Tirando satisfação com as mães: até quando?

Eles são aqueles filhos que fazem besteiras diversas – e até crimes cometem: agridem mulheres, pregam violência contra elas, espalham preconceito e ódio por onde passam. Podem ser adolescentes ou homens com barba na cara e 40 anos nas costas. Mas são as mães deles que a imprensa – e o público em geral – estão procurando para tirar satisfação.

Foi assim com Bolsonaro. Ele falou uma grande bobagem em relação a mães? Vamos ver o que a mãe dele acha disso. O garoto vazou foto íntima da namorada? Vamos ver com quantas chinelas a mãe dele vai corrigi-lo. Foi assim com a jovem que navegava na internet e recebeu uma ameaça de estupro: comunicou a mãe do rapaz e parece que o caso foi encerrado.

De repente a mãe se transforma numa espécie de polícia que também é justiça, e ela não só tem o poder de “prender” como também de “aplicar penas” aos seus filhos que apresentam comportamento “inadequado”. Como se ela tivesse a responsabilidade pelos crimes que suas crias – sobretudo homens – cometem por aí. E como se ela tivesse o super poder de impedir uma reincidência.

E quando as mães falham? Aí a gente hostiliza. A mãe, é claro. Não é o cara que é babaca: é a mãe dele que não presta. Não é o cara que é um grosso: a mãe dele é que não deu educação pra ele. O pai? O pai nunca é chamado na conversa: é uma figura que ninguém ousa responsabilizar. Para jogar pedras já existe a mãe.

A pergunta é: até quando? Até quando mães serão responsabilizadas pelo que seus filhos adolescente e adultos fazem de condenável? Por que a sociedade tem um sério problema em responsabilizar seus jovens e homens pelas ações – criminosas ou não –  que eles próprios cometem? O adolescente que comete um crime é encaminhado para medidas socioeducativas – o adulto deve responder na justiça. E nós, enquanto sociedade, deveríamos nos perguntar qual a nossa responsabilidade no ocorrido – estamos sabendo coibir esses comportamentos?

kevin
Cena do filme “Precisamos falar sobre Kevin”. Foto: Divulgação

O cinema já retratou esse fenômeno de culpar as mães que parece ser mundial: o filme “Precisamos falar sobre o Kelvin” conta a história de uma mãe que lida com um “filho-problema”. O garoto em questão chegou a matar vários adolescente na escola onde estudava, entre outros comportamentos agressivos. E a mãe dele foi hostilizada  por diversas vezes pela comunidade local: vandalizaram a casa dela; quebraram os ovos dela no carrinho de supermercado; ela já não podia sair na rua sossegada, vivia se escondendo. Porque como se não bastasse o grande problema que precisava enfrentar em relação ao filho, ainda precisava lidar com as pessoas da comunidade, que a julgavam o tempo todo.

Da onde vem essa necessidade de julgar as mães?

Nós, mães – e porque não avós, madrastas… –  somos responsáveis pela criação de nossos filhos até uma certa idade. E mesmo assim, até onde a gente pode cuidar, não somos as únicas formadoras de nossas crianças: em casa elas convivem com os pais e irmãos, tios e tias, elas frequentam a escola, brincam na rua, assistem televisão, vão ao cinema, interagem em diversos espaços onde também aprendem e desaprendem coisas. Há todo um universo de eventos e fatores que faz com que nossos filhos se comportem de uma maneira ou de outra, nem sempre de acordo com o que queremos.

Nós, mães, também nos frustramos. Sentimos uma dor enorme no peito quando um filho faz algo de muito errado. Ficamos quase tão perplexas quanto as pessoas que teimam em nos apontar os dedos. Às vezes carregamos o peso desnecessário de uma culpa que nos é imposta, como se fôssemos donas das vidas de quem colocamos no mundo.

É um clichê, mas aqui é verdadeiro: nossos filhos são do mundo. A gente é só o primeiro contato – importante, sem dúvida. O que a gente ensina, dizem, tem reflexo pra vida toda daquele ser humano. Mas tudo? Não. Não somos tudo. Estamos muito longe disso. As crianças crescem e se tornam pessoas responsáveis por si mesmas – na maioria das vezes. Quando isso não é possível e quando a gente falta, é o mundo mesmo que toma conta.

Por tudo isso, fica o apelo: resista à tentação de culpar as mães. Precisamos respeitá-las. Não porque elas são santas, mas porque são seres humanos. Exatamente como as pessoas não mães. Falham também, sem dúvida. Mas no lugar de julgá-las, vamos pensar sobre nós e nossas responsabilidades enquanto atores sociais que também influenciamos e ajudamos a formar as crianças e adolescentes que estão perambulando por aí. Quanto aos adultos, que sejam responsabilizados legalmente: que respondam na justiça pelos seus atos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s