Um corpo que não é seu – Repúdio contra a violência sofrida por Adelir Carmen Lemos de Góes

“Se a gente está precisando dizer às mulheres que elas são capazes de parir é porque a coisa anda muito feia”, me disse certa vez Leila, a diretora de uma casa de parto. Depois do que ocorreu ontem em Torres, no Rio Grande do Sul, não há como discordar.

Adelir Carmen Lemos de Góes, como muitas mulheres brasileiras, passou por duas cesarianas contra a sua vontade, induzida por médicos que disseram que com mais de 40 semanas, suas gravidezes estavam extrapolando o tempo limite. Grávida novamente, procurou uma doula, Stephany Hendz, que a ajudasse a ter o tão desejado parto normal. Ontem, no Facebook, um depoimento da própria Stephany, replicado por muitas ativistas do parto humanizado, nos chocou:

“Vieram buscar a gestante em casa, com policiais armados, ambulância e mandato judicial para preservar a vida do nascituro, a pedido da médica, dra. burra que além de não saber fazer parto pélvico (dado SUPER duvidoso), disse que o bebê nasceu mal com circulares de cordão e mecônio mesmo chorando e respirando bem, depois de negar ao pai o direito (concedido por uma lei federal) de acompanhar a cirurgia!Estivemos no hospital durante a tarde para uma avaliação com direito a eco obstétrica de urgência e tudo onde constataram placenta e líquido amniótico normal, bebê com sinais vitais bons e mãe em perfeita saúde. A mãe de recusou a ser internada, assinamos um termo de responsabilidade e fomos liberadas. A noite, em franco trabalho de parto, luzes apagadas, velas acesas só esperando o momento certo de ir ao hospital batem na porta, um bando de pessoas loucas com argumentos vazios. QUESTIONEI: quando médico mata bebês dentro do mesmo hospital a justiça não trabalha com tanta rapidez!! Estou em luto, por mais um parto roubado no Brasil e o terceiro pra essa mesma mulher, guerreira e batalhadora que teve o direito sobre seu próprio corpo arrancado a ferro, por quase 10 policiais armados! LUTO ETERNO!”

Antes de mais nada, alguns esclarecimentos: há inúmeros relatos de partos normais feitos após cesariana. Ainda que o risco de ruptura uterina exista, ele é mínimo, especialmente se comparado ao risco de 3 a 4 vezes maior de morte materna associado a uma cirurgia cesariana. Nessas, como em quaisquer outras gestações, a qualidade do pré-natal é o que faz a diferença.  Adelir, devidamente orientada por um doula experiente, não planejava um parto domiciliar. Pelo contrário: procuraria um hospital, quando o momento certo chegasse, para minimizar ainda mais os possíveis riscos do parto normal em sua condição. Foi atestado no próprio hospital que ela e seu bebê estavam saudáveis. Não havia qualquer justificativa, devidamente embasada cientificamente, para uma cesariana de emergência. Ela estava apenas se resguardando o direito de decidir sobre o seu parto, como todas deveríamos ter.

adelir
Adelir em foto publicada em seu Facebook

O caso de Adelir demonstra claramente duas temeridades que aconteceram com os partos no Brasil: sair da condição de um processo fisiológico normal do corpo da mulher, para se tornar um procedimento hospitalar; se tornar um procedimento em que os médicos dão as cartas, e as decisões da mulher são minimizadas, quando não completamente ignoradas, como no caso de Adelir. A questão é tão séria e endêmica que as pessoas nos acostumamos a ver esse cenário como um avanço. Nos comentários da notícia publicada pelo site da Folha de São Paulo, vemos apenas congratulações à médica, por sua decisão acertada de salvar a vida da mãe e do bebê. Porque, para as pessoas, é nisso em que todos os partos se transformaram: um procedimento que deve ser feito em um hospital, para que os médicos, essas figuras imprescindíveis, possam garantir que mãe e bebê terminem vivos. Na rabeira disso, as pessoas ignoram completamente o processo: acham que nascer vivo e continuar viva é o máximo que se pode esperar.

Mas não é.

O Parto marca não somente o momento em que uma pessoa inicia sua vida, como também o momento em que uma mulher inicia um novo caminho como mãe. Como podemos não nos horrorizar com o fato de que milhares de mulheres no Brasil diariamente passam por esse processo sem poder sequer opinar sobre como o querem transpor? Sem poder escolher sua via de parto? Sem poder se movimentar quando sentem vontade? Sem poder comer, beber, gemer quando sentem dor? Sem poder contar com a companhia de alguém de sua confiança? Com a realidade de que pelo menos 25% das mulheres são humilhadas e agredidas neste momento que deveria ser um dos mais satisfatórios de suas vidas? Com o dado de que 92% das indicações de cesarianas repassadas por profissionais de saúde a mulheres foram incorretas?

Em tempos em que a justificada indignação está presente, com relação aos dados apresentados pela pesquisa do IPEA sobre violência sexual, pedimos que a mesma indignação se estenda ao que viveu Adelir: uma mulher que teve a autoridade sobre o próprio corpo retirada, por pessoas que recebem permissão da sociedade para o fazê-lo. Que absurdos mais vamos viver, enquanto não respondermos devidamente a esse tipo de violência de gênero?

O FemMaterna expressa ainda nossa imensa solidariedade à Adelir e Stephany. Sofremos como se fossem nossos partos sendo roubados.

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