Como nascem os índios

*Texto de Nádia Recioli

A história se repete e se repete e se repete. Estive por dois anos vivendo em uma aldeia Kaiowá no Mato Grosso do Sul e via todos os dias as consequências do processo de colonização se desdobrarem bem diante dos meus olhos. Com os Kaiowá aprendi como funciona o mecanismo de destituição de saberes e consequente desempoderamento a que cada etnia humana, inclusive a nossa², tem sido sistematicamente submetida em nome de um saber (que é na realidade um poder) hegemônico.

Enquanto doula que sou, decidi realizar uma série de entrevistas entre as mães Kaiowá no intuito de entender melhor como funciona a realidade perinatal nos dias atuais para um povo que tem sofrido a violação cotidiana de seus direitos básicos das mais diversas e perversas maneiras. Ao longo das conversas, pude perceber que as preocupações e dificuldades relacionadas à maternidade entre as Kaiowá são diferentes das observadas entre as não indígenas, além de, em sua maior parte, se deverem justamente às consequências do contato entre essas sociedades.

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Mãe Kaiowá e seu bebê. Foto de Nádia Recioli. Todos os direitos reservados

A dor do parto, essa grande “assombração” entre as não indígenas, não chega nem a ser uma questão. As mulheres Kaiowá jamais “comeram o fruto proibido” (não porque não comeram, mas porque não era proibido), e sua ancestral mais antiga não foi responsável por algum pecado original, de forma que elas não foram condenadas a terem suas “dores multiplicadas” na hora do parto. Ao contrário, os relatos, especialmente das rezadoras, indicam o quanto o parto realizado segundo sua cultura tradicional é mais rápido e menos doloroso do que no hospital. Há remédios, rezas, rituais e tratamentos específicos para cada etapa da gestação, parto e puerpério. Também os maridos sabiam como ajudar suas esposas nesse momento. As parteiras eram as próprias mães e sogras e as mulheres também sabiam parir sozinhas. Elas caminhavam ou balançavam na rede, que cumpria a função da bola suíça, do rebozo e da banqueta de parto, ajudando a colocar o bebê na posição correta e servindo de apoio durante as contrações. O umbigo tratado com takuarusu cicatrizava mais rapidamente do que aquele tratado “com álcool” no hospital. O remédio feito a partir do ywyxĩ ou do rabo da enguia ajuda a “nascer mais rápido”. O milho branco e a xixa que é feita dele garantem a produção de leite. E também há remédio nativo para cicatrizar o seio se for preciso. O “planejamento familiar” era feito através de remédios (encontrados no mato) para não ter filho logo após o casamento e para cessar de ter filhos quando esses fossem suficientes, sem precisar de uma cirurgia para isso. Essas pessoas eram, definitivamente, empoderadas!

Essa realidade começa a mudar drasticamente no exato ponto de contato com uma outra sociedade, que preza pelo controle de tudo o que é vivo e natural e que traz outros saberes, dos quais o Kaiowá até então não dispunha. A partir daí o indígena, em seu processo de integração, passa a ser gradativamente extirpado de seus conhecimentos e poderes, porque estes já não são autorizados. Da condição de pessoa livre e autônoma, o Kaiowá passa à condição de “miserável e ignorante”. Os seus saberes ancestrais não têm validade dentro da ordem do discurso de uma sociedade que cresce a seu redor e o confina. E não é preciso enfatizar a violência com que acontece esse processo.

Nesse contexto as mulheres Kaiowá foram e têm sido empurradas a terem seus filhos no hospital, sem poder mudar de posição, sem poder rezar e tomar remédios do mato (agora difíceis de encontrar), sendo acusadas de terem seus filhos cedo demais (como sempre foi em sua cultura), de terem filhos demais (como sempre foi em sua cultura), de terem comido “a maçã” (que foi trazida da Europa junto com todo o resto), de não seguirem as normas, e por diversas vezes sendo “cortadas” (sendo que esse sim é o maior medo que elas demonstram em relação ao parto).

Além da coerção do sistema de saúde que não possui infra-estrutura para amparar mães indígenas que venham a ter seus bebês em casa; as mulheres mais jovens também foram educadas no sistema escolar convencional e assim ensinadas a acreditar na ciência do não índio, o que as faz duvidar de certos ensinamentos dos mais velhos. Muitas se tornaram evangélicas, o que as leva, além de descrer, a demonizar as rezas dos caciques. Então frequentemente as jovens mães preferem ter seus filhos no hospital, conforme foram orientadas no posto de saúde. Já não sabem parir segundo sua tradição e também não compreendem os termos médicos, lhes restando se submeter a quaisquer procedimentos e aceitar as regras sem questionar. Com pontos de cesariana, passam a ter sérias dificuldades em trabalhar na roça. Precisam então de auxílios do governo. Se tornam cada vez mais dependentes e assim o cerco vai se fechando.

As principais preocupações que colhi nos relatos dessas mães são justamente sobre como conseguir criar esse filho, como alimentá-lo em um contexto em que a agricultura se tornou difícil e em que as crianças parecem já “nascer sabendo a comida do branco”: querem arroz, macarrão, bolacha e refrigerante em vez de milho, batata, mandioca e xixa. Não se pode plantar esses produtos industrializados, é preciso comprá-los. E dificilmente o índio consegue um trabalho que vá além da semi-escravidão que lhe oferecem nas plantações de cana, milho e soja. Também não se consegue mais uma boa caça ou frutos da mata, até a pescaria é mais difícil nos dias de hoje.

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Momento de reza das nhandecy (as rezadoras, em tradução livre). Foto de Nádia Recioli. Todos os direitos reservados

Essa história é relativamente recente, se dá em poucas décadas, e serve como uma lupa para que possamos pensar sobre como foi que nós, não indígenas de herança cultural europeia, historicamente desaprendemos a parir. Por nossos próprios caminhos e graças ao trabalho dedicado de muita gente, encontramos hoje uma medicina baseada em evidências que nos devolve a possibilidade de (re)aprender o que ancestralmente a humanidade sempre soube. Para as Kaiowá porém, a possibilidade de uma assistência humanizada ao parto passa longe, ao mesmo tempo em que os conhecimentos e costumes tradicionais são inaceitáveis para a lógica do sistema de saúde vigente e portanto coibidos por este. O controle se alastra e o que percebo é que mesmo o não indígena mais bem intencionado ainda acredita que deve ensiná-las, orientá-las e ajudá-las. Porque equivocadamente costumamos acreditar que nós temos o conhecimento e elas não. Elas, por sua vez, já aprenderam, há alguns séculos, que é mais seguro agradecer e dizer sim. Já aprenderam que no mundo “dos brancos”, em meio a tantas palavras técnicas difíceis, são elas que “não sabem”.

Em uma das entrevistas, quando perguntei a uma mulher quantos filhos ela teve, ouvi como resposta algo como “nove, mas morreram cinco”. E eu havia estado pouco tempo antes no enterro do marido dessa mulher. Pensei na sua dor e me lembrei do médico, no Centro Obstétrico do HU perguntando em tom de “brincadeira” à minha doulanda indígena (durante o parto de sua segunda filha) se ela pretendia montar um time de futebol. O que esse médico não compreendeu em absoluto é que ele vive no estado brasileiro com os maiores índices de violência contra os povos indígenas; e que os filhos dessas mulheres correm o risco diário de morrer assassinados, atropelados ou vítimas de suicídio³. Depois ele prosseguiu, ao ver que ela tinha 16 anos, em dizer que ela “é uma criança, que deveria estar na praia de biquíni, e não tendo filhos com essa idade”. Não, não é! Ela é uma mulher, casada, que devia estar parindo sua filha de preferência longe desse homem que nada sabe sobre ela e ainda assim exerce indiscriminadamente o seu poder. Em outro relato uma indígena disse ter ouvido da médica que deve-se ter três filhos no máximo e então fazer uma laqueadura4. Se uma mãe precisa ter nove filhos para que quatro sobrevivam até o fim da adolescência… O que aconteceria se ela tivesse apenas três?

Sei, infelizmente, que perante essa sociedade que o cerca por todos os lados o índio ainda é “aquele que deve morrer”5. E mais que isso, é também aquele que não pode saber, que deve não falar e, em última instância, é aquele que não deveria nascer (ou que deveria nascer menos).

No entanto, a força Kaiowá está em sua capacidade de resistir e em saber guardar aquilo que é sagrado. Com mais de 500 anos de contato, as parteiras ainda estão vivas, apesar de idosas; os remédios são usados, mesmo que em segredo; e sempre que for necessário alguém irá se lembrar das rezas. É importante nos darmos conta de tudo o que nós, não indígenas, temos a aprender com os povos originários, com as mães e mulheres indígenas. Aprender sobre sua realidade é a melhor forma de colaborar com elas. Assim como enxergar sua sabedoria ancestral é o melhor espelho para nossa própria força.

Notas:

1 Cf. Aprenda a nascer com os índios, Parto de cócoras e Aprenda a viver com os índios, de Moyses Paciornik.

² Embora eu seja de fenótipo mestiço, descendente de africanos, indígenas, italianos e portugueses, me refiro aqui à hegemonia de uma herança da dominação cultural europeia, que impregna, formata e referencia os nossos sistemas de crenças e valores.

³  Desde 2003, o Mato Grosso do Sul é responsável por 56% dos assassinatos de indígenas no Brasil (dados do Relatório de violência contra o povos indígenas no Brasil, publicado pelo CIMI). Isso sem falar nas mortes por atropelamento e suicídio, descaso das entidades de saúde, entre outras tantas violações.

4 A exemplo do que acontece em muitos lugares do mundo, no Peru as mulheres indígenas têm sido vítimas de esterilizações forçadas:

5 Referência ao “documento de urgência” Y-Juca-Pirama – O Índio: aquele que deve morrer, assinado em 1973 por um grupo de bispos e missionários, como uma denúncia à política indigenista do país nesse período (era então o quarto ano do governo Médici).

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