A maternidade livre culturalizada

*Texto de Laura Assum Preto

Vou começar falando de uma vespa, a mesma vespa que Rubem Alves fala em um dos capítulos do livro “Conversas com quem gosta de ensinar”. Essa vespa…

…famosa e conhecida, que pode ser vista pelos campos numa eterna caçada que se repete há milhares de gerações. A vespa procura uma aranha. Trava com ela uma luta de vida e morte. Pica-a várias vezes, paralisando-a viva. Arrasta-a, então, indefesa,para o seu ninho, num buraco na terra. Deposita seus ovos. Depois disso sai e morre. Tempos depois nascem as larvas que se alimentarão da carne viva da aranha. Crescerão sem ter nenhuma mestra que lhes ensine o que fazer. A despeito disto, farão exatamente o que fizeram sua mãe, sua avó, e todos os ancestrais, por tempos imemoriais…

Imagine você que esta vespa não se preocupa com quem vai ensinar as larvas a viver. As vespas contém uma interação solidária entre conhecimento e corpo. Já nós, seres do mundo da cultura, temos de inventar maneiras de ser por meio de convenções. Não conseguimos, como as vespas, fazer o que nossos ancestrais sempre fizeram, sem que para isso recorrêssemos à memória cultural que somente a linguagem nos possibilita. Seres de linguagem. Esse instrumento de interação social nos permite reproduzir atos socialmente (ou compulsoriamente?) construidos. E daí criamos por necessidade de manutenção da espécie o modelo de cuidado que com o passar dos tempos vem sendo reproduzido das mais variadas formas. Atualmente ele é tratado essencialmente como um conceito. Aliás, e o que não é? E foi nessa conceituação que eu me perdi no mundo da maternagem aos 29 anos de idade. As vespas não cuidam de suas larvas, mas as mães, ah essas devem cuidar de suas crias. E o que implica esse cuidado? Nessa construção social, a cilada está em pensar que o cuidado é uma característica essencialmente feminina, enquanto a ética (e todas as  deliberações sociais que ela implica) é uma experiência masculina. Convenhamos, isso é mesmo uma cilada.

Não é de se estranhar que, numa sociedade essencialmente patriarcal, o cuidado dos filhxs esteja limitado à figura materna. Neste cenário esta configuração é regra, já que a mãe que pariu, ela que cuide. Nesta configuração a atuação do pai concentra-se na figura do chefe da família que alimenta a prole e, teoricamente, oferece os limites morais que a mãe deve transmitir. No entanto, é preciso pensar a divisão social do trabalho dentro das famílias com uma flexibilidade temporal. Há diversas formas de pensarmos  o modelo familiar historicamente e, uma delas, está vinculada ao acumulo de atividades absorvido por mães de famílias pobres. Pensemos, num recorte, em mães brasileiras que vivem em comunidades de renda baixa. Essas mães, além de carregarem o estigma patriarcal do cuidado das crianças, ainda dividem seu tempo entre obrigações do lar e o trabalho fora de casa. Trabalho cuja remuneração é injusta. Neste quadro, a grande maioria das mulheres são negras. No geral, são mulheres, mães, pobres, negras, lutando a favor dos direitos das mulheres e, também, de uma comunidade solidária.

Crianças em creche em Ceilândia, no Distrito Federal. Foto de Antônio Cruz para Agência Brasil. Alguns direitos reservados.
Crianças em creche em Ceilândia, no Distrito Federal. Foto de Antônio Cruz para Agência Brasil. Alguns direitos reservados.

Atualmente, com o advento dos movimentos feministas, o significado dos papeis sociais tem tomado um lugar de maior importância na constituição do modelo social, ou eliminação dele. Vamos considerar, a seguir, uma situação viabilizada pelos debates propostos por estes movimentos, o caso da maternidade livre.

Uma das formas como vem sendo tratado essa reorganização de papeis sociais diz respeito à autonomia da própria mãe como mulher de direitos e desejos. Reforça-se pelo discurso feminista que a mulher tem pleno direito de desejar criar uma criança sem necessariamente assumir o papel de esposa, ou simplesmente desejar não reproduzir. Emma Goldman, feminista estadunidense da primeira metade do século XX, em seus escritos sobre casamento e amor, nos alerta que

Os defensores da autoridade temem o advento da maternidade livre, com receio de que ela roube suas vítimas. Quem combateria nas guerras? Quem geraria a riqueza? Quem faria o papel do policial, do carcereiro, se a mulher se recusasse à reprodução indiscriminada de crianças? A raça, a raça! – grita o rei, o presidente, o capitalista, o padre. A raça deve ser preservada, embora a mulher degradada à mera máquina reprodutora — e a instituição do casamento é a nossa única válvula de segurança contra o pernicioso despertar sexual da mulher. Mas em vão todos estes esforços frenéticos para perpetuar um estado de sujeição

Ora, a maternidade livre não é apenas uma questão moral, mas também, uma questão da esfera econômica e subversiva o suficiente para desestabilizar o que Goldman denunciou como ‘estado de sujeição’. A  esfera econômica mostra-se instável quando não se pode contar com a reprodução da espécie em escala satisfatória ao sistema neoliberal no que nos engole. Penso que há, também, junto à demanda da maternidade livre a desmistificação de que a criação das crianças é exercida apenas pela figura materna que seja cisgênero e heterossexual. Na verdade o modelo de família vigente deve ser superado e contemplar as diversas configurações do cuidado. Particularmente não gosto de usar o termo família, pois acredito que ele carrega o sentido de hierarquia usado no sistema patriarcal. Compartilho do uso do termo comunidade para referenciar atividades relacionadas ao cuidado de crianças, e aqui avançamos um pouco mais.

Para dar corpo a ideia de uma criação comunitária – e aqui não nos referimos aos cuidados imediatos entre mãe e cria, como por exemplo a amamentação, para não gerar debates intermináveis com algumas mães que defendem a criação pela personagem ‘mulher que pariu’ – percebemos, atualmente, uma busca de mães e pais por alternativas que contemplem uma ética do cuidado mais abrangente. Há intervenções possíveis que se assemelham, por exemplo, a comunidades tribais na responsabilidade social do cuidado.

Palmas (TO) - Mãe e filho tomam banho durante as provas de natação e canoagem no Ribeirão Taquaruçu (Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Mãe e filho indígena tomam banho durante Jogos Mundiais Indígenas, em Palmas / TO. Foto de Marcelo Camargo para Agência Brasil. Alguns direitos reservados.

Compartilho aqui um exemplo que estou acompanhando de perto. Na intenção de buscar essa alternativa do cuidado e despir-me das obrigações morais que afeta minha criatividade e diminui meu espírito, encontrei em Belo Horizonte uma iniciativa de um coletivo de revezamento e partilha de cuidados dos filhxs. Essa iniciativa brotou da necessidade de três grupos familiares que já se conheciam e praticavam entre eles o revezamento do cuidado de acordo com a demanda dos membros. A organização entre eles fez-se naturalmente. Uma preocupação inicial foi a diferença de idade entre as crianças (dentro da faixa 0 – 5), mas a surpresa foi verificar com o tempo que elas próprias se habituavam àquele cenário e encontravam modos de se comunicarem e conviverem.  O grupo de mães e pais sentiram que poderiam abrir espaço para que outros cuidadores interessados participassem do que, até o momento, é praticado no revezamento de casas, pois ainda não existe um lugar fixo. Para eles, isso a princípio não representa uma dificuldade na organização do grupo.

Criou-se, então, a ideia de uma roda de conversa para cuidadores que acontece semanalmente num espaço cultural de gestão comunitária. A iniciativa gerou uma expectativa que abrange não apenas a criação de um espaço-creche, mas sobretudo, um espaço-escola que seja gerido pela própria comunidade. Já nos primeiros encontros a roda de cuidadores identificou uma rejeição unânime dos membros à atual rede de ensino do país. Os membros da roda estão inseridos em estudos sobre pedagogia libertária. A pedagogia libertária tem seu fundamento em pesquisas anarquistas sobre educação e pode ser significada, aqui neste texto, na forma como nos mostra Silvio Gallo em seu artigo “O paradigma anarquista em educação”:

Os esforços anarquistas nesta área principiam com uma crítica à educação tradicional, oferecida pelo capitalismo, tanto em seu aparelho estatal de educação quanto nas instituições privadas – normalmente mantidas e geridas por ordens religiosas. A principal acusação libertária diz respeito ao caráter ideológico da educação: procuram mostrar que as escolas dedicam-se a reproduzir a estrutura da sociedade de exploração e dominação, ensinando os alunos a ocuparem seus lugares sociais pré determinados. A educação assumia, assim, uma importância política bastante grande, embora ela se encontrasse devidamente mascarada sob uma aparente e propalada “neutralidade”.

Na necessidade (gerada pela insatisfação da atual demanda educacional do estado, seja ela pública ou privada) de desenvolver uma pedagogia libertária, a roda de mães, pais e demais cuidadores formada no Espaço Comum Luiz Estrela em Belo Horizonte, pretende, num futuro próximo, estabelecer uma rede de cuidadores que possam, também, assumir a educação formal que o estado nos obriga a acolher das instituições públicas ou privadas. Saliento que essa rede tem a intenção de ser auto-gerida, uma forma solidária dentro da comunidade.

Atentemos para a importância de iniciativas comunitárias! Elas nos possibilita autonomia, empatia, criatividade, interação e individualidade positiva que nos permite sermos em meio aos demais.

Voltemos à vespa do princípio deste texto. Não vou comparar nenhuma revolução ao comportamento de uma vespa. Afinal, ela é em seu habitat o que ela pode ser. Mas quando se fala que uma vespa é o que sua natureza permite, lembremos que o que está em jogo para o ser humano, na minha opinião, nada tem a ver com natureza, mas sim com o cultural. E o cultural nós modificamos, resignificamos. É possível pensar num cuidado que não seja engessado numa ínica figura materna, como tem sido apresentado historicamente. É possível pensar que a maternidade, além de livre para não se prender aos modelos tradicionais, é transitória, como nos mostra Carolina Pombo em seu ensaio “A mãe e o tempo”. Essa transitoriedade quer denunciar que, de fato, o cuidado não é uma extensão do corpo da mulher e que a responsabilidade coletiva pela manutenção da vida é uma emergência do nosso tempo.

A luta feminista pela abolição do estereótipo de boa mãe contempla outras resignificações para nossas ações culturais. E, acredite, não é fazendo doações pro Criança Esperança que nós vamos assumir essa responsabilidade social. É metendo a mão na massa em pequenos grupos comunitários! Fazer com que a maternidade livre seja um avanço característico das ações culturais vivenciadas pela contemporaneidade é da maior importância para a luta feminista.

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