Por que o papai foi embora?

A resposta mais direta e honesta para mães e filhos que estejam se fazendo esta pergunta é: porque ele pode. Os papais podem ir embora e muitos assim o fazem.

Dados do Conselho Nacional de Justiça mostram que pelos menos 5 milhões e meio de crianças brasileiras não têm o nome do pai na certidão. E se estes 5 milhões e meio de pais sequer registraram seus filhos, não é irracional supor que também em nada contribuem para o seu sustento e criação. São pelo menos 5,5 milhões de papais que foram embora.

Não há como garantir, além disso, que os pais que aparecem nas certidões de nascimento não tenham ido. O exercício é simples: basta recorrer à qualquer Defensoria Pública, para verificar a enormidade de ações, movidas em favor de mulheres e crianças pobres, para obter o reconhecimento de paternidade e a pensão alimentícia. E quantas também são movidas por advogados particulares, em favor de mulheres e crianças em outras condições financeiras? E quantos homens são presos por não efetuarem o pagamento? E aqui estamos falando apenas de dinheiro e questões que o mundo jurídico alcança.

Dias atrás, vi um filme chamado Entre Nós, que conta a história de Mariana, uma colombiana mãe de dois filhos, que se muda para os EUA, para acompanhar o marido. Mas, estando lá, este homem um dia simplesmente vai embora. Mariana então é obrigada a recorrer a diversos tipos de subocupação – com os filhos a tiracolo – para sobreviver. A família chega a dormir na rua, e a depender da caridade alheia para se alimentar. Em certo momento, o filho mais velho de Mariana dirige a ela a pergunta do título: “Por que o papai foi embora?” Mariana diz não saber. Algumas cenas depois, o próprio menino responde: “Você precisa de muita coisa, por isso o papai foi embora.”

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Cena do filme Entre Nós

A despeito da intenção do garoto de descontar na mãe sua revolta pelo abandono, não tem ele toda razão?

Nós, as mães, precisamos de dinheiro, e de alguém que divida o cuidado de nossos filhos e a tomada de inúmeras decisões. Isso para dizer o mínimo. Uma ‘injusta’ responsabilidade para muitos pais. Precisamos demais e é mais fácil ir embora. Seja literalmente, como o marido de Mariana. Seja por partes, como tantos pais que vivem na mesma casa que a mãe e os filhos, mas não dividem cuidado algum. Ou que vivem em outro lugar, e nunca veem os filhos. Ou que os veem ocasionalmente, mas contribuem com pouco ou nenhum tostão. Ou uma combinação dessas coisas, ou uma versão outra de algum abandono. O fazem com tal desfaçatez, como se não tivessem contribuído, ao menos em 50%, para que aquela criança existisse. Para que o nascimento de uma criança tenha transformado aquela mulher em uma mãe que pede coisas demais.

Se a lógica não está do lado dos pais ausentes, porque diabos eles insistem em achar que podem ir embora?

Porque quem apaga a luz é sempre o último a sair. E quão improvável seria que Mariana também se fosse deixando seus filhos sozinhos para trás?

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Cena do filme Entre Nós

Quando um pai vai embora, na absoluta maioria das vezes, há uma mãe que fica, para preencher todas as lacunas financeiras, práticas e emocionais que aquele pai deixou. O patriarcado já nos apregoa que somos a principal responsável por aquela criança. Junte isso à humanidade básica que impediria qualquer ser humano decente de abandonar uma criança à própria sorte e temos a realidade de milhões e milhões de mãe, em menor ou maior grau. A minha. A de várias companheiras do FemMaterna. De muitas amigas. Certamente, de muitas de vocês que me leem.

“Mas a mulher aceitou ter um filho em um país machista, devia prever o que poderia acontecer”, alguém pode dizer. Na verdade, em um país machista, mulheres são presas se não aceitarem ter um filho e interromperem a gestação. Em um país machista, mulheres são agredidas e estupradas, se não aceitarem ter um filho e dizerem não ao marido que deseja uma relação sexual. Em um país machista, mulheres são discriminadas se não aceitarem ter um filho e levarem consigo ou mesmo pedirem que o parceiro use camisinha. Em um país machista, mulheres casadas são questionadas, se não aceitarem ter um filho, e combinarem todos os métodos possíveis para evitá-lo. Em um país machista, como em qualquer outro país, métodos contraceptivos, ainda que usados corretamente, falham, e mesmo que a mulher os use porque não aceita ter um filho, ela pode ter. E quando esse filho é gestado e parido, independente das condições em que foi concebido, com a contribuição inequívoca do esperma de um homem; e depois é abandonado por esse homem, é realmente a mãe que fica que você quer culpar?

Há algumas semanas, uma manchete ganhou a home de muitos portais. Em algum país que não me lembro, uma mãe foi embora deixando seu filho com síndrome de down com o pai. É um caso clássico de gente mordendo cachorro: acontece com tamanha raridade, que se tornou notícia. Nos comentários, os xingamentos mais diversos foram direcionados à mulher. O pai foi louvado por sua impressionante iniciativa.

Já você, mulher e mãe que vive igual situação, não espere louros, você não faz mais do que a sua obrigação.

 

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