Golpe da barriga, um golpe masculino e de Estado

Por Camila Fernandes

É muito comum ouvirmos por aí que, fulana deu um “golpe da barriga”. Aquela personagem de filme que, no desespero de uma relação derradeira, não hesitou um segundo, foi lá, planejou tudo e na surdina, conseguiu engravidar! A vilã da novela, ruim que só ela, que para prender o bom moço, perdidamente apaixonado por outra, nem pensou duas vezes, deu o golpe da barriga. Pulou anticoncepcional, embebedou o cara, furou camisinha, fez oferenda na encruzilhada, colocou aquele decote suntuoso, fez que não ia dar, mas era só charminho. Deu. Olha ela: “teve filho para prender marido”! “Mas quem disse que filho segura homem? Ah, tolinha!”. Dizem as línguas sabichonas e ferinas, visionárias de todos os futuros possíveis. Vai ficar sem eira nem beira, na rua da amargura.

Golpe da barriga. Quem nunca ouviu falar? A mulher ardilosa, desesperada, usurpadora, calculista, que arma o grande ataque. Não é um assalto a banco. Não é uma invasão a um prédio federal em plena manifestação. Não é uma aventura para esconder drogas no corpo inteiro e tentar atravessar uma fronteira nacional. Não é o golpe dado por Michel Temer e o seu grupelho de sorrisos amarelos. Não é nada virtuoso, cheio das boas vontades. É outro golpe, um golpe de mulher, comezinho, feito entre lençóis, sugerido pela mãe ou uma amiga. Sabedoria acumulada em gerações. Arquitetado num banheiro de boate, ou num apartamento, ou no quarto de um motel, ou naquele encontro casual. Um golpe da barriga, tal qual. É o que dizem.

Mas veja bem, pelo que se diz deste golpe, ele nunca dá certo. Os desdobramentos volta e meia resultam em uma mulher sozinha, abandonada e amargurada com uma criança a tira colo. E o roteiro confirma a tal tolice, profetizada na boca do público que acompanhou a trajetória desta aproveitadora. Sim, golpista. O máximo que vai ganhar é uma pensão alimentícia paupérrima, que mal vai dar para pagar as compras do mês, com muita economia, no Mundial ou no Guanabara.

A criança, se tiver muita sorte, vai ganhar o nome do pai na certidão. Mas que fique claro, desde já, que o documento que garante a paternidade do homem não garante afeto, reconhecimento e presença dada ao filho. São coisas diferentes, entenderam? Legalidade, afeto e cuidado. Uma coisa é um documento, daqueles papéis que carecem de sentido se não forem preenchidos de vida. Não vamos confundir as bolas. Ser pai presente e\ou oferecer pensão já são outros quinhentos, mais complexos.

            Ah, as narrativas da vida, dos vizinhos, da família, do mundo, dos jornais, da novela, do SBT e do Jornal Nacional! Da rede social. Não contaram uma coisa importantíssima. Esqueceram ou boicotaram talvez, de modo proposital, um segredo milenar. Guardado as sete chaves nas mãos robustas da deselegância e da mesquinhez. Segredo este que vou contar agora, sem qualquer pudor. O que nossos interlocutores não dizem é que tem homem que dá golpe da barriga em mulher.

Você está doida? Como assim? Sim, meus caros leitores. Dão mais que chuchu na serra. Estou para dar com pau em tanto que tem por aí. Cresce igual capim, lambe tudo que vem pela frente. Sem o menor dó, sem a menor piedade. Existe sim, homem que aplica golpe da barriga.

Estes tipos em geral ignoram o fato de que suas genitálias vertem substâncias com capacidade de fecundação. São o que eu chamo de “espalhadores de sêmen”. Fazem filhos em mulheres, sem a menor preocupação com nossas capacidades reprodutivas e suas consequências. Não usam pílula, nem camisinha, pois isto é preocupação de quem tem útero e não tem coisa pior que chupar bala com papel. Outros meninos também não adquiriram o hábito de usar preservativos, de modo que o acessório atrapalha a sua performance sexual. A sexualidade masculina, pode não parecer, tem lá suas fragilidades. Uma vez o filho feito, ficam aterrorizados com a gravidez, sugerem a possibilidade de um aborto, ainda que em muitos casos alguns homens se manifestem publicamente contrários a descriminalização de tal prática como dever do Estado.

Outros dizem que tudo vai dar certo, que não há motivo para qualquer preocupação. Ao longo do crescimento da criança, os espalhadores de sêmen se dão conta que um filho demanda obrigações, presenças e gestos compulsórios de atenção. Além deste quantum de fazeres, soma-se também um fluxo constante de dinheiro, afeto e paciência. Porém, nesta parte, nossa Sociedade, seja através da família, instituições ou comentários de pessoas comuns, se responsabiliza em grande medida de isentar o homem da responsabilidade reprodutiva que lhe compete. Dizem mais ou menos coisas nesse sentido: que se as mulheres são as que mais sofrem com as consequências de uma gravidez, porque diabos é que elas não se previnem? Logo, a culpa é sua, o filho é seu, se vira. Você sabia.

Mas ora, este homem fez um filho! Contribuiu com componente biológico para a produção de “matéria viva”, como diz Elena Ferrante, ao aludir a ação de Nino Sarratore na tetralogia de fama internacional. Como dizem as sábias mulheres populares, “eu não fiz este filho com o dedo!”. Como pode, vivermos em uma coletividade na qual homens se desobrigam tão facilmente das crianças que eles deixam no mundo? Como criamos estes laços de descompromissos e ausências mútuas que ignoram todo sentido de comensalidade, de relação, de interdependência, que fundam as nossas bases de humanidade? Onde estamos falhando? Quem deixamos de cobrar ou pedir atenção? Quem deixou de fazer a sua parte?

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Quando um homem dá um golpe da barriga, ele deixa a mulher numa gravidez insegura e solitária. Ele transmite publicamente que a obrigação com o filho é da mulher. Ele se resume a pagar uma pensão alimentícia. Ele muitas vezes nem é obrigado a tal, já que não tem contracheque e “o país está em crise”. As coisas estão muito caras e no final a mãe vai se virar. Ainda assim, ocorre um fenômeno interessantíssimo: ele muitas vezes não se priva de ostentar que tem um filho bonito e saudável. Declarações abundantes de amor a criança não faltam. Eles podem, desta maneira, ter um filho, sem cuidar da criança. Percebem o quanto este é um golpe eficiente? Imagina você poder dizer que tem um filho e não precisar se ocupar dele no cotidiano? Vou utilizar uma metáfora bem rasa. Imagina que alguém fabrica um carro para você, levou tempo, planejamento, milhares de mãozinhas ajustando peças e custos para fazer este bem. Entretanto, você não precisa pagar nada por isso e pode andar nele sempre que quiser. Se pagar, pode pagar o mínimo, um custo social. Sem se preocupar com estacionamento, combustível, trocar as peças, se está pegando chuva ou com o motor quebrado. Você se deu bem, correto? Pode se utilizar de uma criação às custas de outros sem participar do processo criativo que foi possível tornar aquela vida\bem apresentável. É só pegar e usar, quando não quiser mais, deixa de lado, tem alguém que vai cuidar para você.

Um golpe da barriga masculino se caracteriza, portanto, em usufruir do gozo, alegria e privilégios simbólicos do convívio com uma criança, sem arcar com os prejuízos, hesitações e sacrifícios que decorrem da criação e manutenção desta vida no mundo. É também um atestado de masculinidade e virilidade, já que as crias foram produzidas com aquela participação vindas de seus corpos. Homens se fazem desta maneira como “pais”, sem precisar necessariamente cuidar ou pagar. Tornam-se assim cidadãos “responsáveis” e “homens de bem”, porque tem filhos para criar, embora não necessariamente cumpram com a metade das rotinas existentes na criação de um humano. Reificam assim a máxima estruturalista e do Direito moderno: a paternidade é simbólica, a maternidade é real.

Neste ínterim, alguns vão falar, “bota pra pagar pensão! ”. Entretanto, sabemos que nossas instituições se revelam ainda incipientes no trato com os emaranhados de vínculos e expectativas não cumpridas. Um dos instrumentos mais famosos no imaginário social é a chamada pensão alimentícia.  Este recurso do Direito da Família e da Justiça que visa atender o binômio necessidade X possibilidade, como aludem os profissionais da área. Porém, dadas as minhas andanças de pesquisa de campo e até por conta da vivência recente em um processo de justiça, tenho observado que as batalhas por pensão alimentícias são dolorosas, vagarosas e muitas vezes atualizam diversas violências de gênero.

É horroroso saber que mulheres criam crianças com a quantia de R$ 100,00, R$ 200,00. Observar o contingente de mulheres que chega cedo a Defensoria Pública e que pleiteia o mínimo possível para seus filhos. Mulheres em sua maioria negras, migrantes e trabalhadoras. Audiências feitas em cima da hora, sem qualquer conhecimento mais profundo das histórias reais, encontros desmarcados, documentos acionados e incapazes de narrar a vida cotidiana[1]. Alguns operadores da lei certamente se destacam e possuem uma visão mais progressista e menos assimétrica das relações de gênero. Entretanto, parece que em todos os níveis sociais ainda somos todas tratadas como alguém que quer enriquecer às custas de uma pensão alimentícia. Somos vistas pejorativamente como “Lucianas Gimenez”, mulheres cristalizadas como “visionárias”, narradas como aquelas que deram um golpe do baú minuciosamente planejado. Lembro de um comentário feito certa vez por um conhecido cineasta numa festa, ele contava sobre a forma como Luciana havia engravidado: “ela planejou tudo, já tinha tudo esquematizado, fazia tabelas, ela soube que ele (Mick Jagger) estaria aqui, foi atrás do sofá da festa de fulano, ela embebedou ele e conseguiu”. Como é possível a sedimentação cultural que embasa o enredo destas histórias que são entoadas? No fundo, não importa o que aconteceu, Luciana deu um golpe. E é este é o imaginário social do qual participamos: Somos todas golpistas que aplicam golpes da barriga, a torto e a direita, e enriquecem às custas de pensão. É esta mesma visão que está na base de feminicídios como o de Elisa Samudio, uma mulher que buscava o reconhecimento moral, afetivo e material de seu filho. Mulher que fora e ainda é narrada como uma caçadora de fortuna. Indevida.

Este cenário tão fabuloso e fantasioso não condiz com a realidade da distribuição das tarefas entre homens e mulheres. A nossa maciça realidade é feita de batalhas por pensões alimentícias que giram em torno de valores bem inferiores ao salário mínimo. Mulheres precisam ameaçar, chorar, pedir, se humilhar, barganhar, esperar e se submeter a toda a sorte de relacionamentos abusivos para conseguir um depósito por mês. Sempre dado como a expressão máxima da obrigação masculina. Estas mesmas mulheres, educam crianças com uma quantia miserável e ainda são classificadas como mães negligentes, nervosas e descuidadas quando não conseguem suprir a necessidade das crianças. Homens que seja por comodidade, economia ou sentimento de revanche machista simplesmente negam uma vida com mais dignidade para seus filhos, ou alguém por acaso considera afinal que um salário mínimo é um valor suficiente para educar, vestir, alimentar e entreter uma criança? Pois bem, grande parte do trabalho feminino se realiza com menos do valor de um salário. As mulheres, que por acaso conseguem fixar um salário mínimo, são tratadas como as verdadeiras rainhas do camarote.

Não esqueçamos também daqueles que simplesmente não pagam nada, não dão nada, estes que simplesmente abandonaram tudo, e que ainda servem como moeda de comparação da boa masculinidade aos que “dão mais, mas nem tanto”, e aos outros que pelo menos, “dão alguma coisa”, porque tem muito homem que nem reconhecer o filho isto fez. O valor de uma pensão é assim equiparado na relação com os piores exemplos, o que caracteriza sua precarização. Ao fim e ao cabo nosso trabalho, o trabalho da maternidade, é sempre negociado desta maneira, na comparação com os piores casos, tal como o emprego doméstico, sempre especulado frente ao menor valor cobrado pela diarista ou empregada doméstica, que faz mais, por um pagamento menor. Não se busca equiparar os valores com as remunerações justas ou dignas, mas ao contrário, se estabelece um valor possível mediante as quantias mais baixas do mercado. Nosso trabalho de cuidado flutua assim, nesta economia imprecisa das importâncias e dos valores financeiros, onde reclamar por dinheiro parece macular nosso incondicional amor materno, sempre sacralizado, porém nunca suficientemente reconhecido em suas necessidades pragmáticas.

É por estas e outras razões que podemos afirmar que, se estamos sob um golpe de Estado, estamos também sob um grande golpe da barriga, dado nos nossos ventres, todos os dias. Nos nossos corpos que fazem filhos para os outros. Nos nossos braços e pernas que carregam muito, mas que devem receber o mínimo. Nas nossas cabeças que se esquentam e que ainda por cima devem garantir o direito dos nossos filhos, através de irrisória pensão alimentícia. Nas crianças negras e pobres que, no limite, serão assassinados nas franjas de estabelecimentos comerciais em plena luz do dia, com golpes na cabeça, com restos mortais oferecidos aos cachorros, com os míseros depósitos de R$150 reais, com as criminalizações dos abortos feitos em péssimas condições de saúde e na clandestinidade. Tudo isto que configura um regime de vidas matáveis e que não importam.

O golpe é de Estado, é nas nossas barrigas e sem dúvida alguma, é masculino.

* Nino Sarratore, comum espalhador de sêmen, figura que atualiza todas as definições costumeiras do termo conhecido como “esquerdo-macho” mas que pode ser encontrado em diversas ambiências sociais, In: Ferrante, Elena. História do novo sobrenome: a amiga genial, volume 2. São Paulo. Biblioteca Azul, 2016.

** (1) Sobre este assunto ver: Vianna, Adriana de R. B. 2015. Tempos, dores e corpos: considerações sobre a “espera” entre familiares de vítimas de violência policial no Rio de Janeiro. In: Birman, Patricia (et al) Dispositivos urbanos e a trama dos viventes: ordens e resistências. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2015.

Camila Fernandes é doutoranda em Antropologia Social pelo PPGAS\Museu Nacional\UFRJ.

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