Nós reivindicamos!

Se você algum dia conversou com alguma mulher ativista, ou leu algum texto em algum blog feminista, sabe: 8 de março é dia de luta. Nós também homenageamos todas as guerreiras que nos precederam, e comemoramos o resultado de suas lutas, mas a homenagem e a comemoração nada têm a ver com as qualidades “inerentes” desta “feminilidade” tão exaltada neste dia: não é pela nossa “beleza que encanta o mundo”, nem pela nossa sensibilidade ou delicadeza universais.

E quando falamos das mulheres mães, não é esse reconhecimento vazio pelo “dom da vida” que buscamos. Este texto nasce do entendimento de que há opressões específicas pelas quais passam mulheres que gestam e/ou criam crianças. E da constatação de que muitas das opressões impostas às mulheres ocorrem inclusive por causa e por meio de tal possibilidade e papel social. Este texto é uma reivindicação coletiva, e traz o que nós, mães feministas do FemMaterna, queremos neste dia 8 de março.

Quando falamos, por exemplo, que as mulheres ainda não conquistaram a autodeterminação de seus corpos, falamos especialmente daquelas que levam adiante gravidezes e se tornam mães à revelia, pela falta de uma política de planejamento familiar completa. E por isso nós mães feministas reivindicamos irrestrita informação a respeito de métodos contraceptivos e sua adequada distribuição. E reivindicamos também a descriminalização do aborto, haja visto que a proibição apenas empurra milhares de mulheres para as sequelas e a morte, muitas delas que já são, inclusive, mães de outras crianças.

Nós mães feministas reivindicamos que a maternidade deixe de ser – como é para muitas – uma imposição legal e social.

Falamos também das milhões de mulheres humilhadas e agredidas durante sua gestação e parto. Silenciadas, amarradas, cortadas contra a sua vontade, e que, portanto, não podem sequer escolher de que maneira parirão seus filhos. Por isso, nós mães feministas reivindicamos assistência humanizada à gestação e parto, gratuita e em todo o Brasil. Com casas de parto e maternidades bem equipadas, com profissionais treinados para oferecer atendimento profissional, gentil e livre de preconceitos. Especialmente para as mulheres em situação de maior vulnerabilidade: as negras, as adolescentes, as pobres, as lésbicas, as solteiras…

Nós mães feministas reivindicamos que gerar e parir uma criança envolva satisfação e respeito, para todas.

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Nascimento de Ana Clara, filha de Ana Paula Vasconcelos. Foto de arquivo pessoal. Todos os direitos reservados.

Quando falamos da divisão desigual de trabalhos domésticos que ainda persiste, falamos principalmente de mães sobrecarregadas. Que arcam não só com o todo, ou ao menos com a maior parte, dos cuidados com a casa, mas também com o todo, ou ao menos a maior parte, dos cuidados com os filhos. Situações de ainda maior desigualdade se verificam entre mães separadas ou solteiras, que muitas vezes não contam com nenhuma assistência paterna. E são questionadas aquelas que não “se sacrificam”. Como se a vida de uma mulher que é mãe devesse se efetivar a partir da anulação completa de si mesma, para uma dedicação exclusiva aos rebentos. Não se admite nenhum cenário em que os filhos não figurem como prioridade em primeiríssimo lugar. As que abrem mão da guarda são anormais, as que trabalham o dia inteiro, insensíveis, as que preferem fazer alguma atividade que não envolva o filho em seus momentos de lazer, egoístas.

Nós mães feministas reivindicamos parceiros que se responsabilizem, pais que assumam sua parcela – igualitária – dos cuidados e o fim dos julgamentos com relação às diversas escolhas de maternagem.

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Quando falamos das desigualdades no mercado do trabalho, falamos também do preconceito de empregadores com as mulheres justamente pela possibilidade que elas carregam de se tornarem mães. O afastamento durante a licença maternidade, a necessidade de horários mais flexíveis, as saídas para atender a imprevistos, tudo é visto como um estorvo, um impedimento para que o patrão lucre mais com a força de trabalho daquele empregado. Quando empregadas, mulheres são desconsideradas para cargos de chefia também pelas mesmas razões. E se essa mulher já é mãe, ainda precisa buscar soluções para garantir a segurança de seus filhos durante a jornada de trabalho, já que são poucos os locais que contam com creches próprias, assim como a oferta na rede pública não atende à grande demanda. Somem-se a isso o período curto de licença maternidade – incompatível com a recomendação da OMS sobre o tempo mínimo para amamentação exclusiva; o tempo ínfimo de licença paternidade; e a já citada desigualdade no cuidado com os filhos, e temos muitas mulheres que desistem de suas carreiras, pela dificuldade de conciliação com a maternidade, ou que assumem jornadas extenuantes, já que abandonar o trabalho remunerado não é uma possibilidade.

Nós mães feministas reivindicamos uma política de Estado mais efetiva para as mães trabalhadores, incluindo acesso universal a creches públicas, licença maternidade estendida para seis meses; criação de licença parental; e estímulo para que as empresas também adotem medidas de acolhimento aos funcionários com filhos.

Foto de Tânia Rego para Agência Brasil. Alguns direitos reservados.
Foto de Tânia Rego para Agência Brasil. Alguns direitos reservados.

Quando falamos de violência doméstica, falamos de muitas mulheres que permanecem com seus companheiros agressores, por medo de não conseguirem sustentar seus filhos. Mulheres que suportam agressões caladas, para protegerem seus filhos da mesma agressão, ou do abalo emocional. Mulheres que não vão embora por medo de que essa decisão coloque em risco não somente suas vidas, como a de suas crianças. Por isso, nós mães feministas reivindicamos rapidez na concessão de medidas protetivas; proteção policial adequada para mulheres ameaçadas; a criação de quantas casas-abrigo forem necessárias para acolher mulheres vítimas com sua família; e qualificação profissional para que essas mulheres consigam assumir o sustento da família com dignidade.

Nós mães feministas reivindicamos que a maternidade não aumente a vulnerabilidade de mulheres frente à violência doméstica. Pelo contrário: pese, ainda mais, como argumento em favor de políticas pela sua erradicação.

Nós mães feministas reivindicamos estas questões, entre outras, porque as entendemos como direitos. E também porque entendemos que o trabalho materno serve a toda a sociedade. Se o núcleo familiar consolidou-se como base de nossa organização social, o trabalho das mães é, portanto, de maneira inequívoca, um dos mais essenciais para a formação das futuras gerações. É dever de todos reconhecê-lo e dar a sua contribuição para facilitá-lo. E, mais do que isso: é imperativo que todos assumam sua parcela de responsabilidade, para que alcancemos a devida socialização dos cuidados.

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