainda chora muito, nós todos continuamos chorando.

Conseguimos outra escola, sim, os agredidos que se mudem, agressores permanecem em seu devido conforto, essa é a realidade, e ela é cruel com oprimidos. Todos sabemos, apenas fingimos não ver.

Cético e esperando que a justiça seja feita, o que duvido, nos movimentamos, a crise provoca isso, mostra que em algum ponto estamos errados, que é preciso movimento pra seguir andando, as vezes somos expulsos, as vezes somos empurrados. Nesse caso, estamos levados pela solidariedade de amigos, de amigas, de estranhos, de gente que nunca ouviu nosso nome, nunca viu nossa filha. E essa gente, brasileira, com muito amor no coração está resgatando a dignidade de um pai, de uma mãe, de duas meninas que estavam em risco de esmagamento pelo sistema em que vivemos.

Para acabar com o bullying nas escolas, só acabando com ela, botando abaixo, e construindo uma nova. Reforma não resolve, nunca resolverá. Uma nova lógica de mundo é necessária, um outro mundo é possível, é no que acredito, é isso que me mantém vivo, e é por isso que estudo para ser professor, pra ser um bom professor de história, e tomara que eu consiga, e tomara que seja em uma nova escola. Por uma cultura de paz, de coexistência, que todas as diferenças não sejam “toleradas” ou “aceitas”, mas que sejam sim respeitadas.”

Update: Alexsandro Largher pediu para acrescentar que vai escolher o caminho da justiça restaurativa para a resolução de conflitos.

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