Mãe, a culpa não é sua

Hoje publicamos uma reflexão emocionante de uma jovem feminista sobre a relação entre mãe e filha num mundo patriarcal. Obrigada, Gaia Aine, pela autorização. 

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Desde que me entendo por feminista algo dentro de mim sempre me dizia que era importante e preciso falar de maternidade, entender qual é a da maternidade em contexto patriarcal. Enfim, existem milhares de textos e relatos de experiências de mães feministas falando sobre violência obstétrica, amamentação, maternidade compulsória etc mas eu gostaria de escrever enquanto ”o outro lado”, enquanto filha (por mais que eu tenha um certo problema com relatos de experiência para esse tipo de coisa).

Acho que a relação dos pais com os filhos nunca é algo fácil, mas a relação de mãe e filha é ainda mais caótica. Um ciclo destrutivo de brigas e culpas nos tempos mais turbulentos e de cumplicidade nos tempos de necessidade. Uma cooptação incrível para que vocês não tenham seus momentos sozinhas, suas conversas de mãe e filha. Ela sempre vai estar lá pra afirmar que ela é sua melhor amiga, mas na altura dos seus 12 anos de idade você não vai acreditar. Você vai fazer pouco caso dos avisos dela. Você vai chamá-la de paranoica. E você vai se arrepender disso. E ela vai se arrepender de muitas outras coisas. Vai se arrepender de não ter sido mais severa contigo. Ou vai se arrepender de ter sido muito severa. Mães se culpam constantemente. Quem nunca ouviu um ”onde foi que eu errei?” da sua mãe quando ela pegou você fazendo algo que ela desaprova (ou que ela só desaprova porque sabe que a maioria das pessoas vai desaprovar e vai acabar pesando pra ela)? Acontece que pouquíssimas (quase nulas, vamos combinar) foram as vezes que alguém foi até ela para dizer ”a culpa não é sua”.

E é sobre isso que eu quero falar. É isso que eu quero dizer: MÃE, A CULPA NÃO É SUA. A culpa não é sua por eu arranjar confusão em cada metro quadrado que eu piso. A culpa não é sua pelas vezes que eu enchi a cara até ”fazer feio”. A culpa não é sua pelas vezes que eu resolvi sujar a casa inteira de tinta. A culpa não é sua por eu me sentir culpada por tudo que eu faço, pelos prazeres e desprazeres da vida. A culpa não é sua por você não gostar do jeito que eu me comporto, me visto ou me apresento. Eu sei que pra muitas é difícil compreender isso mas quando a sua mãe cobra que você tenha certo padrão de beleza ou comportamento ela está se cobrando também. É a reprodução de um ideal de bosta que destrói você, ela, todas nós. Quando um homem diz que uma mulher não pode subir uma escada, ele pode subir. Quando uma mulher diz que outra mulher não pode subir uma escada, ela também não pode.

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Foto de Renato Araujo para a Agência Brasil. Alguns direitos reservados.

Parece ridículo eu escrever isso tudo porque eu sei que na próxima briga que nós tivermos eu vou culpá-la de novo. E, de novo, eu vou tentar me controlar e me tocar de uma vez por todas que a culpa não é dela e que eu não sei o que é ser mãe e ser cobrada sempre por aquilo que sua filha é ou deixa de ser. Eu não sei de tudo, mas eu imagino a quantidade de coisa que minha mãe ouve sobre mim por aí. Na mesa com as amigas ou com as irmãs enquanto todas falam sobre o namorado das suas filhas, ela vai se culpar. ”Ah, mas também, você deixava ela usar aquelas roupas e brincar com aqueles brinquedos…”. E quando todas falarem do quão lindas e maravilhosas suas filhas estão, ela vai se culpar. ”Não acredito que você deixou ela cortar aquele cabelão”. Eu realmente não sei como ela lida com esses comentários mas eu só queria que ela soubesse que, seja lá o que for, não é culpa dela. O mundo não termina em nós duas.

Ela não é a única responsável pela minha educação. Acho que quando nós vemos que para uma mãe ”falhar em seu papel de maternidade” é falhar na vida, é sinal de que tem algo muito errado aí. Tem gente pesando demais nas mães. Tem uma sociedade inteira. Há muito, muito tempo. Eu não pretendo ser mãe, mas também não pretendo ser aquela que vai ficar calada diante disso. Eu pretendo ser aquela que ainda vai conseguir, depois de uma briga, abraçar minha mãe, olhar nos olhos dela e dizer ”a culpa não é nossa”. Eu pretendo ser aquela que vai esmagar um paradigma tosco de que mãe e filha não podem ser amigas. Eu pretendo ser aquela que vai estar lá quando ela precisar. Eu pretendo alertar pras garotas o quão incrível pode ser conhecer melhor sua mãe. Não é fácil. Não é nada fácil. Mas só de tentar já é uma resistência enorme. A culpa não é nossa e, sim, nós podemos aprender a gostar uma das outras (apesar dos pesares). Eu acredito que isso também é feminismo.

Gaia Aine. Estudante de Ciências Sociais. 17 anos de desenhos com traços fortes e borrados. Ativista lesbofeminista.

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