Sarah Diehl: “tanto mães como mulheres sem filhos sofrem sob o peso da idealização exagerada da maternidade”

Sarah Diehl é escritora, historiadora e cineasta alemã que trabalha na área de direitos reprodutivos das mulheres. Entre seus trabalhos de destaque está o premiado documentário “Democracia do aborto“, que debate as mudanças nas leis de aborto na África do Sul e Polônia e seu impacto sobre as mulheres .

Nesta entrevista ao portal alemão “Der Freitag“, ela aborda como as mulheres continuam sendo julgadas tanto quando escolhem ser mães como quando escolhem não ser. Para ela, é preciso romper com o modelo de família nuclear e buscar outros modelos de convivência em que os cuidados com as crianças não fiquem restritos à figura materna, mas que sejam compartilhados com outros membros da comunidade. “No Canadá, existe agora a possibilidade de uma família ter até outros quatro adultos legalmente reconhecidos como pais ou mães “sociais”, ou seja, com que se possa dividir essa responsabilidade”, exemplificou Sarah Diehl.

O Femmaterna recebeu a indicação desta entrevista pela leitora Ana Luiza Koehler, que traduziu voluntariamente este material. Agradecemos pela indicação e pelo trabalho, Ana!

Desejamos a todos uma boa leitura!

“Um erro histórico”

Der Freitag: Senhora Diehl, geralmente pensamos que nossa sociedade é liberal e moderna, e que mulheres que optam por não ter filhos são aceitas sem problemas. Entretanto, você diz que, ainda hoje, essas mulheres tem que procurar justificar e defender sua escolha. Como entender isso?

Sarah Diehl: Isso ainda ocorre pois a escolha de ter filhos não é aceita e percebida como uma decisão de foro privado, mas como uma questão que pertence à sociedade inteira. Por trás dos modelos de feminilidade e idéias de como uma mulher deve conduzir sua vida estão também exigências políticas.

DF: Quais seriam essas exigências?

SD: Trata-se de determinar quem, na sociedade, exerce o trabalho reprodutivo – o cuidado com a família e o trabalho doméstico -, e de preferência sem remuneração. Isso envolve principalmente a criação dos filhos, mas também – uma vez que a mulher já está comprometida com o lar – o cuidado com os outros membros da família. Trata-se também de saber quem paga as pensões. Estas tarefas deveriam ser distribuídas igualmente entre todos os
membros da sociedade; ao invés disso, o cuidado com os filhos e com a família é visto como um problema exclusivo das mulheres.

DF: Mas já não teríamos superado isso? Hoje em dia, muitos homens também se preocupam com o impacto que um filho ou uma filha terá na vida de suas companheiras, assim como nas suas próprias.

SD: Teoricamente, hoje em dia as mulheres podem ser muito independentes. Só que essa independência é frequentemente questionada pelo argumento de que a mulher é por natureza mais apta aos cuidados familiares e que tem, em função de sua biologia, a necessidade de ter filhos e cuidar deles. Uma mulher voluntariamente sem filhos desafia esse senso comum. Ela mostra claramente que tem outras necessidades. E por isso mesmo são desvalorizadas: imediatamente, já se desconfia de que “há algo errado com ela”. Mas não devemos aceitar esse determinismo biológico.

DF: Você se refere ao conceito de instinto materno?

SD: Sim, pois muitas teorias de vínculo mãe-bebê se baseiam nele para afirmar que só a mãe pode cuidar bem da criança. Todas as outras pessoas da comunidade não poderiam fazê-lo por conta de que seu “cheiro” ou seu “batimento cardíaco”, que não é o “mesmo da mãe”. Estes são argumentos carregados de simbolismo. Seu objetivo é levar a pensar que somente a mulher tem competência para estes cuidados, e acaba sendo uma armadilha para nós todas.

DF: A armadilha de realizar-se como mãe em tempo integral?

SD: Exatamente. Uma vez que a maternidade é um tema que mexe demais com emoções, é muito difícil recusá-la e dizer que não se quer “ter esse trabalho”. Você é vista como uma pessoa sem amor, e quem gostaria de ser visto assim? Especialmente quando outros papéis sociais ainda não são reconhecidos para as mulheres, como a atuação política ou científica, resta às nós a maternidade como único modelo positivo de identidade feminina. Essa visão é socialmente muito reforçada em nós, até por causa de um mercado de trabalho muito precário. Ou seja, não se trata de uma idéia com um fim em si mesma, mas profundamente ligada a fins políticos.

DF: Com que preconceitos é confrontada uma mulher que mulher decide não ter filhos?

SD: Basicamente, diz-se que ela pensa só em si mesma, em sua carreira, que não quer assumir nenhuma responsabilidade nem entrar para a vida adulta. É muito comum que muitas mulheres me relatem que elas mesmas se questionam se não haverá algo de errado com elas, pois mesmo sendo felizes com um companheiro ou companheira, elas não sentem desejo de serem mães. Isso se dá pois faltam outros modelos de identificação positiva para as mulheres além da maternidade. Até em nossos contos de fadas e historinhas infantis a mulher independente e sem filhos é também a malvada, a bruxa.


DF: Essa acusação de egoísmo também não é feita aos homens que não querem ter filhos?

SD: Muito menos. Durante minha pesquisa, notei que muitos dos homens que entrevistei sequer haviam se questionado a respeito, pois eles nunca haviam sido chamados a justificar socialmente esta decisão.

DF: E como é a relação entre mães e mulheres que não desejam filhos? Trocam acusações recíprocas?

SD: Penso que é preciso mostrar que tanto mães como mulheres sem filhos sofrem sob o peso da idealização exagerada da maternidade em nossa sociedade. Por isso, creio que a decisão de não ter filhos por parte de algumas de nós pode ajudar todas as mulheres, pois colocará em questão o próprio conceito de feminilidade. Acima de tudo, trata-se de dar os mesmos direitos às mães e às mulheres sem filhos: eliminar a culpabilização da decisão de ter ou não filhos.


DF: Você conversou com muitas mulheres sem filhos. Que motivos elas dão para terem decidido não ter filhos?

SD: Há mulheres que tiveram uma infância difícil e que não gostariam de repetir esse padrão familiar. Para elas, a família não é um refúgio de amor e carinho. Outras, como eu, dizem que tiveram uma infância maravilhosa, mas que amam sua liberdade. E há também o medo de ver a relação com o/a cônjuge ser arruinada pela chegada de uma criança.


DF: Mas isso não estaria sob o controle do casal?

SD: O senso comum diz que a chegada de uma criança é o coroamento do amor. Contudo, para muitos casais o relacionamento se degrada após o nascimento de um bebê – justamente por que exige-se muito mais da mulher. Também vê-se uma relação igualitária entre os cônjuges reverter para o antigo padrão de divisão sexual do trabalho – a mulher deixando seu trabalho para ficar em casa cuidando dos filhos e o homem trabalhando fora para prover a família – com a chegada do primeiro filho. No nosso sistema tributário [alemão] a divisão entre os cônjuges também não ajuda nisso. Esse contexto gera situações de dependência financeira [para a mulher] que não devem ser subestimadas.

DF: E mulheres independentes não poderiam mudar isso?

SD: Também é do senso comum que já vivemos numa sociedade de igualdade entre os sexos, em que mulheres podem fazer o mesmo que os homens. As pessoas esquecem, porém, que homens também tem que poder fazer o mesmo que as mulheres fazem, e é aí que o sonho acaba. De fato, é um absurdo que a jornada dupla de trabalho seja um tema exclusivo das mulheres. Por que elas não podem dispor de um(a) cuidador(a) para suas crianças durante o dia, afim de ter um tempo livre? Ao invés disso, as mulheres ainda tem que fazer inúmeros ajustes não só em suas vidas mas nas vidas de seus filhos também.

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Sarah Diehl. Imagem de perfil de sua conta no Twitter

DF: Você está fala

ndo das “mães-helicóptero”*?

SD: A maternidade é hoje um dos aspectos de nossa sociedade competitiva. A criança feliz se torna um símbolo da capacidade m

aterna. Contudo, quando há problemas, só a mãe é vista como responsável.

DF: Isso também está ligado à nossa idéia de família nuclear.

SD: Para mim, a família nuclear é um erro histórico. Ela corresponde a uma transformação social que talvez tenha sido adequada para um determinado momento histórico, mas que hoje sobrecarrega as pessoas e impõe-lhes diversos modelos a que tem de se adequar: o amor romântico, a parceria e a perfeita criação dos filhos. Claramente, isso não funciona, basta ver como os divórcios são frequentes. Apesar disso, insiste-se em dizer que, para uma criança, só
a família nuclear é adequada.

DF: E que alternativas teríamos a esse modelo familiar?

SD: O cuidado e a criação dos filhos são tarefas que devem ser divididas entre muito mais pessoas da comunidade. No Canadá, existe agora a possibilidade de uma família ter até outros quatro adultos legalmente reconhecidos como pais ou mães “sociais”, ou seja, com que se possa dividir essa responsabilidade. Também há alternativas em termos de moradia, como casas multifamiliares ou multigeneracionais. Visitei, por exemplo, uma república no interior
[da Alemanha] em que habitam quarenta adultos e cinco crianças. As crianças tem conexões familiares mais estreitas com alguns dos adultos ali, mas todos cuidam delas. Por que esse modelo não funcionaria? A dificuldade é encontrar esse tipo de moradia nas nossas capitais e grandes cidades.

DF: Em “famílias-patchwork” também há hoje formas de parentalidade social.

SD: Sim, mas ainda é difícil para homens que desejem ser “pais sociais”. Os homens não são vistos como competentes para cuidar de crianças, ainda mais quando não são seus filhos. No dia-a-dia, porém, são reconhecidos e festejados quando decidem participar desses cuidados. Por outro lado, sua capacidade é sempre diminuída: pergunta-se sempre “você precisa de ajuda?”, como se eles não pudessem muito bem fazer tudo sozinhos. E isso atinge até pais
biológicos.

DF: E maternidade “social”?

SD: Esta também não é tão facilmente aceita. Aí afloram os ressentimentos: “você não consegue cuidar bem de uma criança pois você não é mãe, e nem quis ter filhos.” Mas quantas mulheres sem filhos trabalham na área da pedagogia, por exemplo? E elas até dizem: “Prefiro cuidar de vinte crianças no jardim de infância do que de uma em casa.” Aí fica claro que a acusação de irresponsabilidade frequentemente jogada nas mulheres sem filhos é de fato uma bobagem.

DF: Então, como as mulheres que são mães podem preservar a sua independência?

SD: A família nuclear não é a opção mais acertada. A socióloga Eva Illouz defende a tese, ousada e até dolorosa, de que a melhor forma de ter filhos talvez seja fora do âmbito de uma relação romântica, de casal, e que talvez uma relação de amizade seja a melhor opção. O que não quer dizer que essa relação de amizade não deva ser menos estável ou leal do que uma relação romântica. Quanto a isso, acho que faz muito mais sentido pois também tira dos pais o peso dessa expectativa de romance. De qualquer forma, muitas pessoas tem a necessidade de experimentar outras formas de viver junto, e penso que não devemos colocar obstáculos em seus caminhos.

Fonte: https://www.freitag.de/autoren/juloeffl/ein-historisches-versehen
Tradução de Ana Luiza Koehler, natural de Porto Alegre (RS), arquiteta e urbanista de formação (UFRGS), ilustradora e quadrinhista nas áreas editorial e museográfica por opção.

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