Estudante, pesquisadora e mãe

*Texto de Marina Nucci

Ser mãe e estar na universidade – seja na graduação ou na pós, cada qual com suas especificidades – é um desafio.

No caso de gravidez, a legislação garante, a partir do oitavo mês de gestação e durante os três primeiros meses do bebê, o regime de exercícios domiciliares. Isto é, a estudante tem o direito de realizar as atividades estabelecidas pelos professores em sua própria casa.

Para bolsistas de pós-graduação, desde 2010 as agências de fomento Capes e CNPq garantem uma licença maternidade de 4 meses para casos em que o parto ocorra durante a vigência da bolsa, garantindo assim a prorrogação do prazo e do pagamento da bolsa por este período.

Entretanto, é preciso notar que a licença de 4 meses ainda é insuficiente. Já é sabido como é importante para o bebê mamar leite materno exclusivamente pelos primeiros seis meses de vida, assim, não faz sentido que a licença seja inferior a este tempo.

estudar

Mas e quando a licença acaba? E mães que entram na graduação ou pós-graduação já com filhos? É preciso invariavelmente contar com a ajuda de familiares para conseguir assistir as aulas? Para conseguir ler, estudar para as provas, pesquisar, escrever? E quem não conta com uma rede de apoio, faz como? Aonde deixa as crianças? Que estudante – seja de graduação, ou mesmo aqueles que recebem bolsa de mestrado ou doutorado – tem dinheiro para pagar uma creche para colocar seus filhos enquanto estuda?

A luta por creches universitárias é uma reivindicação antiga, mas são poucas as universidade brasileiras que as mantêm. Associando-se as duas medidas, licenças maternidade e creches universitárias, evita-se o trancamento de matrícula ou mesmo evasão, e garante-se que a mãe possa continuar a estudar e pesquisar.

Medidas fundamentais como estas poderão ter efeitos bastante palpáveis mais à frente na academia e ciência brasileira. Por exemplo, ontem o Jornal O Globo publicou a reportagem “Pesquisa mostra que ciência brasileira é dominada por homens”. De acordo com a pesquisa do Programa Mulher e Ciência do CNPq, apenas 22 pesquisadoras com menos de 40 anos recebem a bolsa de pesquisa do CNPq no nível mais alto de produtividade, contra 136 homens. Não é surpresa notar como as faixas etárias de menor representatividade feminina nas bolsas de pesquisa coincidem justamente com a idade reprodutiva das mulheres. As dificuldades de se conciliar carreira e maternidade são apontadas pelas pesquisadoras entrevistadas na reportagem como um dos motivos para que a entrada das mulheres no sistema de bolsas de pesquisa seja mais tardia do que a dos homens.

Outro movimento importante é a luta de mães e pais pelo direito a viver na moradia estudantil com seus filhos. A página no facebook “Mães, pais e filhos: seu lugar na universidade” reúne discussões e mobilizações sobre a questão. Permitir que crianças tenham seu espaço na moradia estudantil é não fechar os olhos para as mães estudantes, é não ignorar que mães – e, consequentemente, seus filhos – também fazem parte da universidade.

Na Universidade de São Paulo, há uma moradia compartilhada entre mães e pais estudantes e seus filhos. Ano passado, as Mães da USP fizeram um vídeo de apoio a uma mãe estudante da Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) que foi obrigada a deixar a moradia estudantil após o nascimento de seu bebê. Como é possível ver nos depoimentos do vídeo, o direito à moradia estudantil pode fazer a diferença entre estudar ou não estudar. Então quer dizer que mulher que tem filho não tem direito a estudar?

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