Uma carta para o pai ausente do meu bebê

Recebi esta carta de um amigo. Ela foi publicada no jornal britânico “The Guardian” com assinatura anônima. Convido a tod@s a leitura dessa carta e agradeço em especial à tradução límpida feita pelo amigo Leif Grunewald que estuda etnologia e também possui interesse em parentescos possíveis e impossíveis. A carta dá continuidade à série “pai quando dá” e suas movimentações em torno das presenças, distâncias, paternidades e compromissos de uns em relação ao outros.

UMA CARTA PARA…O PAI AUSENTE DE MEU BEBÊ

– A carta que você sempre quis escrever –

Maja já tem 6 semanas de idade. A lembrança[1] de uma gravidez que parecia interminável e o dia inteiro de trabalho de parto já começam a desaparecer progressivamente e eis que aqui me encontro com um bebê de ossos delicados, belos traços e olhos azuis, que – especialmente quando adormecido, que é quando parece mais bonita – é absolutamente parecido com você. E não foi até o dia que sucedeu o parto que eu percebi o quão parecidos vocês são, o belo movimento dos lábios, os olhos amendoados, a covinha na bochecha direita. Apesar dos 42 dias que já passei com ela, a semelhança entre vocês ainda me é estranha e desconcertantemente dolorosa.

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Foto de Elza Fiuza para Agência Brasil. Alguns direitos reservados.

Você, certamente, nunca saberia porque você nunca a verá. Como parte de sua solução para o problema, você optou por realmente não se inteirar sobre o que quer que fosse daquilo que você chamou ingenuamente de “a situação”, para a qual eu estava relutante de encontrar “solução” – aborto, isto que você nunca chamou, nem mesmo uma vez, pelo nome próprio. Diante de todas minhas questões repetitivas, ofertas e sugestões, tudo o que você insistia em dizer era que “isso” iria “complicar extraordinariamente a sua vida”, sendo complicação também outra dessas palavras que mais mascaram que revelam. É esta a primeira coisa que gostaria de lhe dizer – o quão inadequado achei todo seu vocabulário relativo ao aspecto mais íntimo e mais amado de minha vida: o bebê que carregava em minha barriga.

Eu ponderei incessantemente sobre temas como propriedade e responsabilidade. Graduada em filosofia que sou, foi quase irresistível revisitar em minha memória minhas leituras de Kant, Heidegger e Sartre. Escolha minha. O ser que eu mesma escolhi ser. Eu mesma, fazendo minhas escolhas. E sendo sim, temo dizer que devo concordar com você quando sugeriu que tudo isso é “problema” meu, tê-la carregado, parido, e agora criar esta criança, como se fosse eu, de fato, quem tivesse optado por todas essas coisas, completamente inteirada de que você não estaria envolvido em todo esse processo.

Mas apesar de tudo isso, ainda me sinto chocada com a natureza de seu tom (que interpretei como uma frieza insensível). Me surpreende seu silêncio, dilacerada tanto pela tristeza de não ter sido ao menos indagada sobre o nome ou o sexo de meu bebê quanto pela solidão do que realmente significa criar um filho sozinha. Eu pretendia lhe perguntar, então, isso: exime você de toda responsabilidade o fato de que eu mesma escolhi, e escolhi livremente, tudo isso? Isso eu já lhe perguntei uma vez, e você, sabiamente, não respondeu.

Permaneço, pois, com uma miríade de anseios secretos, sobre os quais eu, obviamente, não lhe contaria. Gostaria de ver fotos suas quando bebê, quando pequenininho, quando passou a frequentar a escola e também fotos de seus parentes do sexo feminino – para procurar em seus rostos os traços de Maja. Gostaria ainda de visitar o local de onde veio, beber vinho com seus pais, desenhar para mim mesma um retrato de algo que nunca tive a oportunidade de ver de perto.

Lhe imagino acordando ao lado dessa outra mulher, quem quer que seja ela; ela nunca saberá desse aspecto da sua vida. Me é difícil imaginá-lo, uma vez que não conheço seu apartamento, mas lhe imagino acordando nele, deitado de barriga para cima com o cotovelo sob a cabeça, pensando sobre seu bebê, um menino ou uma menina, um ou outro, em outro lugar, com outra pessoa, há centenas de quilômetros de distância. Apenas por alguns minutos de vez em quando, e mais raramente a cada ano que passa, e muito brevemente, de qualquer forma.

Suspeito, então, que tudo aquilo que venho criando coragem para lhe dizer é, no fim, a mais comum das coisas: machuca.

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