“Nós não tivemos filho para morrer na mão da polícia”

Este não era o retorno planejado pelo Coletivo, mas depois dos ataques sofridos pela cantora Tati Quebra Barraco, após denunciar a morte do seu filho durante uma operação policial, não há nenhum assunto que seja mais urgente.

Apesar de toda solidariedade que nós como mães temos com todas as muitas mães que perdem seus filhos no genocídio da juventude pobre e negra corrente no Brasil, nós não podemos falar em primeira pessoa sobre essa situação. Portanto, eu resolvi transcrever aqui um forte depoimento que ouvi há alguns dias, de Ivanir Mendes de Santana, mãe de Moisés Mendes de Santana, morto em outubro, na comunidade do Pavão-Pavãozinho, zona Sul do Rio de Janeiro:

“Fui pro morro porque não tive opção, mas se eu tivesse opção como muitas mães aqui eu não estaria morando em uma comunidade. Aí cheguei do trabalho e recebi aquele telefonema horroroso: “Ó, vem aqui que o seu filho sofreu um acidente, ele tá no Miguel Couto”. Você joga uma roupa no corpo, você sai correndo e quando tu chega lá, alguém fala pra você: “olha, você é mãe, mas você só tem cinco minutos pra reconhecer o corpo do teu filho”. E aí alguém ainda me falou: “você tem que se controlar porque tem gente”. Por isso que a gente fica doente, a gente fica a base de remédio. Sabe por quê? Porque eu vim do Nordeste, trabalhei a minha vida toda, de domingo a domingo, e depois você leva na cara que você é mãe de marginal, e você tem que provar que teu filho não é marginal, que você não é mãe de bandido, que você saía de casa cinco horas da manhã, e chegava sete horas da noite pra botar o pão dentro da tua casa. E aí quando eu cheguei lá no Miguel Couto, achando que ia bater nele, que ia brigar com ele, eu encontrei ele na enfermaria. Ele estava nu, dentro de um saco preto, todo cheio de sangue e eu não podia chorar, porque tinha muita gente dentro da enfermaria e eu só podia ver meu filho de vinte anos por cinco minutos. E ele estava nu com uma facada aqui ó.

Você sabe o que é você ver seu único filho nu, cheio de sangue, dentro de um saco em cima de uma maca? Uma criança prematura que você teve com seis meses, e você trabalhava dia e noite, descia a ladeira pra lavar roupa, e você sofreu vinte anos pra ver aquele bebê de poucas gramas se tornar um homem e um belo dia você ver seu filho morto, no Miguel Couto, numa maca gelada. E você ter cinco minutos pra ver seu filho morto.

E aí me tiraram de dentro da sala e quando eu cheguei lá fora, o enfermeiro falou pra mim que foi troca de tiro. E eu pensando: como é que houve troca de tiro se eu vi uma facada aqui no peito do meu filho? E aí eu descobri a verdadeira história: pegaram meu filho, deram um tiro de cima, quando ele tinha ido na birosca comprar um biscoito e um Guaravita. E aí mandaram ele parar e ele continuou, e aí um vizinho disse: “Moisés, desce!” Moisés significa nascer das águas. Eu sou evangélica e como ele nasceu prematuro, logo eu botei esse nome. E aí Moisés estava carregando um pacote de biscoito e um Guaravita. E aí deram um tiro e Moisés caiu na frente da casa do meu amigo. E aí eles saíram arrastando Moisés e o vizinho disse que ele falou: “eu não quero morrer”. E aquela voz fica até hoje na minha cabeça.

Imagina tu sendo mãe e alguém te diz que saíram arrastando seu filho nas escadarias e ele falava assim: “Não! Eu não quero morrer!” E pegaram meu filho e levaram pro beco lá de trás e acabaram de matar ele. Depois arrumaram um lençol e taparam o rosto dele e quando a mulher dele chegou, falaram que não era pra ver que estavam levando pro Miguel Couto. Aí tiveram a coragem de falar pra mim que foi troca de tiro. Meu filho foi esfaqueado depois do tiro. E aí agora eu tenho que brigar na Justiça, porque não teve troca de tiro.

Primeiramente, a gente quer se suicidar. Depois Deus fala pra você: “Você é forte! Você é fênix!” Deus te avisa a se juntar a essas mães pra provar pra sociedade que seu filho não é bandido. Que você não é máquina de fazer marginal. Que os verdadeiros marginais estão aí com bilhões, trilhões e a gente que é mãe, que trabalha de faxina, que faz salgado, e ainda leva nome de “mãe de bandido” e hoje pra eu dormir eu tenho que tomar remédio controlado. Cheguei lá no hospital e não tinha nem linha pra costurar meu filho, costuraram com barbante. Você sabe o que é você ver seu filho costurado com barbante? E você vê seu filho igual um bicho e você vira fênix, você ressuscita das cinzas. Porque você não dorme mais, você precisa de remédio pra dormir. Sabe por quê? Porque eu escuto a voz dele assim: “eu não quero morrer, eu não quero morrer, eu não quero morrer…” E essa voz que fala no meu ouvido, porque todo mundo chama a gente de louca, até acontecer conosco.

Aí sabe o que acontece? Deus me deu a resposta. Essa voz que eu escuto: “eu não quero morrer, eu não quero morrer, eu não quero morrer…” é a mesma voz que vai falar todo dia nos nossos corações que não podemos deixar de lutar, não podemos deixar que nossos filhos morram como bandidos, não podemos deixar que o Estado pense que a gente é máquina de marginal. Não podemos deixar que o Estado pense que quem mora em comunidade é prostituta, é vagabunda, é traficante. Eu fui vender água na rua, e eu comia um pacote de amendoim, pra poder fazer faculdade de Gastronomia. Eu trabalhava e o dinheiro só dava pra comprar o material. Eu tinha que comer amendoim porque eu não podia pagar a comida da faculdade. Com muita luta, queria tirar meu filho de dentro do morro, lutando, lutando, lutando e hoje o Estado nos chama de fábricas de marginais, e quando uma mãe vai visitar um parente em Bangu, “aí, olha a mãe de bandido!”.

Deus é o único que tem poder de dar a vida e quem pode tirar a vida também é Deus. Nós somos sim abençoadas! Nós não tivemos filho nem pra morrer na mão de polícia, nem na mão de bandido. Nossos filhos são herança bendita do Senhor e Deus vai fazer o justo.”

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Ivanir participa de ato em solidariedade às famílias dos cinco mortos na chachina de Costa Barros. Foto de Tânia Rego para a Agência Brasil. Alguns direitos reservados.

A solidariedade e sobriedade diante da dor dessas mães não é opcional neste espaço que se junta ao coro de vozes contra a guerra às drogas, contra as políticas de segurança de confronto ostensivo, e contra o assassinato sistemático perpetrado por representantes do Estado, não importam quem sejam os mortos, ou do que sejam acusados de fazer. Comentários em discordância serão banidos.

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