Sejam pais

Eu acabo de sair de um avião, onde eu viajei rodeada por três famílias padrão, com mãe, pai e filhos. Nos três casos, o homem aproveitava o voo para cochilar, enquanto a mulher distraía os filhos, distribuía os lanches, recolhia a sujeira depois…

Eu não duvido que esses três homens sejam ótimos pais participativos. Mas a coletivização de cuidados ainda está longe de acontecer – mesmo entre os representantes legais das crianças – porque não se trata de participação, mas de prioridade. E a prioridade no cuidado com as crianças ainda é da mulher.

Um homem participativo até troca a fralda dos filhos, leva para brincar, vigia enquanto a mãe toma banho, alimenta enquanto a mãe se alimenta. Mas se ambos estiverem “à toa”, é muito provável que a mulher tome a iniciativa de atender a alguma demanda do filho de ambos, ou que precise pedir ao pai para que ele o faça. E se ambos estiverem envolvidos em alguma atividade, é muito provável que a mãe abandone a sua, para que o pai possa manter a dele.

E é assim que mesmo entre casais harmoniosos, que tenham tido filhos de maneira planejada, onde o homem é progressista e entende que deve desenvolver um papel maior na criação de seus filhos, a desigualdade se instala e as mães seguem sobrecarregadas. Ou dividindo sua sobrecarga com outras mulheres, contratadas para isso ou familiares.

É por esta razão que a matéria de capa da Revista sãopaulo causou tamanha indignação esta semana. Em clima de vanguarda, a revista parece anunciar a emergência de um novo pai descolado, com hobbies diferentes da geração que aproveitava seu tempo livre para jogar baralho, ver futebol e beber cerveja com os amigos. Agora eles fazem viagens radicais, cuidam de plantas e se dedicam a desafios arrojados no trabalho – assim como seus amigos solteiros e sem filhos, que ainda não precisam prezar por estabilidade.

Eu também não duvido que os homens personagens da revista sejam ótimos pais participativos. Mas se eles aparecem em uma matéria comemorativa do Dia dos Pais, que destaca todas as coisas que eles conseguem fazer apesar de terem filhos, é natural concluir que a sua prioridade não é cuidá-los. E qual a novidade disso?

Homens, mesmo morando com seus filhos, sempre puderam escolher em que momentos preferem estar com eles. Porque sabem que eles não estarão abandonados, já que existe ao menos uma mulher para assumir os cuidados de forma prioritária: geralmente a mãe, mas também a avó, a tia, uma babá… Os pais que não moram com as crianças, então, podem vê-las duas vezes por mês e em feriados alternados sem o menor constrangimento, próprio ou da sociedade.

É uma lógica perversa que aprofunda o estereótipo de mulher cuidadora, ao mesmo tempo em que de fato nos torna mais aptas para as funções de cuidado, pela prática compulsória. Com o tempo, os pais podem até dizer que não fazem certas atividades pelo bem das crianças, já que as mães as fazem melhor! E a roda segue girando e se retroalimentando.

É evidente que ainda mantemos e devemos prezar pela nossa individualidade quando temos filhos, mas crianças e adolescentes têm uma série de necessidades de ordem prática e afetiva que não são capazes de suprir sozinhas, e inclusive para que a sua sobrevivência seja garantida, devem ser prioridade em grande parte dos momentos, para as pessoas que as rodeiam. E na minha opinião, deveriam ser uma prioridade social, mas essa é uma questão que merece seu próprio texto.

Freqüentemente, quando discutimos modelos de famílias nucleares heteronormativas, aparecem críticas sobre o conservadorismo do assunto, por ainda estarmos falando de heteronormatividade ou mesmo de família, tentando reformar práticas, quando poderíamos lutar pela quebra total desses paradigmas e conceitos. Mas eu confesso que ser uma mãe solteira, cercada por outras mães solteiras, me fez reformista. Enquanto os arranjos familiares envolvendo crianças ainda forem os mais numerosos – e são, de acordo com o IBGE – eu continuarei achando essencial que a gente tente melhorar o aqui e agora. Além do mais, famílias não nucleares ou homoafetivas apresentam nuances próprias da ausência da disparidade de gênero – apesar de alguns estereótipos serem reproduzidos – sobre as quais eu seria incapaz de falar, pela falta de vivência ou de estudo aprofundado da questão.

Ainda sobre números, o mesmo IBGE aponta que mulheres são as responsáveis principais por crianças em impressionantes 83,6% dos casos. E diversos dados sociais combinados mostram como a divisão não igualitária dos cuidados somada às expectativas a respeito dela, contribui para que as mulheres sejam minoria da força de trabalho remunerada, tenham renda menor, e ainda assim tenham maior carga horária de trabalho.

Percebam como questões aparentemente individuais e domésticas refletem e reforçam todo um cenário de opressão feminina e de distanciamento dos pais de funções cuidadoras. Ainda hoje, de maneiras mais ou menos sutis, confinamos mulheres ao lar e damos o mundo aos homens.

Muitas vezes, discutimos maneiras de descolar as mulheres das funções de cuidado. Pois eu acho que o cuidado é não somente essencial como chave pra uma sociedade mais acolhedora e igualitária. Logo, deve ser valorizado e coletivizado. E exercer o cuidado atento dos seus me parece uma boa forma de ensejar na masculinidade – um vetor ao qual estão ligados diversos comportamentos de segregação e contenda – a valorização do cuidado em si.

Já que hoje celebramos o Dia dos Pais, homens com filhos: sejam. E promovam a transformação necessária para que este termo represente o que deve representar. De quebra, aproveitem as diversas benesses que a escuta atenta do outro, colocando-o numa perspectiva prioritária, pode proporcionar.

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