Todo mundo vê a homofobia mas ninguém quer se responsabilizar por ela

A notícia circulou nesta semana: um garoto foi espancado pelos colegas da escola e veio a falecer. Ninguém ainda sabe se a morte está diretamente relacionada às agressões que ele de fato sofreu. O que se sabe é o que o delegado do caso informou aos pais que o garoto teria sido espancado pelo fato de ele ser filho de gays.

A repercussão do caso ganha contornos de um terrível acidente. Ouvi gente dizendo que crianças e adolescentes brigam por qualquer coisa pois faz parte da idade, não tem como evitar, foi uma fatalidade. Ouvi que a briga teria ocorrido fora da escola, e que por isso a escola não teve nada a ver com a história. Também ouvi que não há provas de que as crianças teriam matado a outra, pode ter sido mesmo só um acaso e que não há motivo para tanto barulho.

O problema que ninguém quer assumir é: precisa um adolescente morrer apanhando por ser gay ou filho de gay para alguém tomar alguma providência? É disso que a gente realmente precisa pra colocar a mão na consciência? Já não é suficiente a agressão em si?

No senso comum, bater em gay é o normal e aceitável. É o esperado: é a punição por ser diferente. Tanto é assim que qualquer movimento para se colocar nas escolas matérias que ensinem a respeitar gays – isto é, fazer com que eles tenham integridade física e direito à vida – é encarado como ideologia, doutrinamento. A sociedade não permite que o tema seja abordado nas escolas pois teme a aprovação de um modo de vida que ela condena.

Como se isso não bastasse, a mesma sociedade que proíbe o debate – por achá-lo “doutrinamento” – também proíbe que se criem leis de proteção aos gays, a exemplo de tornar crime a homofobia. Argumenta-se que o risco de morrer por ser gay equivale ao risco de morrer em um assalto – e que a vida de um gay não pode valer mais do que a vida de quem morre num assalto. Essa é a manobra retórica para se retirar da justiça a responsabilidade de se fazer algo em defesa dos gays.

Marcha do Dia Mundial do Orgulho LGBt no Rio de Janeiro. Foto de Fernando Frazão para a Agência Brasil. Alguns direitos reservados.
Marcha do Dia Mundial do Orgulho LGBT no Rio de Janeiro. Foto de Fernando Frazão para a Agência Brasil. Alguns direitos reservados.

Quando um casal gay decide adotar uma criança ou mesmo conceber uma, a reação do senso comum é: são uns irresponsáveis, vão colocar em risco a vida dessa criança, que sofrerá toda a sorte de preconceitos apenas por capricho de gays vaidosos. Eu, mãe bissexual em relacionamento lésbico, fui advertida sobre esse perigo. Esse estranho perigo de escolher viver com uma mulher e criar minha filha com ela. Mas o perigo não somos nós, exatamente: é o que a minha filha vai sofrer da sociedade por ser filha de quem é. Em outras palavras: não é a sociedade que é violenta, somos nós os egoístas. Essa é a culpabilização de quem já sofre com o preconceito diariamente.

Poderia escrever um texto ainda mais longo sobre todas as retóricas que conheço para fazer de conta que homofobia é apenas um acaso, uma exceção, algo que aparentemente não é da responsabilidade de ninguém…. E não a violência social sistemática que funciona com o aval de muitos, em todas as esferas da sociedade. Mas temo não ter tempo suficiente para isso.

Hoje só vou pedir uma coisa: que cada pessoa interessada em lutar pela integridade física de gays e pela vida deles possa assumir o papel de educador de uma terceira pessoa. Porque isso já não é mais um problema restrito à escola ou ao judiciário – que são sim, coniventes. A gente sabe que existe a omissão – mas a omissão só é possível porque muitos assim o querem.

Por isso, repito: a gente vai precisar de todo mundo, do mais simples e humilde, até o mais letrado, ocupante de altos cargos da hierarquia. Está na hora de educar o próximo no seu ambiente de trabalho. Todo mundo pode interferir quando alguém insistir em contar piadas homofóbicas. Todo mundo pode interromper um ciclo de violência na sua família, na sua comunidade. Hoje nós não podemos abrir mão de nenhum espaço, seja na televisão, seja no ônibus, na padaria, na igreja, no caminho de volta para casa. Hoje todo mundo que educa para erradicar a homofobia é bem vindo.

Hoje eu convido cada leitor desse texto para refletir: o que vocês fez de concreto para proteger a integridade física e a vida dos jovens gays ou filhos de gays? Que tal começar reconhecendo que essa violência existe e precisa ser combatida? Que tal deixar de minimizar um caso de violência como um acaso qualquer? Que tal não culpar pais e mães gays por decidirem criar filhos? Tudo isso seria um ótimo começo.

 

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